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Somos cegos ao óbvio

24 Junho, 2009 · 1 Comentário

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por Roberta da Purificação

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Restrepo conclama à Ternura

Restrepo e sua ternura: contra o autoritarismo, a co-gestão nas relações

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As consequências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

Roberta da Purificação é jornalista e também está na blogosfera em http://clarapalida.blogspot.com/. A querida amiga deixou um comentário no post do “Amor é importante, Porra!”  falando do livro “O Direito à Ternura”.  Pedimos para que ela fizesse uma resenha sobre o livro, que nos foi prontamente atendido. E aí está!

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo <http://luiscarlosrestrepo.com/php/index.php>, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As conseqüências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

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1 resposta Até agora ↓

  • Manuela Oliveira // 5 Outubro, 2009 às 9:09 pm

    Somos cegos ao óbvio, nos maltratamos e nos ressentimos e isso é uma chaga social, mas é tão difícil curá-la, de qualquer forma esse seu texto nos faz tirar os pés do chão e nos levam a outros horizontes e possibilidades. Parabéns… Adorei

    Beijos

    Manuela

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