“Relíquia do folclore nacional, jóia rara nacional…daquela que já foi a mais bela cidade que o mundo todo já consagrou, com suas praias tão lindas, tão cheias de graça e de amor…” – Amor à natureza – Paulinho da Viola
O escritor carioca Marcelo Moutinho não é geógrafo, mas ousou fazer uma cartografia da cidade do Rio de Janeiro. Não de suas ruas, mas dos cronistas delas. Descobriu que há vários “Rios”, uma cidade com várias cidades dentro. Constatou que a Cidade Maravilhosa idílica dos cartões-postais não existe. Mas também não é só aquele Rio pintado de sangue em que o noticiário tanto insiste. Mapeou a literatura. Encontrou uma cidade.
Uma cidade que já passou por muitas transformações. Uma delas se deu no início do século XX, quando o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande “revolução” na Capital do Brasil, derrubando mais de 2700 prédios para dar lugar a novas avenidas. Uma modernidade que custou caro aos cariocas. Mas que rendeu para os literatos. E por que os escritores são tão afeitos às cidades, por quê a utilizam tanto como matéria-prima? Porque as cidades têm “legibilidade”, afirma Moutinho. Afinal, é nelas que a vida escorre. E ele não acredita em literatura descolada da vida.
Mas em tempos de globalização, mundialização, integração de mercados em redes, seja lá o que diabos for, nem o Rio, de identidade tão mundial, é exceção à regra de perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de uma cidade “exilada”, não por causa da violência, mas por uma postura de negação dessa cor, uma busca por apagar qualquer marca da cidade, uma recusa prévia que soa como “uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da mundialização”. Alguma semelhança com Natal, Sras e Srs.?
Moutinho até aceita o “argumento”, mas não acha que a literatura deveria ser tão alterada assim. O escritor aponta ainda que não é uma questão do Rio, mas nacional. Ele denuncia o fechamento da literatura em si mesma na qual muitos autores “limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’ – que não faltam-, e não a vida”. A quem a literatura deve um vínculo permanente. Mas há de se deixar as coisas claras. Moutinho aqui não exige regras para a arte da escrita. Não que todo autor deva ter um compromisso prévio com a sua aldeia, mas concorda em uma coisa com Tolstói: os sentimentos são universais.
Nascido no bairro da Madureira, subúrbio carioca, o também jornalista Marcelo Moutinho é um típico local. Da Cidade Maravilhosa. Com seus 36 anos, dois livros de contos e prosa e organizador de duas antologias publicadas, ele circula de norte a sul. Mora entre Copa e Leblon, quase perto da Lagoa Rodrigo de Freitas. Trabalha no Centro. Sofre pelo seu Fluminense, em beiradas de zona de rebaixamento, mas não deixa de ir ao Maracanã vê-lo jogar. Bate bola com os amigos todas as semanas. Não perde as rodas de samba. Desfila no Carnaval. Tem até escola de samba do coração. E não deixa de encontrar ao amigos para tomar um chopp e apreciar a famosa comida dos botequins . Como todo carioca, fala, debate, xinga, sorri. E como gosta de sorrir!
Mas, respondendo a pergunta-título deste “post”, em tempos de transições de governos e de alardeadas parcerias entre eles, o que o Rio de Janeiro parece ter a ver com Natal? O que a Cidade Maravilhosa tem a nos dizer, não só aos gestores, mas também aos literatos? Ousaria adiantar que, para todo bom entendedor, pode ter muita coisa. Neste momento em que prédios pipocam, pontes surgem e turistas tomam Natal, a Cidade do Sol começa a ter ares e mazelas tão modernas quanto o Rio de Janeiro.
IC_Você organizou uma coletânea sobre contos de bairros do Rio. Como foi o processo? O que você descobriu durante o trabalho?
Marcelo Moutinho_A antologia Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio foi organizada por mim e pelo Flávio Izhaki em 2004. A idéia foi fazer um duplo mapeamento. Primeiro, reunir jovens autores que vinham despontando na cena literária, sejam nomes já inseridos no mercado editorial, sejam talentos até então restritos ao universo da internet e seus blogs. Ao mesmo tempo, buscar a relação autor-cidade a partir da intimidade de cada um com o bairro em que morava. O que acabamos descobrindo, ao fim do trabalho, é que Marques Rebello tinha toda razão quando dizia que o Rio de Janeiro é “uma cidade com várias cidades dentro”.

Prosas Cariocas: o livro buscou uma relação autor-cidade. Muitos invocaram a histórica figura do "Flanêur".
IC_O que as cidades têm a ver com a literatura? Por que as cidades rendem (ou deveriam render) tanto para os escritores?
Moutinho_Porque as cidades têm “legibilidade”. Isso já era demonstrado por Baudelaire em seu clássico Flores do mal, de 1857. Nos poemas do livro, a circulação das pessoas pelas ruas surge como uma imagem flutuante e a cidade, como um organismo vivo, ágil, mutante. Não se trata exatamente de uma reprodução do visível, mas da tentativa de captar o espírito das ruas através do texto. Acho que as cidades “rendem” para os escritores porque é nelas que a vida escorre. E não acredito em literatura descolada da vida.
IC_O Rio já passou por grandes transformações, uma delas realizada pelo prefeito Pereira Passos. Como ela se deu e o que significou para a cidade?
Moutinho_No começo do século 20, o Rio viveu um período de intensas mudanças, cuja face mais emblemática foi a reforma empreendida pelo prefeito Pereira Passos. Sob o pretexto de conectar a cidade com a era moderna e deixar para trás qualquer vestígio dos traços coloniais, ele comandou uma ampla reformulação urbana, que incluiu a abertura de ruas e avenidas e a derrubada de cerca de 2700 prédios. A reforma significou numa abrupta ruptura, tanto quanto ao uso do espaço público, quanto aos hábitos dos cariocas. Aqueles que foram expulsos do Centro – notadamente a população pobre – foram obrigados a reconstruir suas vidas nos morros e subúrbios. Em contrapartida, os setores da elite passaram a freqüentar o Centro, cujo perfil afrancesado parecia trazer para o Rio um pouco do charme das capitais européias.
IC_Como isso foi parar na literatura? Qual foi a influência sobre os autores?
Moutinho_Esse momento histórico foi fortemente registrado pela literatura, tanto sob viés crítico, quanto sob confetes. Em crônica datada de 1906, por exemplo, Olavo Bilac classificava a festa da Penha com uma “manifestação da barbárie”, “só compreensível no velho Rio de Janeiro de ruas tortas, de betesgas escuras, de becos sórdidos”. Outros cronistas, como Marques Rebello e João do Rio, buscaram, em seus textos, registrar aquele Rio de Janeiro que começava a sumir, para dar lugar a uma ‘nova cidade’. Rebello dedica-se a escrever sobre os diferentes bairros, destacando o caráter próprio de cada um. João do Rio investiga o crescente embate entre o cosmopolita e o local na capital que se moderniza e, ciente da existência cada vez mais vertiginosa da cidade, tenta preservar, ao menos no domínio da palavra, aquilo que está sempre a ponto de desaparecer. Uma tentativa de preservação através da palavra.

Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki fizeram uma nova cartografia do Rio de Janeiro. Mapearam a literatura. Encontraram uma cidade. Junto com 17 jovens autores, chegaram à conclusão de que a Cidade Maravilhosa dos cartões-postais não existe.
IC_Em uma de suas conferências, você fala de um Rio “exilado”, de uma cidade “qualquer” vista pelos autores atuais. De uma cor local cada vez mais globalizada. Até mesmo um Rio de Janeiro está se perdendo em meio a isso? Os cariocas também sofrem com problemas de identidade?
Moutinho_Os cariocas estão inseridos num mundo cada vez mais global e menos local. Não somos exceção. Mas a questão principal aí me parece ser uma postura de negação a priori da cor local. A busca por apagar qualquer marca da cidade. Não que deva haver a premissa de se incluir a paisagem e a topografia urbana no texto. Mas a recusa prévia me soa como uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da ‘mundialização’. Outro ponto, este talvez periférico, é o fechamento cada vez maior da literatura brasileira em si mesma. Distantes da existência cotidiana, encerrados em suas próprias leituras e teorias, muitos autores limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’, e não vida, instância naturalmente originária de todas as histórias humanas e com a qual a literatura deve ter um vínculo permanente.
IC_A máxima de Tolstoi – “Quer ser universal, fale de sua aldeia” -, é verdadeira, é preciso segui-la? Os escritores devem ter compromisso com a “sua aldeia”?
Moutinho_Em literatura, não é preciso seguir nenhuma máxima, exceto a fidelidade a si mesmo. O compromisso, acho eu, deve ser com a sinceridade daquilo que você escreve. E aí não se deve encarar ’sinceridade’ como antônimo de ‘invenção’. Quando falo em sinceridade, refiro-me àquilo que anima a escrita do autor, ao que lhe move. Mas concordo com Tolstói com relação a uma coisa: acredito que os sentimentos têm certa universalidade.
IC_Nem sempre o Rio foi o Rio do Samba, da Bossa Nova e da Cidade Maravilhosa. Qual o papel dos escritores (ou artistas, como queira) na criação dessas identidades ou identificações do Rio?
Moutinho_Com certeza, os escritores, assim como os artistas de qualquer área, ajudam a construir o imaginário de uma cidade. Mas no caso específico do Rio de Janeiro, acho que o cinema (com Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e mesmo com o clicherizado Orfeu, de Marcel Camus, por exemplo) e, sobretudo, a música ajudaram muito mais nesse processo.
As narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores têm como tema favela e violência. Dá ipobe. Mas Moutinho faz uma correção. Há mais vida e autores além disso. “O problema é que não são a imagem mais clichê da cidade. E sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê”. Para ele, aos seus pares, falta sinceridade com o que se escreve. Este, sim, deveria ser o único compromisso.
IC_As narrativas atuais sobre o Rio têm como tema a violência, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Esse é a grande “cor local” hoje da Cidade Maravilhosa? Por que são tão atraentes? O Rio já esgotou suas temáticas?
Moutinho_Reformulemos: as narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores e espectadores têm como tema a violência. Faço o reparo porque há aqui vários autores trabalhando com outros registros. Escritores como a Adriana Lisboa, o próprio Flávio Izhaki, a Lúcia Bettencourt são exemplos. A questão é que esses trabalhos não são a imagem mais clichê da cidade, e sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê.
IC_Ainda há lugar para o “flanêur” nas cidades? Como trazer “valor literário” para as cidades?
Moutinho_Claro que há. Mas a flaneurie pressupõe a circulação pelas ruas, mesmo sob a sombra da violência.
IC_Você acha que faltam narrativas “melhores” das cidades?
Moutinho_Não. Há várias – e ótimas.

E agora, José? - No global, até o Rio parece perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de cidade “exilada” a partir da busca por apagar qualquer marca da cidade.
IC_Como os autores podem evitar o folclórico, “que atrai a classe média pelo verniz que oferece a seus sentimentos de culpa”? Isso também não faz parte da cidade?
Moutinho_Faz, claro. Quando faço uma crítica neste sentido, na verdade refiro-me àquela falta de sinceridade comentada numa resposta anterior. Isso ocorre quando um autor pauta sua literatura pelos temas e pelos registros em voga em determinado momento, olhando apenas para a receptividade. Falar em favela e violência hoje dá ibope.
IC_E como você usa a cidade na sua produção?
Moutinho_A minha produção é intrinsecamente ligada à cidade, o que de certa forma reflete a minha vida. Circulo muito, pela Zona Sul a pela Zona Norte. Vou às rodas de samba, desfilo todo ano no Império Serrano, adoro futebol: jogo duas vezes por semana e vou sempre que posso ao Maracanã torcer pelo meu Fluminense. Gosto de estar com as pessoas, com as diferentes pessoas. Quem olha de fora talvez não faça idéia de que há um Rio de Janeiro que resiste, firme, às flechas da criminalidade, da má administração, da perda de prestígio econômico. Os cariocas continuam tocando o barco, algumas vezes com tristeza, outras com alegria, sempre com esperança. E o que tento fazer é retratar essas dores e essa delícia.
IC_E atualmente, o que você vem preparando?
Moutinho_Estou trabalhando no projeto de um antologia sobre a Língua Portuguesa com autores de vários países e no meu próximo livro de contos, que pretendo entregar à editora no ano que vem.

