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“O mundo quer saber do mundo”

8 Junho, 2008 · Deixe um comentário

Gustavo Lamartine e a sua \

Uma música de protesto. Assim o músico Gustavo Lamartine define “Eu moro na esquina”, uma composição própria que passava despercebida nos animados shows do Sangue Blues, banda a qual ele dividia as guitarras com a lendária General Junkie nas noites natalenses. Em um ritmo puxado para o Carimbó, segundo Lamartine, a música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também, cada vez mais “tomada por grupos estrangeiros que querem transformá-la em um grande centro de diversões, com custo tão alto que você teria de ganhar em euro ou dólar”. E o carimbó, de onde vem? Sem trocadilhos com o Sangue Blues, para “nós da esquina”, parece estar “no sangue”. E sem medo de ser feliz, atesta ainda que a guitarra de Chimbinha, da Banda Calypso, “é pura música”. Atualmente mandando ver nas guitarras do DuSouto, a idéia de carreira solo ainda soa estranho para Lamartine. “Colocar meu nome é uma coisa muito séria. Parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias”, diz. Por fim, ele acha que ainda falta uma sintonia de Natal com o mundo, uma força de transformação. Mas é otimista e profetiza que “isso vem com o tempo”. Enquanto isso, ele só pede uma coisa: deixem a menina em paz! Veja a seguir a entrevista exclusiva que Gustavo concedeu, por e-mail, para o Internetcidade.

Internetcidade _Eu moro na esquina” é um projeto solo?
Gustavo Lamartine –
É uma música que tocávamos no Sangue Blues no meio de um monte de covers. Ninguém notava que era uma música própria, minha ou da banda. Achei que ela é uma música boa e tava meio perdida no tempo. Já pensei em fazer um projeto solo, mas não sei como chamar. Acho colocar o meu nome uma coisa muito séria. Imagine, show de Gustavo Lamartine, parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias, ainda não me acostumei com uma idéia dessas. Mas não ganhei nada no MPBeco. Pela vibração do público, foi no mínimo estranho e injusto.

IC _ A música é um carimbó ou um brega? Como você definiria?
Carimbó. Acho que brega é um rótulo, carimbó é um ritmo. Acho as letras do Calipso brega, mas a guitarra de Chimbinha irada, pura música.

IC _ Como surgiu? Qual a idéia?
Como já disse, tocávamos ela no Sangue blues. Fazíamos um bloco de músicas latinas que tinha Buena Vista, Mano Chao e Santana. Eu tinha essa música e ela se encaixou bem no show. As composições são assim mesmo, elas pedem o ritmo, a própria melodia ou letra já vai definindo o melhor ritmo de tocá-las e então ela nasceu assim.

IC _ A sonoridade se aproxima de ritmos mais caribenhos como a salsa e o carimbó. Grupos como o Nação Zumbi e o Eddie têm passeado também nestes caminhos musicais. Por estarmos nesta “esquina”, nossa musicalidade está tendendo mais para esses ritmos do que para os tradicionais Forró ou Baião?
De certa forma essa música “Latina” inspira muita gente desde Nação de uma forma mais moderna até um Chico César, de uma forma mais tradicional. Acho que ela está no sangue mesmo.

IC _ Há mais gente seguindo este ritmo em Natal?
Por aqui tem umas bandas que já fazem shows completos com esses ritmos como Perfume de Gardênia ou Capim Cubano. No caso de “Eu moro na esquina”, eu me apropriei de um estilo pra fazer uma música de protesto.

IC _ Na música, fala-se para deixar a “menina” em paz. Essa menina é uma famosa Natal?
A música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também.

IC _ E a situação, já está perdida?
Grupos estrangeiros querem transformar Natal numa cidade não muito interessante para os natalenses. Querem destruir nossas riquezas naturais e fazer daqui um grande centro de diversão, com um custo de vida tão alto que você teria que ganhar em euro ou em dólar. Campos de golfe no lugar das Dunas, grandes condomínios de luxo. Enquanto isso, a classe pobre prostitui suas filhas, que se acham muito espertas por ter encontrado um príncipe encantado quando “namoram” com os gringos.

IC _ Há quem culpar?
A sociedade tem o governo que merece, então a culpa é de todos. Ou, pelo menos, da maioria. Quem sustenta a corrupção dos políticos e empresários são as pessoas que concordam com eles em prol de um benefício próprio. Muitos brasileiros são corruptos e os políticos são o retrato deles. A natureza humana parece ser assim mesmo. Cada um por si.

IC _ Morar na esquina é bom ou ruim?
É bom, mas é difícil. A cidade é linda com um clima perfeito. Mas as pessoas continuam insistindo em não ter cultura e viver sendo guiadas pela mídia. Lógico que existem exceções, mas ainda não têm uma força de transformação.

IC _ Como você avalia a atual cena cultural natalense? É necessário projetar alguém além dos muros para termos identidade?
Acho que a cidade tem que chegar numa sintonia com o mundo pra poder projetar alguém. O mundo não quer saber o que acontece em Natal, o mundo quer saber o que acontece no mundo. Acho que isso vem com um tempo.

IC _ E como vai o DuSouto?
Essa parece que vai pro segundo CD, temos idéias pra um novo projeto e até já tocamos músicas novas que ainda não estão gravadas no show.

IC _ E o General, “vai ver se eu tô lá na esquina”?
Muita gente cobra show do General, é um show bem interessante. Mas é uma banda que parou no primeiro CD e ficar vivendo de fazer o mesmo show é sinal que você também parou. Pretendemos fazer esse show um dia como data comemorativa.

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