
O escritor Nei Leandro de Castro, autor de “As Pelejas de Ojuara”, chegou naquele ponto que pode preferir. Prefere não falar de um Ojuara – “o homem que desafiou o diabo” – como um herói-arquetípico dos potiguares. É só um herói folhetinesco. Também prefere não falar de ser – pelo menos não tão diretamente – o romancista mais bem-sucedido do Rio Grande do Norte. Mas assume que se conta nos dedos, em toda a história literária do RN, os bons romancistas do estado. Já os poetas, topam-se com eles nas esquinas fazendo jus ao velho verso. Da geração dele, destaca Luís Carlos Guimarães. E, da geração atual, seis poetisas (sim, gênero feminino) com uma produção de nível nacional, avalia ele.
Nei Leandro não esconde a modéstia. Confessa que faz bem para o ego que sua obra, sobre a aldeia, transponha os muros dela. Porém, mais do que falar sobre essa aldeia, ela parece ser mais um ponto de passagem do que de partida. Aqui, o Internetcidade sai da sua “fleuma jornalística” exigida para dizer que, se há algo que Nei Leandro deixa de lição é sua ousadia. De arriscar quando a literatura precisa se fazer maior que ele. E deu certo!
Descrente com os fatos daquele momento, foi para o Rio de Janeiro no caminho de muitos migrantes no final da década de 1960. Não tem nem idéia como sobreviveu no início. Já bem sucedido com a publicidade, deixou o Rio de Janeiro, o trabalho e até o Pasquim do qual era colaborador e voltou para Natal para escrever seu primeiro romance “O Dia das Moscas”. E para dar vida ao seu mais famoso livro, “As Pelejas de Ojuara”, mais tarde transformado em filme, exilou-se no inverno nos Estados Unidos por quatro meses. Desse inverno solitário nasceu um sertão mítico e lendário e um andarilho-vaqueiro destemido, resgate de histórias ouvidas na infância na cidade quase mítica de Caicó.
Para Nei Leandro, a pesquisa não é interesse, mas necessidade de dar mais consistência a uma obra. Já a geografia a influencia diretamente. Os seus romances puxam para uma temática regional, com toques humanos e físicos dos potiguares na composição dos seus personagens e cenários. Isso está marcado nas próprias “Pelejas” ou em “Dunas Vermelhas”, romance inspirado em uma inimaginável mas real revolta comunista na capital na década de 1930. Já o Rio de Janeiro, sua urbanidade e violência provocam a verve poética e erótica. “É algo inexplicável”, afirma. Porém, morar na praia de nudismo de Tambaba na Paraíba, ah, isso sim, seria uma espécie de orgasmo criativo do qual jorrariam livros e mais livros de poesia sensual.
Mas desde 2005, o bom filho à casa tornou. De pazes feita com a cidade adotada (Nei nasceu em Caicó), ele diz não ter mais nada contra Natal. E que Natal também não tem nada contra ele. Mas posta um aviso aos navegantes: “Íntima, entre o rio e o mar…convém amá-la.” Isso é parte do presente de Nei Leandro ao Internetcidade e à cidade de Natal, como uma espécie de dica, parte de um mistério, para quem deseja conhecê-la, entendê-la…vivê-la. Se muitas vezes passa por cidade de vida fácil – e mais uma vez saindo da tal fleuma -, Nei Leandro deixa a entender que Natal é uma cidade ainda a ser possuída, a ser conquistada, de que falta o “Gesto” e a “Medida” certa para o encaixe da luva. De que, haveria muita Natal para pouco Natalense. É algo a se refletir. Afinal, dele saiu o maior romance produzido no estado e o alvissareiro Ojuara, cabra entendido nas artes da sedução e do amor de mulheres de cercanias que vão do Beco da Lama até a lendária e paradisíaca São Saurê.
IC_Por que você saiu de Natal? E por que voltou?
Nei Leandro_Saí de Natal, em 1968, por problemas pessoais, por descrença em relação a muita coisa, inclusive descrença pela poesia, depois do famigerado golpe militar. Num gesto de desespero, saí com a roupa do corpo, pouquíssimo dinheiro, e peguei um ônibus com destino ao Rio de Janeiro. Os primeiros meses foram terríveis, não sei como sobrevivi. Mas aos poucos as coisas foram se ajustando, veio o primeiro emprego, veio o segundo, até que entrei na publicidade. Paralelamente à publicidade, onde trabalhei como redator e diretor de criação em algumas das principais agências do Rio, colaborei com O Globo, o Jornal do Brasil e O Pasquim. E assim se passaram 37 anos. Voltei para Natal, em 2005, depois que me aposentei.
IC_Qual a influência das cidades sobre a sua obra?
Nei Leandro_Os meus romances são todos de tema nordestino, com certa presença da geografia física e humana de Natal. Os meus contos são todos ambientados no Rio de Janeiro: urbanos, eróticos, com certa violência da cidade grande. Jamais senti a menor inspiração para escrever um romance ambientado no Rio. Jamais senti inspiração para escrever um conto com trama nordestina ou natalense. É esse tipo de influência que as cidades exercem sobre o meu trabalho de ficcionista. E que, sinceramente, não sei explicar.
IC_Como compreender Natal? Você acha que há algum problema com a cidade?
Nei Leandro_É preciso amar uma cidade para compreendê-la. Aceitar seus defeitos, suas limitações e, ao mesmo tempo, amar com intensidade as suas virtudes, as suas belezas. Natal não tem nenhum problema comigo e a recíproca é verdadeira.

A primeira vez, de novo: republicar o seu primeiro romance pelo Jovens Escribas deixou Neil uns 40 anos mais moço.
IC_As “origens” dos potiguares parece ser o ponto de partida de “O Dia das Moscas”. Na verdade, muito pouco de nossa história é difundida. Temos alguns “heróis”, mas conhecemos muito pouco sobre eles. Há algum problema com essa história potiguar?
NLC_ Não pretendi escrever a história dos potiguares no meu romance “O Dia das Moscas”. A nossa história é muito pouco conhecida, pouco divulgada, e o nosso herói mais conhecido é o índio Poti, batizado de Felipe Camarão. Mas temos uma miscigenação muito acentuada de europeus e índios, e isso eu quis mostrar no começo do romance. Tudo de forma mais cômica do que histórica.
IC_Há aquele mote de que em Natal havia “em cada esquina um poeta, em cada beco um jornal”. A própria geração que você se insere parece ter sido muito mais alvissareira. Hoje, porém, fala-se de uma desconexão, uma estagnação cultural. Estamos sendo exigentes? É só uma impressão?
Nei Leandro_Natal continua produzindo muitos poetas. Atualmente, há vários poetas jovens, inclusive seis poetisas do mais alto nível, nível nacional. A poesia sempre foi muito bem representada no RN. A minha geração deu grandes poetas, como Luís Carlos Guimarães, para citar um só exemplo. Pena que não seja conhecido nacionalmente. O que se pode sentir entre nós é a falta é de romancistas. Em toda a história literária do estado, contam-se nos dedos de uma mão os romancistas verdadeiramente bons.
IC_A impressão é de que a História e a pesquisa são elementos importantes em seu fazer literário. Tem idéia de onde surge esse interesse?

Ojuara, na pele cinematográfica de Marcos Palmeira: longe de ser um herói potiguar, é mais um herói folhetinesco, lúcido e valente.
Nei Leandro_Não gosto de fazer pesquisa, não tenho muito paciência. Mas tive que pesquisar bastante para escrever “Dunas Vermelhas”, ambientado em novembro de 1935, quando ocorreu na cidade um levante comunista, o primeiro da América do Sul. Gostei mais de pesquisar os romances de cordel, os heróis folhetinescos, que deram muito vigor e humor às aventuras de Ojuara pelo sertão nordestino. Pesquisa não é interesse, é necessidade de dar mais consistência a uma obra.
IC_Alguém já disse: “Quer ser universal, fale de sua aldeia”. Causou surpresa para você uma temática tão regional como “As Pelejas” causar tanto interesse ao ponto de se tornar filme?
Nei Leandro_Eu me sinto muito à vontade escrevendo sobre temas nordestinos, natalenses, caicoenses. Na minha infância, ouvi grandes contadores de histórias, mentirosos fabulosos, e o registro ficou em mim para sempre. Quando escrevi Ojuara, tudo veio à tona, bem mais do que no romance de estréia, “O Dias das Moscas”. Falo da minha aldeia, sim, e se o que falo transpõe barreiras, isso é agradável, faz bem ao ego. Mas jamais tive a pretensão de ter o meu romance levado à tela.
IC_Podemos dizer que “As Pelejas de Ojuara” é uma típica jornada do herói? Ojuara é um herói potiguar?
Nei Leandro_Ojuara, depois de ter saído da camisa-de-força de Araújo, faz um périplo pelo sertão potiguar, à maneira de Dom Quixote. Mas ele não é nada quixotesco. É lúcido, valente, sedutor, não briga contra moinhos de ventos, e sim contra grandes valentões. É mais um herói folhetinesco do que um herói potiguar.
IC_Você largou o Rio de Janeiro, o trabalho e o Pasquim para escrever o seu primeiro romance, “O Dia das Moscas”. Para fazer “As Pelejas…”, exilou-se nos EUA. Escrever é algo “crítico” para você? Como atender aos “chamados” de escritor?
Nei Leandro_Quando o desejo de escrever um romance se tornou uma obsessão, larguei tudo no Rio e vim para Natal, onde eu achava que poderia escrever mais à vontade. E deu certo. Para escrever “As Pelejas”, fiz a loucura de passar quatro meses no inverno de Chicago, isolado de tudo. E deu certo. O romance me exige muito, meus personagens se rebelam contra mim, querem mandar e desmandar. Eu preciso estar sozinho para administrar essa doce loucura.

Ao escrever, Nei Leandro lida com uma doce loucura. O romance exige muito dele. Seus personagens se rebelam, querem mandar e desmandar. Para aquietar a obsessão romanesca, precisa estar à vontade, sozinho. Mas quando a literatura precisou se fazer maior do que ele, a ousadia sempre foi recompensada. Nei Leandro de Castro deu certo.
IC_Ter escrito “Universo e vocabulário do Grande Sertão” foi fruto de ter vencido um preconceito da época: Guimarães Rosa. Na sua opinião, você vê algum preconceito hoje, principalmente da nova geração, e que precisa ser superado?
Nei Leandro_No início dos anos 60, alguns medalhões eram contra a obra de Guimarães Rosa. Adonias Filho, Ferreira Gullar, Érico Veríssimo, entre outros, falavam mal do romancista mineiro. Quando li “Sagarana”, “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”, aos vinte e poucos anos de idade, cheguei à seguinte conclusão: só se rejeita a obra de GR por espanto ou inveja. Sob o êxtase que “Grande Sertão:Veredas” me proporcionou, escrevi o meu “Universo e Vocabulário”, que me exigiu cinco anos de pesquisa. Hoje, a obra de Guimarães Rosa é estudada em todas as Faculdades de Letras do país e acredito que já não qualquer sombra de preconceito, em leitores de qualquer idade. Esse meu livro sobre o universo vocabular do “Grande Sertão:Veredas”, é um dos primeiros livros sobre a linguagem do autor de Cordisburgo. Foi premiado pelo Instituto Nacional do Livro e teve apenas duas edições. Gostaria muito que surgisse uma boa editora para publicar uma nova edição.
IC_Como autor de poesias eróticas, pegando este gancho, você diria que Natal é uma cidade “sensual”, “erótica” ou passa muito longe disto?
Nei Leandro_Sensual, erótica, é a praia de Tambaba, na Paraíba, uma das únicas do país onde se pratica o nudismo. Lá a gente pode ver mulheres lindas, nuinhas em flor, à beira do mar. Se eu frequentasse Tambaba, com certeza iria escrever muitos volumes de poemas eróticos.
IC_O que representou relançar “O Dia das Moscas” por um selo de jovens escritores? Como tem visto essa nova geração e sua literatura?
Nei Leandro_Gostei de relançar “O Dia das Moscas” com o selo da editora Jovens Escribas. Gosto do editor Carlos Fialho, muito talentoso e ousado em seus projetos. Torço muito pelo sucesso dele e dos seus sócios de empreitadas literárias. Além do que, ter um livro publicado pela Jovens Escribas me remoçou uns 40 anos…
IC_Por fim, como publicitário, ousaria dar algum “briefing” sobre a identidade de Natal?
Nei Leandro_Uma cidade não se abre fácil, como um guarda-chuva, a quem sequer não a tem. Uma cidade é como a luva: sem o gesto e a medida exatos de quem a calça, jamais servirá a alguém, por mais empenho que faça em possuí-la. Natal não foge à regra que a experiência assinala. Íntima, entre o rio e o mar, se estende. Convém amá-la.
2 respostas Até agora ↓
Avenida Paulista (I) - o amor é importante. porra :: NadacomJus // 1 Abril, 2009 às 5:54 pm
[...] quem quiser conhecer mais o internetcidade, não deixe de ver a entrevista de Nei Leandro de Castro ao [...]
A Pop filosofia de Pablo Capistrano « Internetcidade: cidades e pessoas ligadas, em rede, com o mundo // 17 Setembro, 2009 às 3:15 pm
[...] Capistrano_O Livro de Nei [Leandro de Castro] toca bem nesse paradoxal delírio que comumente tomava conta da cidade. Uma província perdida no [...]