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Um eterno retorno

28 Agosto, 2008 · 3 Comentários

Elisa Elsie

Uma verdadeira incubadora de bandas de rock. Assim podemos definir o “conglomerado” DoSol. Espécie de casal 20 do rock natalense, Ana Morena e Anderson “Risuenho” mantêm estúdio, portal na Internet, Tv, produtora, festival e bar, agora transformado em Centro Cultural DoSol. Projeto aprovado na lei municipal de incentivo à cultura Djalma Maranhão, a grande missão no momento é conseguir patrocínio para manter a casa funcionando como espaço para apresentação das bandas, oferecendo ainda oficinas práticas e teóricas de música e também exibir filmes e documentários.

Ninguém melhor do que eles dois para conversar sobre a “fraternal” cena rock natalense e o que ela tem a ver com a identidade cultural da cidade. Morena não alivia e nem se intimida de dizer sem culpas freudianas que os “meninos” natalenses são uns “amamãezados”. Palavra inventada, a questão é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. E quem quase cansa de esperar, nem um pouco sentado, foram eles dois. A alternativa do Centro Cultural vem para salvar o espaço do fechamento.

Anderson e Ana Morena, certamente, já guardam um capítulo especial na história do rock natalense. São dois empreendedores da música. Hoje, estão envolvidos na produção de 10 bandas no selo DoSol. Uma história que começou há 10 anos em shows dele na extinta Ravengar e, dela, no Memória Rom. Uma dos primeiros projetos em conjunto foi a banda Officina que agitou com pop rock muitas das noites natalenses. É inegável dizer que ajudaram a popularizar o ritmo não tão querido pelos jovens natalenses naquela época. O selo e estúdio já existem há sete anos e o bar, há mais de 4 anos.

Daquele tempo até aqui, a coisa mudou para melhor, garantem. Pululam diversas bandas fazendo o seu próprio som. Há uma produção de “vanguarda”, com platéia fixa e casa lotada. Mas também não subestimam o eterno retorno do ciclo do vai e vem de bandas- público – lugares para tocar. Destaque ainda para o fato de que uma boa parte das bandas locais cantam em inglês. É uma tendência, não uma necessidade, dizem. Mas, no que depender do esforço DoSol, Natal vai retomando os ares da velha Londres nordestina. E quem sabe um dia – embora eles não contem nem um pouco com isso-, a cidade ainda dê uma de Liverpool.

Internetcidade_Como surgiu a idéia do Centro Cultural DoSol?
Ana Morena_Sempre achamos o espaço DoSol bacana, mas subaproveitado. Um lugar daquele tamanho para ser usado apenas no fim de semana, é um desperdício. O principal objetivo do DoSol foi formar platéia para uma música de vanguarda. E, sinceramente, conseguimos. O público é flutuante, com períodos mais cheios e mais vazios, mas já existe. Porém, sem patrocínio fica inviável mantê-lo. Então, tivemos a informação de que o projeto poderia ser inscrito na lei de incentivo e acendeu uma luz no fim do túnel.

IC_ Qual é o objetivo agora que a platéia está formada?
Morena_Agora que a platéia já está lá, o que falta é gente que faça a roda girar junto conosco. O que precisamos é formar produtores, bandas, músicos, pessoas empreendedoras da música. A ampliação das atividades vem para ajudar a suprir essa necessidade.

IC_Vocês tinham uma proposta de uma certa autogestão para tocar o lugar. Há dificuldades em delegar responsabilidades e fazer a coisa andar sozinha? De onde você acha que vem essa dificuldade?
Morena_A idéia era criar o lugar com uma estrutura bacana, fazer duas festas nossas por mês e deixar que o resto da programação fosse conduzida por outros agentes culturais. Mas a coisa não rolou assim, justamente porque a maioria das pessoas envolvidas, como os músicos e produtores, ainda têm aquela mania de ficar sentado esperando ser chamado para tocar, chegar na hora e tudo estar pronto. São muito acomodados. Não passam um email divulgando pros amigos. Queremos mudar isso, fazendo com que as bandas produzam os seus próprios “rolés”, façam os seus lançamentos, etc. Mas tem de fazer bem feito. Coisa “malamanhada” dá 10 pessoas e isso não é legal pra ninguém.

IC_Vale a pena a luta pelo Centro Cultural?
Morena_Sim. Às vezes eu quero mandar tudo pro espaço quando sinto que não dão valor à oportunidade. Mas ainda bem que isso acontece pouco. Sou de outra época, quando os locais de shows eram “tosquérrimos”, o som era uma tristeza e éramos felizes por ainda conseguir ir ou tocar num show uma vez por mês, e olhe lá. Eu luto pelo local, mas o Anderson luta muito mais. Ele é louco pelo espaço porque ele viveu bem os anos 90 e sabe como é difícil ter um lugar tão legal pra tocar e fazer festa voltada pro cenário independente. Eu já pensei em fechar várias vezes. Ele só pensou uma única vez e foi nesse ano.

Sem culpas freudianas: os “meninos” são uns “amamãezados”, diz Morena. A tradução é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. Quem quase cansam de esperar, nem um pouco sentados, foram eles dois.

IC_Qual é a grande busca dessas bandas hoje?
Morena_A maioria quer tocar, gravar e ser roqueiro no intervalo do trabalho, da faculdade e da namorada. A minoria quer trabalhar e viver do rock.

IC_Isso é bom ou ruim?
Morena_Não é bom nem ruim, é apenas um fato. Cada um faz o que está a fim e do jeito que convém e dá certo. Só não quero ouvir reclamação de quem não consegue uma projeção com a sua banda e diz que um fulano de outro grupo toca em todo festival, faz shows em outras cidades e tira um som melhor porque faz parte da “panelinha”. Duas coisas que não tenho paciência: o sujeito que não se toca que fulano rala “pra caramba” para conseguir tudo isso e essa conversa anos 80 de panelinha. “Pelamordedeus”!

IC_Com você avalia a cena musical natalense? O que você observa da atual produção das bandas?
Morena_
Muitas bandas boas, bem equipadas (instrumentos, amplificadores, pedais, etc), fazendo boas gravações e arrumando tempo livre pra poder tocar fora. Tem épocas com muito mais bandas em ação. Mas acho melhor ter menos bandas com mais qualidade do que uma “ruma” mais ou menos.

IC_O que essa cena tem de especial?
Morena_De especial, as bandas estão preocupadas em fazer um som bacana, preocupam-se com a qualidade do show, em ter bons equipamentos, estilo, uma boa performance e, o mais importante, todas as bandas se ajudam e se preocupam umas com as outras, emprestam equipamentos, instrumentos, dão uma força entre elas. É bacana de ver, temos uma cena quase fraternal.

IC_E o que falta?
Morena_
Falta a iniciativa. As bandas são muito enroladas. Esses meninos são muito “amamãezados”. Com 20 anos, eu já fazia show, tocava, desenrolava, conversava e divulgava o trabalho numa época em que a internet não era essas “coca-cola” toda. Claro que tem gente que faz acontecer, mas é uma em um milhão. O resto fica esperando que façamos por eles. Ficam numa de “poxa, não sei fazer”. Só se aprende a fazer fazendo, oras. Mas precisa querer fazer direito. Quando vão fazer um show fora da cidade ou tocar num festival vira uma novela, complexa e cheia de drama. Coisas simples ganham uma dimensão gigante (risos). Mas é isso, uma coisa de cada vez. Não se pode ter tudo!

IC_É meio como perguntar ao pai qual filho ele gosta mais, mas quais bandas você destaca no momento?
Morena_Calistoga, The Sinks, Brand New Hate, Poetas Elétricos e a minha Camarones Orquestra Guitarrística. Essas são as minhas bandas preferidas que estão mais agilizadas no momento.

IC_Você já tem alguma idéia de qual caminho o rock natalense está tomando?
Morena_Caminho de sempre: circular com altos e baixos eternamente. Shows, platéia, novas bandas, mais shows, mais platéia, novas bandas, menos platéia, menos shows, mais platéia, mais bandas, mais shows…

Louco pelo local: Ana pensou várias vezes em fechar o espaço. Anderson, uma única vez.

IC_É necessário projetar alguém além dos muros para construir uma identidade?
Morena_Identidade de uma cidade sem identidade é essa que temos no momento. E que vai mudar no futuro. Se projetarmos alguém pra fora, vai ser alguém com identidade global, como todas as bandas que temos aqui. Não existe um som rock do RN ou de Natal. Existem sim boas bandas de vários estilos. Hoje estamos com mais bandas cantando em inglês, fazendo um rock mais duro misturado com punk rock. Mas se, por exemplo, o The Sinks for projetado nacionalmente, a identidade de Natal vai ser rock duro/punk rock, Nirvana? Acho que não. Será uma banda de Natal, mas não acredito que ela, ou qualquer outra, irá definir uma identidade musical pra cidade.

IC_Aquela velha pergunta… precisa cantar em inglês?
Morena_Não, não… é uma tendência. Antes, por algum tempo, uma banda local que cantava inglês era execrada. Agora elas são uma “moda”. Acho besteira essa coisa de “precisa de”. Não é preciso nada. Você faz o que está a fim de fazer e se o público estiver a fim de ouvir, ótimo! Quando força a barra, normalmente não funciona. Agora se quer fazer uma carreira no exterior, cantar em inglês é fundamental. Eu ainda prefiro bandas que cantem em português, mas as minhas preferidas locais, quase todas cantam em inglês. O que importa mesmo é ser bom!

IC_Qual a sua expectativa hoje com o trabalho no DoSol?
Morena_Se conseguirmos manter o DoSol com patrocínio, continuar a fazer o Festival com a mesma proposta de valorizar a música de vanguarda independente, manter o estúdio, os projetos de edição de vídeo e o portal Dosol sempre com novidades e, o mais importante, conseguir viver disso, seremos as pessoas mais felizes da Terra.

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“O mundo quer saber do mundo”

8 Junho, 2008 · Deixe um comentário

Gustavo Lamartine e a sua \

Uma música de protesto. Assim o músico Gustavo Lamartine define “Eu moro na esquina”, uma composição própria que passava despercebida nos animados shows do Sangue Blues, banda a qual ele dividia as guitarras com a lendária General Junkie nas noites natalenses. Em um ritmo puxado para o Carimbó, segundo Lamartine, a música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também, cada vez mais “tomada por grupos estrangeiros que querem transformá-la em um grande centro de diversões, com custo tão alto que você teria de ganhar em euro ou dólar”. E o carimbó, de onde vem? Sem trocadilhos com o Sangue Blues, para “nós da esquina”, parece estar “no sangue”. E sem medo de ser feliz, atesta ainda que a guitarra de Chimbinha, da Banda Calypso, “é pura música”. Atualmente mandando ver nas guitarras do DuSouto, a idéia de carreira solo ainda soa estranho para Lamartine. “Colocar meu nome é uma coisa muito séria. Parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias”, diz. Por fim, ele acha que ainda falta uma sintonia de Natal com o mundo, uma força de transformação. Mas é otimista e profetiza que “isso vem com o tempo”. Enquanto isso, ele só pede uma coisa: deixem a menina em paz! Veja a seguir a entrevista exclusiva que Gustavo concedeu, por e-mail, para o Internetcidade.

Internetcidade _Eu moro na esquina” é um projeto solo?
Gustavo Lamartine –
É uma música que tocávamos no Sangue Blues no meio de um monte de covers. Ninguém notava que era uma música própria, minha ou da banda. Achei que ela é uma música boa e tava meio perdida no tempo. Já pensei em fazer um projeto solo, mas não sei como chamar. Acho colocar o meu nome uma coisa muito séria. Imagine, show de Gustavo Lamartine, parece Roberto Carlos ou Júlio Iglesias, ainda não me acostumei com uma idéia dessas. Mas não ganhei nada no MPBeco. Pela vibração do público, foi no mínimo estranho e injusto.

IC _ A música é um carimbó ou um brega? Como você definiria?
Carimbó. Acho que brega é um rótulo, carimbó é um ritmo. Acho as letras do Calipso brega, mas a guitarra de Chimbinha irada, pura música.

IC _ Como surgiu? Qual a idéia?
Como já disse, tocávamos ela no Sangue blues. Fazíamos um bloco de músicas latinas que tinha Buena Vista, Mano Chao e Santana. Eu tinha essa música e ela se encaixou bem no show. As composições são assim mesmo, elas pedem o ritmo, a própria melodia ou letra já vai definindo o melhor ritmo de tocá-las e então ela nasceu assim.

IC _ A sonoridade se aproxima de ritmos mais caribenhos como a salsa e o carimbó. Grupos como o Nação Zumbi e o Eddie têm passeado também nestes caminhos musicais. Por estarmos nesta “esquina”, nossa musicalidade está tendendo mais para esses ritmos do que para os tradicionais Forró ou Baião?
De certa forma essa música “Latina” inspira muita gente desde Nação de uma forma mais moderna até um Chico César, de uma forma mais tradicional. Acho que ela está no sangue mesmo.

IC _ Há mais gente seguindo este ritmo em Natal?
Por aqui tem umas bandas que já fazem shows completos com esses ritmos como Perfume de Gardênia ou Capim Cubano. No caso de “Eu moro na esquina”, eu me apropriei de um estilo pra fazer uma música de protesto.

IC _ Na música, fala-se para deixar a “menina” em paz. Essa menina é uma famosa Natal?
A música faz uma comparação entre uma menor prostituída e uma cidade também.

IC _ E a situação, já está perdida?
Grupos estrangeiros querem transformar Natal numa cidade não muito interessante para os natalenses. Querem destruir nossas riquezas naturais e fazer daqui um grande centro de diversão, com um custo de vida tão alto que você teria que ganhar em euro ou em dólar. Campos de golfe no lugar das Dunas, grandes condomínios de luxo. Enquanto isso, a classe pobre prostitui suas filhas, que se acham muito espertas por ter encontrado um príncipe encantado quando “namoram” com os gringos.

IC _ Há quem culpar?
A sociedade tem o governo que merece, então a culpa é de todos. Ou, pelo menos, da maioria. Quem sustenta a corrupção dos políticos e empresários são as pessoas que concordam com eles em prol de um benefício próprio. Muitos brasileiros são corruptos e os políticos são o retrato deles. A natureza humana parece ser assim mesmo. Cada um por si.

IC _ Morar na esquina é bom ou ruim?
É bom, mas é difícil. A cidade é linda com um clima perfeito. Mas as pessoas continuam insistindo em não ter cultura e viver sendo guiadas pela mídia. Lógico que existem exceções, mas ainda não têm uma força de transformação.

IC _ Como você avalia a atual cena cultural natalense? É necessário projetar alguém além dos muros para termos identidade?
Acho que a cidade tem que chegar numa sintonia com o mundo pra poder projetar alguém. O mundo não quer saber o que acontece em Natal, o mundo quer saber o que acontece no mundo. Acho que isso vem com um tempo.

IC _ E como vai o DuSouto?
Essa parece que vai pro segundo CD, temos idéias pra um novo projeto e até já tocamos músicas novas que ainda não estão gravadas no show.

IC _ E o General, “vai ver se eu tô lá na esquina”?
Muita gente cobra show do General, é um show bem interessante. Mas é uma banda que parou no primeiro CD e ficar vivendo de fazer o mesmo show é sinal que você também parou. Pretendemos fazer esse show um dia como data comemorativa.

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