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Rani e sua doce dissonância

10 Novembro, 2008 · Deixe um comentário

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Os últimos dias foram daqueles intensos para Rani de Moraes. A jovem compositora brigou com sua Cotovelada no Festival Universitário da Canção e ainda fará o primeiro show com um de seus parceiros, o cantor Letto, no Calígula Restaurante. Rani vem despontando com uma grata surpresa no cenário da música natalense. Com jogos de palavras e doces dissonâncias, compõe músicas ousadas, enérgicas, vigorosas, fortes de sentimentos. Entre elas, a própria “Cotovelada”  e “Caos”, finalista do MPBeco.

A poesia é o ponto de partida para esta cidadã de “interiores”. Sergipana de Aracaju, Rani deixou sua terra natal há quatro anos para cursar Arquitetura na UFRN. Uma escolha que ela não esperava que fosse trazer tantos outros frutos. Sorte nossa. Tem 24 anos. Dez deles vividos em Canindé de São Francisco, no Xingó, “uma região que cresceu pelas mãos de pessoas de todos os lugares do Brasil e até do mundo”. Talvez por isso descarte a necessidade de regionalismos que vez ou outra se busca em Natal. Para ela, não dá para fugir da globalização, da tecnologia, do ritmo de vida urbano da capital.

Mesmo assim, Rani diz encontrar sim uma identidade cultural em Natal, “tão universal quanto a Bossa Nova ou Jazz”. Não é o caso de ter surgido um novo estilo. Aquele tão aguardado. Mas de contar com um fabuloso universo de possibilidades musicais, que vão do Blues ao Xote. Para ela, dois elementos retratam muito bem a música potiguar e que são muito bem aproveitados na música dela: ritmo e emoção.

Rani acordou para a música faz pouco tempo. Não segue regras. Procura unir o inusitado ao popular. Gosta de marcar, de envolver. O violão é para ela um “meio e não um fim” para as suas poesias. Compõe para desabafar e exaltar sentimentos. “Talvez se a cotovelada fosse minha, os seus beijos é que seriam quentes”, de Cotovelada, soa como um deles. Apesar da distância de casa, não se sente só. Conta como muitos amigos, como o próprio Letto, Euzélio Cardoso, a poetisa Drika Duarte, Mariana Costa e Júnior Carmo.

Um pouco antes deste post, pediu para atualizar o número de canções. “Agora são 43″. Aproveitou a brisa de inspiração e a animação do momento e andou compondo muito estes dias. Outra cotovelada? Sem cotoveladas, por favor. Mas, aguardem. A garota diz não ver limites para a arte dela. As tais 43 canções, ela acha ainda pouco. “Conheço gente que tem 200″. Mas é um grande começo. Sem dúvida, uma nova face (e voz) da música “popular” potiguar.

IC_Qual é a reação dos “locais” ao ouvirem a tua música?

Rani_As pessoas reagem muito bem às minhas canções. Algumas me dizem sentir algo familiar nelas, dizem que parecem músicas de “gente conhecida”. Acho isso engraçado, mas de certa forma é bom notar que as pessoas não estranham minhas músicas. Em maio deste ano, participei do MPBeco, fui finalista com a Canção “Caos” e fiquei feliz com o reconhecimento das pessoas.

IC_O que você busca na sua composição?

Rani_Musicalmente, busco unir o inusitado ao popular. Procuro trabalhar com harmonias inusitadas, com acordes que parecem não se encaixar na música, mas que ao fim se encaixam. Gosto de melodias marcantes, que envolvem quem está ouvindo.

IC_E os jogos de palavras, de onde vêm?

Rani_Da poesia. Busco trabalhar bem minhas letras com jogos semânticos, fonéticos e outras brincadeiras lingüísticas. Sempre fui uma boa aluna de Língua Portuguesa, sempre gostei de aprender as figuras de linguagem. Ainda bem (risos). A língua portuguesa é um mundo que deve ser explorado. Entretanto, não me prendo totalmente a regras, deixo as letras fluírem. Por exemplo, eu tenho uma música de apenas duas frases.

IC_Há ainda uma forte carga sentimental…

Rani_Gosto de compor para desabafar. Sentimentalmente, procuro uma fuga, expulsar minhas angústias ou exaltar um sentimento. E procuro fazer com que as pessoas que me ouvem também sintam isso, como eu sinto. Ainda estou trilhando um caminho pra também passar o sentimento na minha interpretação. Certas vezes, é difícil se concentrar e passar emoção ao mesmo tempo.

Fabio Pinheiro

Rani, em Nalva: a maioria dos natalenses paga 40 para um artista de fora. Mas nem cinco para um local.

IC_Como começou a compor?

Rani_Sinceramente, não me lembro bem. Eu não tive influência de pais ou parentes. Morei no interior dos 4 aos 14 anos e nunca tive uma cultura de ouvir boa música. Mas sempre gostei de escrever e ler poesias. Acredito que por volta dos 14 anos devo ter feito minha primeira música, mas não sei o motivo. Nunca soube o que me fez e me faz compor até hoje. Acho que era uma necessidade, uma paixão que descobri. Só sei que compor e ver o resultado da minha criação me deixa muito feliz.

IC_Sem essa influência musical, como começou a tocar?

Rani_Nas festinhas em casas de amigos, ia pedindo a um e a outro pra me ensinar uma música. Assim fui praticando enquanto os outros se divertiam (risos). Comecei a tocar mais quando vim morar aqui em Natal. Com o tempo fui aprendendo a tocar sozinha. Isso é um problema hoje, porque não tenho muito conhecimento sobre teoria musical. Não me considero violonista e entendo o violão como um “meio” para mim, e não um “fim”.

IC_Você se considera com um certo dom?

Rani_Ouço as pessoas me dizerem que tenho talento. Não sei de onde vem. Não acredito em dom sem esforço. Talvez seja apenas paixão pela música mesmo. E todos sabem que é a paixão que faz o nosso sangue ferver. Assim vejo a música. Como disse o meu guitarrista, grande Philip: “A música tem que correr nas tuas veias, misturada com teu sangue”.

IC_Quais são as suas referências?

Rani_Eu sempre gostei de rock, mas de rock “pesado” mesmo, só o Iron Maden (risos). Hoje escuto muita música nacional e menos rock. Gosto muito dessa nova geração da MPB, Céu, Cibelle, Lenine, Roberta Sá, Kristal, Rosa de Pedra, Letto, “Elegia e Seus Afluentes” (sendo estes cinco últimos de Natal). Também outros nomes consagrados como Djavan, Marisa Monte, Tom Jobim, Zeca Baleiro. Ainda tem muita coisa de fora, como John Mayer, Joss Stone, Alanis Morissetti, Norah Jones, Lura, Ray Charles, Muse, R.E.M., Dire Straits, Pink Floyd. E outros.

IC_Como vê o cenário atual da música/cultura natalense?

Rani_Natal é uma cidade riquíssima no âmbito cultural e musical. Parte das minhas influências é do que ouço aqui. Onde há uma grande diversidade de ritmos e de estilos. Acredito até que existe muita gente que gosta de assistir aos artistas locais, mas a grande maioria ainda valoriza apenas o que vem de fora ou os ritmos que fazem sucesso na mídia. Por outro lado, mesmo essas pessoas que ouvem a música local, muitas vezes se recusam a pagar pra ver o artista. Ficam esperando uma oportunidade para vê-lo gratuitamente quando se sabe que essas mesmas pessoas chegam a pagar 40 reais pra ver um artista de fora e acham muito cara uma entrada de 5 reais pra ver uma boa apresentação local.

IC_E a mídia local?

Rani_A mídia tem um grande papel de mostrar a produção local e até existe uma programação em alguns meios de comunicação, mas deve haver também o interesse da população em ouvir. Tudo deve começar na procura por esses artistas partindo da população.

IC_E o apoio governamental?

Rani_São louváveis as leis de incentivo à cultura e os apoios dados aos eventos com artistas do estado, mas ainda há muito que se fazer de verdade. Aos contratantes, falta mais respeito, falta investir em equipamentos bons, para que o artista não tenha seu “som” e sua imagem prejudicados em apresentações. Ora, muitas pessoas que contratam e muitos “fãs” não têm noção de quanto um artista gasta com o seu trabalho, é um investimento altíssimo, de tempo, esforço e dinheiro. Há que se saber reconhecer tudo isso.

Depois de ter se encontrado na música, Rani não vê limites e não quer perdê-la nunca mais. Só acha que não se deve exigir um regionalismo forçado. Não dá para fugir à globalização, ao ritmo da capital.

Rani se descobriu na música e não vê limites para a sua arte, nem para os recantos onde pode chegar. Porém, não exija regionalismos forçados. Para ela, é impossível fugir da globalização, do ritmo de vida urbano, da capital. E do jogo de palavras.

IC_O que você acha dessa história de identidade cultural ou da falta dela em Natal?

Rani_Bem, vou tentar não ser redundante. Aqui em Natal há, sim, uma identidade cultural. No entanto, isso não restringe a música potiguar ao plano “regional”. A música potiguar é tão universal quanto a Bossa Nova ou o Jazz, ou quanto a música sergipana ou a francesa. Não vou dizer que aqui surgiu um novo estilo. Mas se formos unir tudo que se faz aqui, teremos um universo de possibilidades musicais, do Blues ao Xote. Isso é fabuloso. As pessoas têm que parar com isso de se exigir um regionalismo forçado. Nós moramos numa capital, não dá pra fugir da globalização, da tecnologia, do ritmo de vida urbano. Mas eu poderia dizer duas palavras que retratam bem a música potiguar e que acredito que também se encontram na minha música: ritmo e emoção.

IC_E daqui para a frente, quais seus planos musicais?

Rani_Eu não vejo limites na minha música. Creio que, como todo artista que realmente acredita no seu trabalho, quero sempre me superar. Quero estudar canto, violão, composição, aprender outro instrumento, entender mais do processo de criação musical, de gravação, edição. E a cada passo que eu der, quero poder dar mais um adiante. Tenho sonhos altos, mas sempre com os pés no chão. Acho que me encontrei na música. Não quero me perder nunca mais. Ultimamente, estou me concentrando em ensaiar e criar arranjos para as músicas. E só depois começar a marcar shows, com tudo bem programado. Não quero me apressar e fazer um trabalho ruim. Sou paciente em relação a isso.

IC_Você espera que seu belo sotaque seja ouvido em outras cercanias?

Rani_Eu não sou uma boa representante do sotaque potiguar. Sou sergipana, nasci em Aracaju e morei 10 anos em Canindé de São Francisco na região de Xingó. Uma região que cresceu pelas mãos de pessoas de todos os lugares do Brasil e até do mundo. Moro aqui há quatro anos, mas não adquiri todo esse belo sotaque. Mas quero sim, que meu sotaque misturado, seja ouvido em todos os lugares possíveis. Mas espero que as pessoas ouçam mesmo a minha música, a minha poesia… Não tenho medo de querer isso, nem de dizer que quero. O artista tem que ser acima de tudo um sonhador, um empreendedor e um lutador.

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