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Notícias de um muro invisível

9 Novembro, 2009 · Deixe um comentário

Foto Ariane Mondo

Da “Pequena Paris”, como é conhecida a cidade de Leipzig, a jornalista e documentarista Ariane Mondo vem registrando as suas impressões, resgatando antigos fatos e mostrando a atualidade de uma cidade da ex-Alemanha Oriental (RDA). Mondo vive entre Berlim e Leipzig há mais de dois anos após ter casado com um alemão e, para aproveitar as comemorações dos 20 anos da queda do muro de Berlim, neste 9 de novembro, ela criou o blog THE WALL MEMORIES– tudo em maiúscula, assim como a imponência do que foi o muro um dia, avisa.

A documentarista avisa que Leipzig é uma cidade mediana para os padrões alemães. Com cerca de 510 mil habitantes, é a maior cidade do estado da Saxônia, cuja capital é Dresden. Na época da RDA, era a segunda maior cidade ficando atrás apenas de Berlim Oriental. A alcova de “Pequena Paris” é por ter hospedado muitos artistas em séculos passados. É a cidade natal do compositor Richard Wagner. Outro compositor, Johann Sebastian Bach, teve seus últimos dias por lá e está enterrado em uma igreja local.

O território ex-socialista provoca uma grande curiosidade. Mondo percebe uma certa nostalgia daquela Alemanha, traduzida nos bares Cult ou nas lojas “especializadas em RDA” que mantiveram a arquitetura e objetos do mundo socialista. Mas não é um desejo de retorno. Ao mesmo tempo, encontra uma Alemanha em reunificação de um muro agora invisível. Um processo intenso de reconstrução que deve durar por muitas gerações. “O que é muito bom”. Mas apesar de todos os “muros invisíveis”, ela constata, entre os alemães, uma vontade enorme de quebrá-los. Sobretudo, o das diferenças. “O que é ótimo”.

Ariane é uma cidadã do “Mondo”. Paulista de nascimento, foi pequena ainda para Belém do Pará, passou a adolescência em Natal, fez uma escala em São Paulo para seguir para Cuba onde fez Escola de Cinema. Agora respira os ares de uma Alemanha pós-unificação. E na condição de estrangeira, tem seus olhos bem abertos ao que acontece à sua volta. Apesar de todas essas andanças, ela confessa que o choque cultural é inevitável. Mas, isso, tem de ser usado a favor. O THE WALL é um pouco disto. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco mais sobre o blog e a sua experiência na Leipzig.

Como surgiu o blog?

A ideia já tinha surgido antes, mas por algum motivo se tornou concreta há em setembro de 2009, quando o blog foi criado. Como eu descrevi por lá, a minha motivação maior ao criar o “Memórias do Muro” foi uma vontade em compartilhar informações -não somente históricas-, mas também curiosidades do presente, tendo o foco na região da antiga RDA (Alemanha Oriental). Além do que, sendo eu uma documentarista e jornalista, sinto que é quase uma obrigação mostrar aspectos que são pouco conhecidos do público brasileiro, exatamente no aniversário de 20 anos da queda do muro de Berlim. Seria uma bobeira estar na “cara do gol” e recuar (risos). No entanto, gostaria de frisar que o blog não tem data de validade e não vai morrer depois deste 09 de novembro. Como é um trabalho independente, vai seguir vivo enquanto houver curiosidade das pessoas e coisas interessantes para contar.

Foto Ariane Mondo

Nostalgia apenas para ser lembrada: Leipizig foi a segunda maior cidade do lado socialista. Em transformação constante, Ariane mostra que as memórias são ativas, mas não há divisão em se querer voltar a antes de 1989. Aqui, a Igreja de São Nicolau, palco da Revolução Pacífica

Tenho tido um ótimo feedback das pessoas. Algumas se manifestaram deixando recados no blog, mandando os parabéns por e-mail mesmo ou “retuitando” links para usar um jargão da twitosfera. O ritmo de visitas é frequente, talvez pela aproximação da data comemorativa da queda do muro de Berlim no dia 9 de novembro. No dia 14 de outubro, o blog ultrapassou as mil visualizações, pouco depois de um mês de sua criação. Talvez isso não signifique muito para os blogueiros de longa data que devem receber mil visitas por dia. Mas para alguém que acaba de começar, isso é um grande estímulo. É sinal de que há interesse pelo tema.

O você tem encontrado em uma cidade da antiga Alemanha Oriental 20 anos depois?

Moro em Leibnitz há mais de dois anos e nesse tempo, já vi muitas coisas, observei mudanças e experimentei sensações as mais diversas. Uma das coisas que mais me chama a atenção é a mudança na paisagem urbana. Isso é muito comum nas antigas cidades socialistas. Bom, não vou dizer concretamente o que tenho encontrado, porque se não entrego os temas de futuros posts (risos).

E na própria Alemanha, qual é o zeitgest (espírito do tempo) sem muro?

Se observarmos do ponto de vista da História, 20 anos não é muito tempo. O muro caiu, as Alemanhas se reunificaram, mas de alguma forma, sinto que há uma divisão invisível entre os “países”. Ainda há um leste e um oeste alemão, um mais pobre e um mais rico. Um em reconstrução e um outro mais estável. É natural, então, que os alemães debatam a própria identidade para tentar assimilar as transformações pelas quais o país vem passando nas últimas décadas. Acho que esse é um processo contínuo que deve seguir por gerações.

Como é uma brasileira morar em uma cidade alemã e ainda mais ex-socialista?

Inevitavelmente há um choque cultural, independente de ser na área ex-socialista ou não. Brasileiros e alemães são dois povos muito diferentes, que pensam e enxergam o mundo de maneira distinta. Com o tempo, passei a usar essa fricção a favor, porque não dá pra ficar remando contra a maré. Se é pra morar em outro país e ficar só reclamando da nova realidade, então é melhor arrumar as malas e voltar para o Brasil.

Foto Arquivo Pessoal

Com um olhar atento, de estrangeira, Ariane Mondo registra fatos e resgata a história do que um dia foi um muro que dividiu o mundo em dois

Mas é claro que isso não significa que eu não sinta saudades ou que não tenha meus momentos de fúria com algumas diferenças. Isso é normal quando se está fora de “casa”. Tento resolver logo as pendências, soltar a raiva e ir em frente depois.

E quanto ao fato de estar em um território que já foi socialista: isso provoca em mim uma curiosidade extrema. Daí vou conversando com as pessoas, trocando “uns dedos de prosa” e descobrindo estórias bem interessantes. Entre si, os alemães não são de jogar conversa fora com desconhecidos, mas parece que por eu ser estrangeira, alguns se abrem e conversam numa boa. Quando não querem falar sobre determinado assunto, eles são bem claros e diretos, mesmo entre amigos.

Curiosamente, apesar de todas as diferenças, tenho visto mais e mais brasileiros casando com alemães e vice-versa. Parece que há um entendimento nas diferenças – o que, diga-se de passagem, é ótimo!

E você ainda encontra resquícios de um mundo socialista?

Sim. É claro que não ao extremo, porque a sociedade alemã mudou muito desde a queda do muro em 89. Mas vendo as coisas sob um olhar estrangeiro, percebo uma certa nostalgia em algumas pessoas. Isso se traduz em lojas especializadas na venda de produtos feitos na RDA, bares “cult” que mantiveram a arquitetura e antiquários somente com objetos da era socialista.

Não entendo que isso signifique que as pessoas desejem, necessariamente, a volta daquele país do passado. Acho que tem gente que procurou manter um pouco da memória acesa na vida atual da região, até mesmo para se diferenciar do lado Ocidental da Alemanha. A palavra “diferenciar” aí, não deve ser entendida como separatista. Tem mais a ver com (re)criar uma identidade própria.

Penso que isso tudo é muito saudável, desde que não descambe para a distorção dos fatos: as pessoas viviam cerceadas naquela época e não há que se ter dúvidas a respeito.

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Internetcidade no programa Roda Viva nesta quarta

7 Julho, 2009 · Deixe um comentário

Foto Edu Girão - Flip 2009

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também enviará imagens. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também acompanhará a gravação. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

Abraços, Paulo Celestino.

P.s: O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

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Internetcidade na Revista da Folha

11 Junho, 2009 · 2 Comentários

reprodução

É com orgulho que a gente bate o bumbo e repercute que o blog Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) foi citado na matéria de capa “Pintou o amor” da Revista da Folha assinada por Leticia de Castro no último domingo (07/06).

Tendo como pauta o amor e as formas de registro dele entre os apaixonados aproveitando a efeméride do Dia do Namorados, o post “O Amor é importante, porra!”, sobre a pixação, que como um viral invade a cidade de São Paulo, ganhou citação na matéria de seis páginas. Abre aspas da Revista da Folha, a partir do texto blogado:

“Em meio a essa busca insana de tudo o que é sólido e se desmancha no ar, o que é importante? Meu amigo, o amor é importante. Com numa música do Roberto, todos estão surdos. Daí o grito!

O texto sai entre comentários dos escritores Xico Sá, Clara Averbuck e outros colegas blogosfera que andam a repercutir a pixação.

Vale ainda dizer que o post com bela foto do amigo Fábio Candeias gerou o maior número de repercussões e de acessos desde a criação do blog. Não viu ainda? Pulem de uma perna só lá em http://internetcidade.wordpress.com/2009/03/27/o-amor-e-importante-porra/

Vários sites e blogs também estão “pingando” o post e a foto, entre eles o Pictura Pixel, do fotógrafo Cláudio Versiani, o do colega Rodolfo Viana, o Balaio Vermelho do grande Moacy Cirne e outros como o da fotógrafa Carla Zavatieri. Sem falar na Twittesfera! Como apontou o próprio Versiani, essa rede é sensacional!

Ah, só pra não esquecer, prestes ao Dia dos Namorados, minha homenagem aos casais mundo afora e ao próprio amor, em forma de um grito viral que se espalha em muros, bits e ondas pelo mundo:

“O amor é importante. Porra”

Abraços (amorosos) do Paulo Celestino

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O amor é importante, porra!

27 Março, 2009 · 30 Comentários

foto: Fábio Candeias

Muros da Consolação: quando convidei meu amigo e fotógrafo Fábio Candeias a fazer a foto da pixação, saímos com o objetivo de registrar a frase. Ele captou muito mais.

Quase como um viral, a frase se espalha pelos muros da cidade de São Paulo. Essa, especialmente, está pixada no cemitério da rua da Consolação, vista no sentido Centro-Rebouças. Há notícias também do mesmo “grito” em Pinheiros-Vila Madalena. Tem ainda um cartaz na rua Augusta. E deve estar circulando loucamente na “twittesfera”.

Logo pela manhã, na última quarta-feira, subindo para uma reunião (aquelas famosas…), o impacto foi grande e ressoou na cabeça ao longo do dia. Simples, mas direto, com um “punch” nocauteante. Acordei. Nestes tempos, um tanto sórdidos, quem têm falado do amor? Nos noticiários, nas manchetes, em toda essa confusão (que não é minha, não é nossa)…em meio a essa busca insana de mercados, de superávits, de poder, dos bônus (sem os ônus), em meio a todo o “meltdown”, de tudo o que é sólido e se desmancha no ar, o que é importante? “Meu amigo…o amor é importante…”. Sim, como numa música do Roberto, todos estão surdos. Daí, o grito, o furor!???

A pixação lembra uma outra, também marcante, talvez de uns 30 anos atrás. A célebre “Sem tesão não há solução” – eternizada pelo escritor e terapeuta Roberto Freire – foi pixada no mesmo muro do cemitério da Consolação. Dela, surgiu todo um conceito e um livro, que movimentou e ainda movimenta gerações. Juntando esse desespero anônimo em 2009, e aquela frase clássica da década de 1980, quem sabe também anônima mas registrada pelo Roberto, arrisco a dizer:

“Sem amor, não há tesão e nem solução, porra!”

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Um eterno retorno

28 Agosto, 2008 · 3 Comentários

Elisa Elsie

Uma verdadeira incubadora de bandas de rock. Assim podemos definir o “conglomerado” DoSol. Espécie de casal 20 do rock natalense, Ana Morena e Anderson “Risuenho” mantêm estúdio, portal na Internet, Tv, produtora, festival e bar, agora transformado em Centro Cultural DoSol. Projeto aprovado na lei municipal de incentivo à cultura Djalma Maranhão, a grande missão no momento é conseguir patrocínio para manter a casa funcionando como espaço para apresentação das bandas, oferecendo ainda oficinas práticas e teóricas de música e também exibir filmes e documentários.

Ninguém melhor do que eles dois para conversar sobre a “fraternal” cena rock natalense e o que ela tem a ver com a identidade cultural da cidade. Morena não alivia e nem se intimida de dizer sem culpas freudianas que os “meninos” natalenses são uns “amamãezados”. Palavra inventada, a questão é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. E quem quase cansa de esperar, nem um pouco sentado, foram eles dois. A alternativa do Centro Cultural vem para salvar o espaço do fechamento.

Anderson e Ana Morena, certamente, já guardam um capítulo especial na história do rock natalense. São dois empreendedores da música. Hoje, estão envolvidos na produção de 10 bandas no selo DoSol. Uma história que começou há 10 anos em shows dele na extinta Ravengar e, dela, no Memória Rom. Uma dos primeiros projetos em conjunto foi a banda Officina que agitou com pop rock muitas das noites natalenses. É inegável dizer que ajudaram a popularizar o ritmo não tão querido pelos jovens natalenses naquela época. O selo e estúdio já existem há sete anos e o bar, há mais de 4 anos.

Daquele tempo até aqui, a coisa mudou para melhor, garantem. Pululam diversas bandas fazendo o seu próprio som. Há uma produção de “vanguarda”, com platéia fixa e casa lotada. Mas também não subestimam o eterno retorno do ciclo do vai e vem de bandas- público – lugares para tocar. Destaque ainda para o fato de que uma boa parte das bandas locais cantam em inglês. É uma tendência, não uma necessidade, dizem. Mas, no que depender do esforço DoSol, Natal vai retomando os ares da velha Londres nordestina. E quem sabe um dia – embora eles não contem nem um pouco com isso-, a cidade ainda dê uma de Liverpool.

Internetcidade_Como surgiu a idéia do Centro Cultural DoSol?
Ana Morena_Sempre achamos o espaço DoSol bacana, mas subaproveitado. Um lugar daquele tamanho para ser usado apenas no fim de semana, é um desperdício. O principal objetivo do DoSol foi formar platéia para uma música de vanguarda. E, sinceramente, conseguimos. O público é flutuante, com períodos mais cheios e mais vazios, mas já existe. Porém, sem patrocínio fica inviável mantê-lo. Então, tivemos a informação de que o projeto poderia ser inscrito na lei de incentivo e acendeu uma luz no fim do túnel.

IC_ Qual é o objetivo agora que a platéia está formada?
Morena_Agora que a platéia já está lá, o que falta é gente que faça a roda girar junto conosco. O que precisamos é formar produtores, bandas, músicos, pessoas empreendedoras da música. A ampliação das atividades vem para ajudar a suprir essa necessidade.

IC_Vocês tinham uma proposta de uma certa autogestão para tocar o lugar. Há dificuldades em delegar responsabilidades e fazer a coisa andar sozinha? De onde você acha que vem essa dificuldade?
Morena_A idéia era criar o lugar com uma estrutura bacana, fazer duas festas nossas por mês e deixar que o resto da programação fosse conduzida por outros agentes culturais. Mas a coisa não rolou assim, justamente porque a maioria das pessoas envolvidas, como os músicos e produtores, ainda têm aquela mania de ficar sentado esperando ser chamado para tocar, chegar na hora e tudo estar pronto. São muito acomodados. Não passam um email divulgando pros amigos. Queremos mudar isso, fazendo com que as bandas produzam os seus próprios “rolés”, façam os seus lançamentos, etc. Mas tem de fazer bem feito. Coisa “malamanhada” dá 10 pessoas e isso não é legal pra ninguém.

IC_Vale a pena a luta pelo Centro Cultural?
Morena_Sim. Às vezes eu quero mandar tudo pro espaço quando sinto que não dão valor à oportunidade. Mas ainda bem que isso acontece pouco. Sou de outra época, quando os locais de shows eram “tosquérrimos”, o som era uma tristeza e éramos felizes por ainda conseguir ir ou tocar num show uma vez por mês, e olhe lá. Eu luto pelo local, mas o Anderson luta muito mais. Ele é louco pelo espaço porque ele viveu bem os anos 90 e sabe como é difícil ter um lugar tão legal pra tocar e fazer festa voltada pro cenário independente. Eu já pensei em fechar várias vezes. Ele só pensou uma única vez e foi nesse ano.

Sem culpas freudianas: os “meninos” são uns “amamãezados”, diz Morena. A tradução é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. Quem quase cansam de esperar, nem um pouco sentados, foram eles dois.

IC_Qual é a grande busca dessas bandas hoje?
Morena_A maioria quer tocar, gravar e ser roqueiro no intervalo do trabalho, da faculdade e da namorada. A minoria quer trabalhar e viver do rock.

IC_Isso é bom ou ruim?
Morena_Não é bom nem ruim, é apenas um fato. Cada um faz o que está a fim e do jeito que convém e dá certo. Só não quero ouvir reclamação de quem não consegue uma projeção com a sua banda e diz que um fulano de outro grupo toca em todo festival, faz shows em outras cidades e tira um som melhor porque faz parte da “panelinha”. Duas coisas que não tenho paciência: o sujeito que não se toca que fulano rala “pra caramba” para conseguir tudo isso e essa conversa anos 80 de panelinha. “Pelamordedeus”!

IC_Com você avalia a cena musical natalense? O que você observa da atual produção das bandas?
Morena_
Muitas bandas boas, bem equipadas (instrumentos, amplificadores, pedais, etc), fazendo boas gravações e arrumando tempo livre pra poder tocar fora. Tem épocas com muito mais bandas em ação. Mas acho melhor ter menos bandas com mais qualidade do que uma “ruma” mais ou menos.

IC_O que essa cena tem de especial?
Morena_De especial, as bandas estão preocupadas em fazer um som bacana, preocupam-se com a qualidade do show, em ter bons equipamentos, estilo, uma boa performance e, o mais importante, todas as bandas se ajudam e se preocupam umas com as outras, emprestam equipamentos, instrumentos, dão uma força entre elas. É bacana de ver, temos uma cena quase fraternal.

IC_E o que falta?
Morena_
Falta a iniciativa. As bandas são muito enroladas. Esses meninos são muito “amamãezados”. Com 20 anos, eu já fazia show, tocava, desenrolava, conversava e divulgava o trabalho numa época em que a internet não era essas “coca-cola” toda. Claro que tem gente que faz acontecer, mas é uma em um milhão. O resto fica esperando que façamos por eles. Ficam numa de “poxa, não sei fazer”. Só se aprende a fazer fazendo, oras. Mas precisa querer fazer direito. Quando vão fazer um show fora da cidade ou tocar num festival vira uma novela, complexa e cheia de drama. Coisas simples ganham uma dimensão gigante (risos). Mas é isso, uma coisa de cada vez. Não se pode ter tudo!

IC_É meio como perguntar ao pai qual filho ele gosta mais, mas quais bandas você destaca no momento?
Morena_Calistoga, The Sinks, Brand New Hate, Poetas Elétricos e a minha Camarones Orquestra Guitarrística. Essas são as minhas bandas preferidas que estão mais agilizadas no momento.

IC_Você já tem alguma idéia de qual caminho o rock natalense está tomando?
Morena_Caminho de sempre: circular com altos e baixos eternamente. Shows, platéia, novas bandas, mais shows, mais platéia, novas bandas, menos platéia, menos shows, mais platéia, mais bandas, mais shows…

Louco pelo local: Ana pensou várias vezes em fechar o espaço. Anderson, uma única vez.

IC_É necessário projetar alguém além dos muros para construir uma identidade?
Morena_Identidade de uma cidade sem identidade é essa que temos no momento. E que vai mudar no futuro. Se projetarmos alguém pra fora, vai ser alguém com identidade global, como todas as bandas que temos aqui. Não existe um som rock do RN ou de Natal. Existem sim boas bandas de vários estilos. Hoje estamos com mais bandas cantando em inglês, fazendo um rock mais duro misturado com punk rock. Mas se, por exemplo, o The Sinks for projetado nacionalmente, a identidade de Natal vai ser rock duro/punk rock, Nirvana? Acho que não. Será uma banda de Natal, mas não acredito que ela, ou qualquer outra, irá definir uma identidade musical pra cidade.

IC_Aquela velha pergunta… precisa cantar em inglês?
Morena_Não, não… é uma tendência. Antes, por algum tempo, uma banda local que cantava inglês era execrada. Agora elas são uma “moda”. Acho besteira essa coisa de “precisa de”. Não é preciso nada. Você faz o que está a fim de fazer e se o público estiver a fim de ouvir, ótimo! Quando força a barra, normalmente não funciona. Agora se quer fazer uma carreira no exterior, cantar em inglês é fundamental. Eu ainda prefiro bandas que cantem em português, mas as minhas preferidas locais, quase todas cantam em inglês. O que importa mesmo é ser bom!

IC_Qual a sua expectativa hoje com o trabalho no DoSol?
Morena_Se conseguirmos manter o DoSol com patrocínio, continuar a fazer o Festival com a mesma proposta de valorizar a música de vanguarda independente, manter o estúdio, os projetos de edição de vídeo e o portal Dosol sempre com novidades e, o mais importante, conseguir viver disso, seremos as pessoas mais felizes da Terra.

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Longe de ser um Roadie Movie

30 Junho, 2008 · 1 Comentário

Elisa Elsie

O Cine Nordeste – o primeiro de Natal e um dos primeiros prédios com a arquitetura modernista da cidade – começa a ser demolido. Uma faixa é estendida para anunciar o novo empreendimento na cidade: “Em breve, estacionamento 24 horas”. A arquiteta Emanuelle Alburquerque vê uma foto e resolve não assistir os créditos finais dessa trágica história.

Por meio do site ArqRN.com, tocado em parceria com o seu sócio e arquiteto Nilberto Gomes, ela alertou seus colegas de profissão e a população do novo roteiro, nada cinematográfico, para o cine Nordeste. A mobilização conseguiu sensibilizar o proprietário. Um investidor surgiu e a proposta do surgimento de um cineclub estava já acertada. Mas em Natal, nem todas as batalhas podem ser dadas por vencidas. O proprietário voltou atrás. E longe de voltar a passar roadie movies, o Cine Nordeste pode sim abrigar carros. Literalmente.

Seja qual for o fim dessa história, pelo menos, não foi sem luta. O caso gerou debates no meio cultural da cidade e entre os próprios profissionais e especialistas da arquitetura local. Emanuelle se viu surpresa com o envolvimento da sociedade natalense depois de ter publicado as intenções para o velho cinema. E, apesar da questão ainda estar distante de uma solução, ela pretende continuar fazendo o possível para contribuir com a preservação do prédio e o aproveitamento dele como um centro cultural.

A profissão acenava desde criança. Enquanto os primos e primas queriam ser bombeiros, professoras e bailarinas, ela falava em ser pintora, arqueóloga, pedreira. Criativa, adora artes plásticas, cultura e história. Trabalhar com e para pessoas. Encontrou esse “mix” na arquitetura. Seu interesse pelo conjunto arquitetônico da cidade veio com o pai, que revelou a riqueza da história dos prédios da Ribeira. Formada há cinco anos pela UFRN, Manu, como é conhecida, é mãe e também mantém o blog Manucarpediem, onde dá vazão a um verve literária. Escreve ainda alguns poeminhas, esses impublicáveis. “Só hobby”, diz ela.

Com o Internetcidade, Manu fala sobre os rumos do Cine Nordeste e a importância em se preservar este e outros prédios na cidade. Discute a arquitetura natalense, suas peculiaridades, a influência do mercado imobiliário, a relação entre empreededores locais e estrangeiros, além dos supostos desvios como os prédios altos e a “vontade de destruição”. Fala ainda sobre o engajamento dos profissionais de sua área, sua motivação em “levantar-se da cadeira” e não ficar esperando soluções, além da importância da arquitetura como um elemento de construção da identidade da cidade. “A maior perda é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela”.

Internetcidade_Como ficou a situação do Cine Nordeste? Ainda corre risco?

Manu_ Infelizmente, o proprietário do prédio voltou atrás na locação do imóvel à pessoa interessada em apoiar o Cineclub e outras entidades que pretendiam transformar o prédio num Centro Áudio-Visual. Estão num processo de rescisão de contrato, pelas informações que tenho, e por hora, nada foi resolvido e não há nada de certo sobre o destino do prédio.

IC_Qual é a proposta?

Manu_A proposta que lançamos é de que fosse implantado algo que remetesse ao antigo uso mas comportasse algo que pudesse, de fato, ser utilizado e não viesse a se transformar em mais um espaço obsoleto. Neste sentido, a proposta do Cine Club se encaixou perfeitamente como Centro de Artes Áudio Visual com escola de fotografia e cinema experimental. Lamento estar passando por esses entraves.

IC_O que motivou você a se movimentar?

Manu_Recebemos as fotos que foram tiradas por Paulo Nobre, arquiteto, que se sensibilizou com a situação do edifício e nos contactou. Foi um choque ver um exemplar do nosso patrimônio arquitetônico e cultural ser demolido, literalmente ou descaracterizado como já foram outros edifícios do centro da cidade. É muito triste e, esse em especial, ser transformado num estacionamento. Depois verificarmos pessoalmente, aproveitamos o ARQRN, assim como a imprensa para chamar a atenção pra essa questão.

IC_A luta valeu?

Manu_Valeu por ter visto que, depois de informada, a população apoiou o movimento. Na UFRN, no departamento de arquitetura, isso gerou um debate entre professores e alunos, o que considero de extrema importância como exercício da cidadania dentro da profissão, o indivíduo se manifestar em prol do bem coletivo. A maioria dos alunos e professores apóia a preservação do edifício. Outros questionam a necessidade de estacionamentos naquela área da cidade e a má utilização dos espaços culturais que já existem por lá.

IC_Você se dá por satisfeita?

Manu_Satisfeita, ainda não estou, pois, sob o meu ponto de vista a questão está distante de se resolver. Mas acredito na viabilidade do projeto e farei o possível para continuar contribuindo com ele.

IC_Você vê outros arquitetos se engajando em lutas pela cidade?

Manu_Sim. Além dos colegas que trabalham diretamente nos órgãos públicos, vejo alguns bons profissionais preocupados com algumas questões que envolvem o interesse público. Posso citar, por exemplo, além do próprio Paulo Nobre, o arquiteto Heitor Andrade, que sempre está atento as questões de interesse público. Sei que apesar de não serem maioria, vários colegas vêm atuando ativamente em prol da coletividade.

IC_Há outros prédios na mesma situação? Pra que manter esses prédios?

Manu_Na Cidade Alta, no Tirol, na Ribeira… Certamente, ao longo do tempo, vários exemplares têm sido descaracterizados ou demolidos pra dar lugar a novas construções ou novos usos. Sou a favor de preservar os edifícios que foram representativos da história da arquitetura ou da cultura da cidade para preservar elementos físicos da nossa história. Acredito que há como se trabalhar a boa utilização deles com usos compatíveis a sua estrutura ou que exijam intervenções menos radicais.

IC_E a arquitetura em Natal? O que acha? Mar de mediocridade, ilhas de criatividade e tudo fica no mesmo?

Manu_Temos excelentes profissionais, cujos edifícios são plasticamente muito bonitos e bem resolvidos. O que percebo é que a arquitetura aqui em Natal está muito relacionada ao mercado imobiliário, que, logicamente, visa o maior lucro possível e isso implica em soluções de projeto mais simplificadas. Por outro lado, quando vamos pra arquitetura comercial ou de interesse turístico, a coisa muda de figura e se pode trabalhar mais livremente, utilizando formas e materiais mais sofisticados e/ou ousados.

Elisa Elsie

Manu, em frente ao Cine Nordeste: “Acredito na viabilidade do projeto e farei o possível para continuar contribuindo com ele”.

IC_Alguma suspeita para explicar essa mania de destruição que o natalense parece ter?

Manu_Eu prefiro não generalizar nesse sentido, até porque, sou natalense e não tenho essa “mania de destruição” e acho que na nossa cidade há muita gente que preza pelas nossas origens e raízes. Por outro lado, vejo algumas pessoas com um pensamento ainda muito provinciano, muito tendenciosos a adotar modismos e estilos que se praticam lá fora e que muitas vezes não se adequam a nossas necessidades tão particulares. Além disso, há a questão da intensa valorização imobiliária que vem ocorrendo em Natal, principalmente com a chegada dos grandes empreendimentos turísticos.

IC_A presença dos estrangeiros muda alguma coisa?

Manu_É inegável que sim. E aqui precisamos refletir sobre dois pontos: o cliente estrangeiro e o empreendedor estrangeiro. A minha experiência particular como profissional mostrou que o investidor estrangeiro, com capital, se preocupa muito mais com projetos bem embasados, com profissionais qualificados, realizando estudos ambientais, procurando concretizar a coisa com um padrão que, para eles, é o caminho a ser seguido. Isso eu acho bacana.

IC_E a experiência com empreendedores locais?

Manu_Também tive a experiência negativa com empreendedores conterrâneos que investem em empreendimentos para estrangeiros, mas procurando ganhar o máximo possível querem desenvolver projetos e construções passando por cima de tudo e de todos, transgredindo regras, enfim… desses projetos, eu prefiro me manter bem afastada.

“De empreendedores conterrâneos que investem em empreendimentos para estrangeiros, mas procurando ganhar o máximo possível passando por cima de tudo e todos… desses projetos, eu prefiro me manter bem afastada”.

IC_Noves fora, qual o balanço final?

Manu_O assunto é polêmico, mas minha opinião é de que nem é toda a presença estrangeira é negativa. Muito pelo contrário, há estrangeiros que têm trazido muitos benefícios e recursos para a cidade e para o Estado.

IC_O que temos na arquitetura em Natal? Você destacaria algo original na cidade?

Manu_Acho que temos muito a valorizar, temos muitos profissionais bons. Eu destacaria o Projeto da Folha das Artes no Parque das Dunas como espaço público – representante da arquitetura potiguar na última Bienal de Arquitetura no ano passado em São Paulo – o projeto do Restaurante Camarões em Ponta Negra, o Estádio Machadão, do arquiteto Moacir Gomes, dentre outros.

IC_E o que falta?

Manu_Acho que faltam espaços públicos bem elaborados, parques, espaços para shows. Vejo a Cidade da Criança naquele estado e imagino o que poderia ser feito naquela área caso houvesse uma reforma.

IC_Falta ousadia à arquitetura natalense?

Manu_Sim. Vemos muito do que se faz no sul e até mesmo da arquitetura americana sendo copiado aqui à exaustão, sem levar em conta, muitas vezes, as nossas necessidades, a concordância da arquitetura ao meio ambiente. Os condomínios fechados de alto padrão estão recheados disso e é onde o arquiteto teria oportunidade de ousar mais, dado ao potencial econômico dos clientes.

IC_Precisamos de prédios tão altos?

Manu_Acredito que para se preservar determinadas áreas de proteção ambiental e ter uma reserva verde dentro das cidades é preciso verticalizar, sem dúvida. Se tentássemos colocar a população toda no “térreo” ficaríamos sem áreas verdes e de lazer. Mas é preciso estar com olhos bem abertos em relação ao gabarito desses edifícios e às conseqüências das alturas elevadas para o meio-ambiente e para o próprio funcionamento da cidade.

IC_Há fiscalização?

Manu_Felizmente, tenho visto o Ministério Público sempre presente, quando a fiscalização pelos órgãos públicos não é suficiente. Legalmente, através do Plano Diretor e do código de Obras de Natal, estamos bem respaldados. Resta a nós cidadão, fiscalizar.

IC_A arquitetura é essencial para definirmos a identidade de um povo?

Manu_Sim, pois cada povo traz na arquitetura as marcas e influências de sua colonização, de sua história. Nossa cidade tem registro na sua arquitetura e no traçado urbano características dos povos que escreveram a nossa história, indígenas, negros e portugueses, etc. O plano Polidrelli, que desenhou o traçado de Tirol e Petrópolis, foi feito por um Italiano, Antônio Polidrelli. São documentos que fazem parte do nosso dia-a-dia e muitas vezes nem nos damos conta.

IC_No caso, estamos perdendo alguma oportunidade?

Manu_A maior perda, na minha opinião, é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela.

A maior perda é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela”.

IC_O que fazer para valorizar a arquitetura local?

Manu_Uma das maneiras mais democráticas e abertas para abrir espaço é a realização de concursos públicos para obras de grande porte ou interesse público, principalmente para os novos profissionais e suas obras. Quanto à valorização da arquitetura histórica, está intimamente ligada a educação mesmo. Uma boa forma de semear essa valorização seria inserir à arquitetura no contexto histórico da cidade, desde o ensino fundamental. Isso parte da minha experiência pessoal. Desde criança, por influência do meu pai, tive contato com a história e o dia-a-dia da Ribeira, com seus casarões e edifícios históricos. A gente aprende a reconhecer uma identidade na cidade e passa a ver a arquitetura com outros olhos.

* No dia 27 de junho, o Diário Oficial do Rio Grande do Norte trouxe publicado o decreto da governadora Wilma de Faria tombando o Cine Nordeste. Mas Manu alerta: “É  um grande passo, mas não adianta apenas TOMBAR.  Pensemos agora nas possibilidades de usos, viáveis, que podem ser dadas ao belo edifício. O processo é longo, apresentar os projetos à Fundação José Augusto, tentar captar recursos ou financiamentos que viabilizem o projeto, etc. Só não podemos achar que a história se encerrou”.

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“O mundo quer saber do mundo”

8 Junho, 2008 · Deixe um comentário

Gustavo Lamartine e a sua \

Uma música de protesto. Assim o músico Gustavo Lamartine define “Eu moro na esquina”, uma composição própria que passava despercebida nos animados shows do Sangue Blues, banda a qual ele dividia as guitarras com a lendária General Junkie nas noites natalenses. Em um ritmo puxado para o Carimbó, segundo Lamartine, a música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também, cada vez mais “tomada por grupos estrangeiros que querem transformá-la em um grande centro de diversões, com custo tão alto que você teria de ganhar em euro ou dólar”. E o carimbó, de onde vem? Sem trocadilhos com o Sangue Blues, para “nós da esquina”, parece estar “no sangue”. E sem medo de ser feliz, atesta ainda que a guitarra de Chimbinha, da Banda Calypso, “é pura música”. Atualmente mandando ver nas guitarras do DuSouto, a idéia de carreira solo ainda soa estranho para Lamartine. “Colocar meu nome é uma coisa muito séria. Parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias”, diz. Por fim, ele acha que ainda falta uma sintonia de Natal com o mundo, uma força de transformação. Mas é otimista e profetiza que “isso vem com o tempo”. Enquanto isso, ele só pede uma coisa: deixem a menina em paz! Veja a seguir a entrevista exclusiva que Gustavo concedeu, por e-mail, para o Internetcidade.

Internetcidade _Eu moro na esquina” é um projeto solo?
Gustavo Lamartine –
É uma música que tocávamos no Sangue Blues no meio de um monte de covers. Ninguém notava que era uma música própria, minha ou da banda. Achei que ela é uma música boa e tava meio perdida no tempo. Já pensei em fazer um projeto solo, mas não sei como chamar. Acho colocar o meu nome uma coisa muito séria. Imagine, show de Gustavo Lamartine, parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias, ainda não me acostumei com uma idéia dessas. Mas não ganhei nada no MPBeco. Pela vibração do público, foi no mínimo estranho e injusto.

IC _ A música é um carimbó ou um brega? Como você definiria?
Carimbó. Acho que brega é um rótulo, carimbó é um ritmo. Acho as letras do Calipso brega, mas a guitarra de Chimbinha irada, pura música.

IC _ Como surgiu? Qual a idéia?
Como já disse, tocávamos ela no Sangue blues. Fazíamos um bloco de músicas latinas que tinha Buena Vista, Mano Chao e Santana. Eu tinha essa música e ela se encaixou bem no show. As composições são assim mesmo, elas pedem o ritmo, a própria melodia ou letra já vai definindo o melhor ritmo de tocá-las e então ela nasceu assim.

IC _ A sonoridade se aproxima de ritmos mais caribenhos como a salsa e o carimbó. Grupos como o Nação Zumbi e o Eddie têm passeado também nestes caminhos musicais. Por estarmos nesta “esquina”, nossa musicalidade está tendendo mais para esses ritmos do que para os tradicionais Forró ou Baião?
De certa forma essa música “Latina” inspira muita gente desde Nação de uma forma mais moderna até um Chico César, de uma forma mais tradicional. Acho que ela está no sangue mesmo.

IC _ Há mais gente seguindo este ritmo em Natal?
Por aqui tem umas bandas que já fazem shows completos com esses ritmos como Perfume de Gardênia ou Capim Cubano. No caso de “Eu moro na esquina”, eu me apropriei de um estilo pra fazer uma música de protesto.

IC _ Na música, fala-se para deixar a “menina” em paz. Essa menina é uma famosa Natal?
A música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também.

IC _ E a situação, já está perdida?
Grupos estrangeiros querem transformar Natal numa cidade não muito interessante para os natalenses. Querem destruir nossas riquezas naturais e fazer daqui um grande centro de diversão, com um custo de vida tão alto que você teria que ganhar em euro ou em dólar. Campos de golfe no lugar das Dunas, grandes condomínios de luxo. Enquanto isso, a classe pobre prostitui suas filhas, que se acham muito espertas por ter encontrado um príncipe encantado quando “namoram” com os gringos.

IC _ Há quem culpar?
A sociedade tem o governo que merece, então a culpa é de todos. Ou, pelo menos, da maioria. Quem sustenta a corrupção dos políticos e empresários são as pessoas que concordam com eles em prol de um benefício próprio. Muitos brasileiros são corruptos e os políticos são o retrato deles. A natureza humana parece ser assim mesmo. Cada um por si.

IC _ Morar na esquina é bom ou ruim?
É bom, mas é difícil. A cidade é linda com um clima perfeito. Mas as pessoas continuam insistindo em não ter cultura e viver sendo guiadas pela mídia. Lógico que existem exceções, mas ainda não têm uma força de transformação.

IC _ Como você avalia a atual cena cultural natalense? É necessário projetar alguém além dos muros para termos identidade?
Acho que a cidade tem que chegar numa sintonia com o mundo pra poder projetar alguém. O mundo não quer saber o que acontece em Natal, o mundo quer saber o que acontece no mundo. Acho que isso vem com um tempo.

IC _ E como vai o DuSouto?
Essa parece que vai pro segundo CD, temos idéias pra um novo projeto e até já tocamos músicas novas que ainda não estão gravadas no show.

IC _ E o General, “vai ver se eu tô lá na esquina”?
Muita gente cobra show do General, é um show bem interessante. Mas é uma banda que parou no primeiro CD e ficar vivendo de fazer o mesmo show é sinal que você também parou. Pretendemos fazer esse show um dia como data comemorativa.

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