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Longe de ser um Roadie Movie

30 Junho, 2008 · 1 Comentário

Elisa Elsie

O Cine Nordeste – o primeiro de Natal e um dos primeiros prédios com a arquitetura modernista da cidade – começa a ser demolido. Uma faixa é estendida para anunciar o novo empreendimento na cidade: “Em breve, estacionamento 24 horas”. A arquiteta Emanuelle Alburquerque vê uma foto e resolve não assistir os créditos finais dessa trágica história.

Por meio do site ArqRN.com, tocado em parceria com o seu sócio e arquiteto Nilberto Gomes, ela alertou seus colegas de profissão e a população do novo roteiro, nada cinematográfico, para o cine Nordeste. A mobilização conseguiu sensibilizar o proprietário. Um investidor surgiu e a proposta do surgimento de um cineclub estava já acertada. Mas em Natal, nem todas as batalhas podem ser dadas por vencidas. O proprietário voltou atrás. E longe de voltar a passar roadie movies, o Cine Nordeste pode sim abrigar carros. Literalmente.

Seja qual for o fim dessa história, pelo menos, não foi sem luta. O caso gerou debates no meio cultural da cidade e entre os próprios profissionais e especialistas da arquitetura local. Emanuelle se viu surpresa com o envolvimento da sociedade natalense depois de ter publicado as intenções para o velho cinema. E, apesar da questão ainda estar distante de uma solução, ela pretende continuar fazendo o possível para contribuir com a preservação do prédio e o aproveitamento dele como um centro cultural.

A profissão acenava desde criança. Enquanto os primos e primas queriam ser bombeiros, professoras e bailarinas, ela falava em ser pintora, arqueóloga, pedreira. Criativa, adora artes plásticas, cultura e história. Trabalhar com e para pessoas. Encontrou esse “mix” na arquitetura. Seu interesse pelo conjunto arquitetônico da cidade veio com o pai, que revelou a riqueza da história dos prédios da Ribeira. Formada há cinco anos pela UFRN, Manu, como é conhecida, é mãe e também mantém o blog Manucarpediem, onde dá vazão a um verve literária. Escreve ainda alguns poeminhas, esses impublicáveis. “Só hobby”, diz ela.

Com o Internetcidade, Manu fala sobre os rumos do Cine Nordeste e a importância em se preservar este e outros prédios na cidade. Discute a arquitetura natalense, suas peculiaridades, a influência do mercado imobiliário, a relação entre empreededores locais e estrangeiros, além dos supostos desvios como os prédios altos e a “vontade de destruição”. Fala ainda sobre o engajamento dos profissionais de sua área, sua motivação em “levantar-se da cadeira” e não ficar esperando soluções, além da importância da arquitetura como um elemento de construção da identidade da cidade. “A maior perda é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela”.

Internetcidade_Como ficou a situação do Cine Nordeste? Ainda corre risco?

Manu_ Infelizmente, o proprietário do prédio voltou atrás na locação do imóvel à pessoa interessada em apoiar o Cineclub e outras entidades que pretendiam transformar o prédio num Centro Áudio-Visual. Estão num processo de rescisão de contrato, pelas informações que tenho, e por hora, nada foi resolvido e não há nada de certo sobre o destino do prédio.

IC_Qual é a proposta?

Manu_A proposta que lançamos é de que fosse implantado algo que remetesse ao antigo uso mas comportasse algo que pudesse, de fato, ser utilizado e não viesse a se transformar em mais um espaço obsoleto. Neste sentido, a proposta do Cine Club se encaixou perfeitamente como Centro de Artes Áudio Visual com escola de fotografia e cinema experimental. Lamento estar passando por esses entraves.

IC_O que motivou você a se movimentar?

Manu_Recebemos as fotos que foram tiradas por Paulo Nobre, arquiteto, que se sensibilizou com a situação do edifício e nos contactou. Foi um choque ver um exemplar do nosso patrimônio arquitetônico e cultural ser demolido, literalmente ou descaracterizado como já foram outros edifícios do centro da cidade. É muito triste e, esse em especial, ser transformado num estacionamento. Depois verificarmos pessoalmente, aproveitamos o ARQRN, assim como a imprensa para chamar a atenção pra essa questão.

IC_A luta valeu?

Manu_Valeu por ter visto que, depois de informada, a população apoiou o movimento. Na UFRN, no departamento de arquitetura, isso gerou um debate entre professores e alunos, o que considero de extrema importância como exercício da cidadania dentro da profissão, o indivíduo se manifestar em prol do bem coletivo. A maioria dos alunos e professores apóia a preservação do edifício. Outros questionam a necessidade de estacionamentos naquela área da cidade e a má utilização dos espaços culturais que já existem por lá.

IC_Você se dá por satisfeita?

Manu_Satisfeita, ainda não estou, pois, sob o meu ponto de vista a questão está distante de se resolver. Mas acredito na viabilidade do projeto e farei o possível para continuar contribuindo com ele.

IC_Você vê outros arquitetos se engajando em lutas pela cidade?

Manu_Sim. Além dos colegas que trabalham diretamente nos órgãos públicos, vejo alguns bons profissionais preocupados com algumas questões que envolvem o interesse público. Posso citar, por exemplo, além do próprio Paulo Nobre, o arquiteto Heitor Andrade, que sempre está atento as questões de interesse público. Sei que apesar de não serem maioria, vários colegas vêm atuando ativamente em prol da coletividade.

IC_Há outros prédios na mesma situação? Pra que manter esses prédios?

Manu_Na Cidade Alta, no Tirol, na Ribeira… Certamente, ao longo do tempo, vários exemplares têm sido descaracterizados ou demolidos pra dar lugar a novas construções ou novos usos. Sou a favor de preservar os edifícios que foram representativos da história da arquitetura ou da cultura da cidade para preservar elementos físicos da nossa história. Acredito que há como se trabalhar a boa utilização deles com usos compatíveis a sua estrutura ou que exijam intervenções menos radicais.

IC_E a arquitetura em Natal? O que acha? Mar de mediocridade, ilhas de criatividade e tudo fica no mesmo?

Manu_Temos excelentes profissionais, cujos edifícios são plasticamente muito bonitos e bem resolvidos. O que percebo é que a arquitetura aqui em Natal está muito relacionada ao mercado imobiliário, que, logicamente, visa o maior lucro possível e isso implica em soluções de projeto mais simplificadas. Por outro lado, quando vamos pra arquitetura comercial ou de interesse turístico, a coisa muda de figura e se pode trabalhar mais livremente, utilizando formas e materiais mais sofisticados e/ou ousados.

Elisa Elsie

Manu, em frente ao Cine Nordeste: “Acredito na viabilidade do projeto e farei o possível para continuar contribuindo com ele”.

IC_Alguma suspeita para explicar essa mania de destruição que o natalense parece ter?

Manu_Eu prefiro não generalizar nesse sentido, até porque, sou natalense e não tenho essa “mania de destruição” e acho que na nossa cidade há muita gente que preza pelas nossas origens e raízes. Por outro lado, vejo algumas pessoas com um pensamento ainda muito provinciano, muito tendenciosos a adotar modismos e estilos que se praticam lá fora e que muitas vezes não se adequam a nossas necessidades tão particulares. Além disso, há a questão da intensa valorização imobiliária que vem ocorrendo em Natal, principalmente com a chegada dos grandes empreendimentos turísticos.

IC_A presença dos estrangeiros muda alguma coisa?

Manu_É inegável que sim. E aqui precisamos refletir sobre dois pontos: o cliente estrangeiro e o empreendedor estrangeiro. A minha experiência particular como profissional mostrou que o investidor estrangeiro, com capital, se preocupa muito mais com projetos bem embasados, com profissionais qualificados, realizando estudos ambientais, procurando concretizar a coisa com um padrão que, para eles, é o caminho a ser seguido. Isso eu acho bacana.

IC_E a experiência com empreendedores locais?

Manu_Também tive a experiência negativa com empreendedores conterrâneos que investem em empreendimentos para estrangeiros, mas procurando ganhar o máximo possível querem desenvolver projetos e construções passando por cima de tudo e de todos, transgredindo regras, enfim… desses projetos, eu prefiro me manter bem afastada.

“De empreendedores conterrâneos que investem em empreendimentos para estrangeiros, mas procurando ganhar o máximo possível passando por cima de tudo e todos… desses projetos, eu prefiro me manter bem afastada”.

IC_Noves fora, qual o balanço final?

Manu_O assunto é polêmico, mas minha opinião é de que nem é toda a presença estrangeira é negativa. Muito pelo contrário, há estrangeiros que têm trazido muitos benefícios e recursos para a cidade e para o Estado.

IC_O que temos na arquitetura em Natal? Você destacaria algo original na cidade?

Manu_Acho que temos muito a valorizar, temos muitos profissionais bons. Eu destacaria o Projeto da Folha das Artes no Parque das Dunas como espaço público – representante da arquitetura potiguar na última Bienal de Arquitetura no ano passado em São Paulo – o projeto do Restaurante Camarões em Ponta Negra, o Estádio Machadão, do arquiteto Moacir Gomes, dentre outros.

IC_E o que falta?

Manu_Acho que faltam espaços públicos bem elaborados, parques, espaços para shows. Vejo a Cidade da Criança naquele estado e imagino o que poderia ser feito naquela área caso houvesse uma reforma.

IC_Falta ousadia à arquitetura natalense?

Manu_Sim. Vemos muito do que se faz no sul e até mesmo da arquitetura americana sendo copiado aqui à exaustão, sem levar em conta, muitas vezes, as nossas necessidades, a concordância da arquitetura ao meio ambiente. Os condomínios fechados de alto padrão estão recheados disso e é onde o arquiteto teria oportunidade de ousar mais, dado ao potencial econômico dos clientes.

IC_Precisamos de prédios tão altos?

Manu_Acredito que para se preservar determinadas áreas de proteção ambiental e ter uma reserva verde dentro das cidades é preciso verticalizar, sem dúvida. Se tentássemos colocar a população toda no “térreo” ficaríamos sem áreas verdes e de lazer. Mas é preciso estar com olhos bem abertos em relação ao gabarito desses edifícios e às conseqüências das alturas elevadas para o meio-ambiente e para o próprio funcionamento da cidade.

IC_Há fiscalização?

Manu_Felizmente, tenho visto o Ministério Público sempre presente, quando a fiscalização pelos órgãos públicos não é suficiente. Legalmente, através do Plano Diretor e do código de Obras de Natal, estamos bem respaldados. Resta a nós cidadão, fiscalizar.

IC_A arquitetura é essencial para definirmos a identidade de um povo?

Manu_Sim, pois cada povo traz na arquitetura as marcas e influências de sua colonização, de sua história. Nossa cidade tem registro na sua arquitetura e no traçado urbano características dos povos que escreveram a nossa história, indígenas, negros e portugueses, etc. O plano Polidrelli, que desenhou o traçado de Tirol e Petrópolis, foi feito por um Italiano, Antônio Polidrelli. São documentos que fazem parte do nosso dia-a-dia e muitas vezes nem nos damos conta.

IC_No caso, estamos perdendo alguma oportunidade?

Manu_A maior perda, na minha opinião, é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela.

A maior perda é não valorizar muitas vezes o que temos, não conhecer a nossa história, deixá-la ser demolida, literalmente, e com isso não aprender com ela”.

IC_O que fazer para valorizar a arquitetura local?

Manu_Uma das maneiras mais democráticas e abertas para abrir espaço é a realização de concursos públicos para obras de grande porte ou interesse público, principalmente para os novos profissionais e suas obras. Quanto à valorização da arquitetura histórica, está intimamente ligada a educação mesmo. Uma boa forma de semear essa valorização seria inserir à arquitetura no contexto histórico da cidade, desde o ensino fundamental. Isso parte da minha experiência pessoal. Desde criança, por influência do meu pai, tive contato com a história e o dia-a-dia da Ribeira, com seus casarões e edifícios históricos. A gente aprende a reconhecer uma identidade na cidade e passa a ver a arquitetura com outros olhos.

* No dia 27 de junho, o Diário Oficial do Rio Grande do Norte trouxe publicado o decreto da governadora Wilma de Faria tombando o Cine Nordeste. Mas Manu alerta: “É  um grande passo, mas não adianta apenas TOMBAR.  Pensemos agora nas possibilidades de usos, viáveis, que podem ser dadas ao belo edifício. O processo é longo, apresentar os projetos à Fundação José Augusto, tentar captar recursos ou financiamentos que viabilizem o projeto, etc. Só não podemos achar que a história se encerrou”.

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