
Todo dia ele se sentia escrevendo a mesma reportagem. Repórter de polícia em Recife há 10 anos, o jornalista Eduardo Machado percebeu que só mudavam os nomes das vítimas e dos personagens. As ocorrências de homicídios eram tantas que já nem vinham sendo mais noticiadas. Preocupado, resolveu deixar de lado o dogma jornalístico do não envolvimento e, junto com mais outros três colegas do Jornal do Commercio, criou o projeto PEbodycount que, por meio de um site (www.pebodycount.com.br), acompanha e registra os índices de homicídios no Estado, além de realizar e participar de outras iniciativas.
Entre elas, o PEbodycount utilizava um contador de vítimas instalado entre as ruas Guilherme Pinto e Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, em Recife. Uma faculdade local patrocinava o display e, com o cancelamento da parceria, o contador teve de ser desligado no dia 1º de maio. Naquele dia, o mostrador eletrônico registrava exatamente 4.433 homicídios em um ano (e desde janeiro de 2009, já são mais de 1.500 mortos). Mas o projeto continua de várias formas, principalmente com o registro dos homicídios e a discussão das políticas e estratégias de segurança pública no Estado no blog. Desde outubro de 2007, quando o site foi aperfeiçoado, o banco de dados já acumula mais de 7 mil registros de crimes com mortes. Hoje, o trabalho voluntário dos jornalistas conta apenas com o apoio de uma empresa de informática e da Associação do Ministério Público de Pernambuco, que custeia parte dos custos do site.
Quando o projeto foi iniciado em maio de 2007, Pernambuco liderava as estatísticas de crimes violentos letais intencionais (homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte). Os números, até hoje, ainda surpreendem, mas na última pesquisa divulgada, o Estado deixou o posto de mais violento proporcionalmente, tendo Alagoas e Espírito Santo agora à frente, respectivamente. O Rio de Janeiro vem em quarto lugar. Machado avalia a dança das cadeiras da violência: “Não é que Pernambuco tenha diminuído seus índices, mas é que os outros estados conseguiram ser mais violentos”.
Mesmo “perdendo” o primeiro posto, a capital pernambucana que abriga um dos maiores carnavais de rua do país, foi destacada em matéria do dia 15 de maio do jornal britânico The Independent, que a definiu como a “Capital Brasileira do Assassinato”, denunciando ainda a existência de grupos de extermínios e justiceiros dentro da própria Polícia ocupados de matar os “indesejáveis”. É importante ainda colocar que Pernambuco continua a ser mais violento que o Iraque, até mesmo em números absolutos.
Sobre as causas de tamanho descontrole na segurança pública, o jornalista prefere não julgar sob risco de cometer os mesmos erros de quem já opina sem bases. Segundo ele, ainda faltam estudos e pesquisas no Estado que realmente mapeiem as causas da violência. Machado aponta que apenas 10% dos crimes são investigados e o restante cai na vala comum de que eram pessoas ligadas ao crime e ao tráfico. Porém, o perfil dos mortos é muito bem conhecido. “São pobres, pretos, em torno dos 18 anos, moradores da periferia. Mas o por quê estão sendo assassinadas não sabemos. E daí a dizer que são apenas criminosos, é puro estereótipo”, avalia.
Ainda segundo Machado, a iniciativa do contador, que tem como inspiração o Iraqibodycount e o Riobodycount, foi muito importante. O objetivo não era só contar cadáveres, mas sim, colocar o assunto na pauta da sociedade pernambucana e fazer com que a população refletisse sobre a extensão da violência. O impacto foi imediato inclusive fora do país, atraindo a atenção de meios nos Estados Unidos e Europa. O contador foi assunto em jornais como Miami Herald, Los Angeles Times, entre outros, e também na mídia brasileira. Equipes de documentaristas também do exterior estiveram em Recife.
Por outro lado, também não faltaram críticas, principalmente a de que o contador seria um desestímulo ao turismo no Estado. Machado até reconhece o argumento, mas também dispõe de vários outros que justificam a importância do PEBodyCount. Ele lembra que foi sua responsabilidade contar os homicídios no primeiro fim de semana do funcionamento do contador, em maio de 2007. Foram 56 mortos. Na segunda-feira, ele assistia ao apresentador e editor William Bonner, do Jornal Nacional, destacar 18 mortos no conflito Israel-Palestina no fim de semana. “Aqueles 56 de Pernambuco não mereceram nem uma nota”, frisa.
Para o jornalista, fica evidente que há uma anestesia quanto à violência no país e a mídia tem ativa participação nisto. “Vivemos de casos. É o caso Eloá, o caso Isabela e seguimos nessa sucessão até o próximo. E é só neste momento que nos damos conta em que sociedade violenta nós vivemos. É necessário saber mais dessa violência, estudarmos mais o fenômeno para constatar onde cada um de nós se insere na produção destes índices e como podemos combatê-la”, afirma.
Além do site, Machado destaca que o Jornal do Commercio também se envolve diretamente na produção de matérias e cadernos especiais para a discussão da gestão e estratégias da segurança pública no Estado. Ele mesmo já acompanhou as iniciativas e projetos de redução da violência fora e dentro do país, como o Tolerância Zero em Nova York e o Segurança Cidadã de Bogotá ou, em São Paulo, que vinha apresentando redução dos índices desde 1999. Em seu currículo, ele acumula prêmios como o Esso, Embratel, Vlademir Herzog e Cristina Tavares (PE) com matérias sobre Direitos Humanos e Segurança Pública.
Fazem parte ainda do PeBodyCount, além de Eduardo Machado, os jornalistas João Valadares, Carlos Eduardo Santos, Rodrigo Carvalho. Eles também são agraciados ou finalistas em prêmios como o Vlademir Herzog de Direitos Humanos, Embratel, Tim Lopes e OAB de Direitos Humanos. O Internetcidade conversou com Eduardo Machado, por telefone. Neste meio tempo da conversa até a publicação, o contador do site já registrava quase 100 homicídios a mais. E faltando menos de 10 dias para o mês acabar, o registro marca 223 homicídios em maio. Um deles, a morte do professor e turismólogo Igor Siqueira Duque, de 28 anos, em um assalto, provocou a atenção da sociedade recifense, tornando-se mais um caso.
Internetcidade_Como surgiu a iniciativa e qual era o objetivo do contador?
Eduardo Machado_Em maio de 2007, lançamos o site PEbodycount, que inclusive contou com a palestra com o ex-secretário de segurança de Bogotá (Hugo Acero). Entre tantos crimes, queríamos que nenhum homicídio deixasse de registrado e que esse número estivesse à disposição da população. Mas no próprio evento de lançamento, algumas pessoas já questionaram que, se o projeto era voltado para as pessoas carentes, muitas não teriam acesso ao computador. Um ano depois conseguimos viabilizar o contador e o impacto foi imediato. Dezenas de jornais deram a notícia e equipes de documentaristas vieram de outros estados e de outros países para mostrar a situação.

O contador, agora desativado, e a dança das cadeiras da violência: eram 4.433 mortes em um ano no dia do desligamento. Não é que Pernambuco se tornou menos violento. Mas os outros estados conseguiram ser mais.
IC_Quais são os principais motivos dos crimes no Estado?
Machado_Essa é a questão chave neste problema. Ao contrário de outros lugares, aqui em Pernambuco ainda tem muito pouca gente envolvida no estudo e investigação da violência. Isso ainda está engatinhando. Os crimes geralmente são relacionados à criminalidade e ao tráfico de drogas. Mas hoje, nem 10% dos homicídios são investigados, de modo que não sabemos quais são os motivos reais dessas mortes. Mas o perfil é muito bem definido. É pobre, preto, morador da periferia, com idade em torno dos 18 anos. Se encontrados com maconha, a generalização é de que era assaltante ou do tráfico. E já são motivos para não se investigar. Mas se alguém morre em regiões de classe alta e havia maconha, ninguém vai associar ao tráfico. Ou seja, é puro preconceito. É preciso investigar, para termos uma abrangência muito maior dos motivos e termos um norte do que pode ser essa questão da motivação. Poderia chutar e dizer que é só a criminalidade, mas incorreria em um erro.
IC_Em termos de políticas públicas, o que vem sendo feito para diminuir a incidência dos crimes?
Machado_No momento, está em andamento o programa Pacto pela Vida, do Governo do Estado, que tem como objetivo reduzir em 12% por ano no número de crimes violentos letais. Criado em 2007, o programa conseguiu uma taxa de redução de 6,9% no primeiro ano. Agora no segundo ano, foi de apenas 2,6%, número que já inclui o crescimento da população no período. Ou seja, em números absolutos, temos que a redução é de cerca de 1%, o que pode perfeitamente estar na margem de erro. Desde a criação do programa, mais de dois bilhões de reais foram investidos na segurança pública tanto em equipamentos como em aumento de efetivos. Mas as estatísticas mostram que o gerenciamento de recursos e esforços não estão gerando os resultados esperados e que precisam ser revistos.
IC_Isso demonstra ainda que só investir em polícia não é a solução?
Machado_Só investir a polícia virou um jargão, do qual a própria Polícia já compactua. Ela quer compartilhar as responsabilidades. Eu também concordo que só investir em polícia não é solução, mas com certeza uma reformulação mais ampla das políticas pode implicar em uma redução muito significativa das estatísticas. Arrumar e rearrumar é uma obrigação de quem quer mudar. É muito importante contar com a mudança desses paradigmas de investimentos.
IC_Recife apresentava ainda altos índices de crimes por motivos torpes. Há aí uma questão cultural também?
Machado_A cultura do machismo, de não levar o desaforo para casa, é muito presente, mas não sei o quanto é determinante. Fora Alagoas e Pernambuco, os outros estados do Nordeste apresenta índices relativamente baixos o que mostra que tem alguma coisa a mais a ser determinada. Precisamos investir mais neste levantamento das causas.
Mais de 2 bilhões de reais foram destinados para diminuir os homicídios em Pernambuco. A meta de redução é de 12% ao ano. No primeiro ano, foram alcançados 6,9%. No último, houve retração de apenas 2,6%. Para Machado, a conta não fecha com o esperado e rever as políticas é obrigação de quem quer mudar.
IC_Vocês deixaram o dogma jornalístico do não-envolvimento e se mobilizaram. Como foi isso?
Machado_Nós nos envolvemos porque vimos, que como repórteres, estávamos contribuindo de uma maneira negativa. Cobrindo Polícia, eu senti que estava fazendo a mesma coisa há 10 anos, contando a mesma história todo dia e o que mudava eram apenas os nomes, os personagens. Desse jeito, estávamos nos encaixando na engrenagem da violência. E não queríamos nos tornar mais um nesta construção. Resolvemos agir contribuir de forma positiva e o que sabemos e podemos fazer é comunicação. O PeBodyCount é um projeto de comunicação contra a violência. É a nossa contribuição como cidadão. É um trabalho voluntário. Temos apenas uma parceira, a Associação do Ministério Público de PE, que contribui com uma parte dos custos do site.
IC_E qual foi a reação?
Machado_Vemos que esse envolvimento foi muito bom e importante. A gente se sente fazendo realmente uma coisa diferente, pois queríamos que a sociedade debatesse o assunto. Pela primeira vez as pessoas tiveram de refletir, explicar aos seus filhos o que era aquilo. Claro que tivemos muitas críticas contra o contador, principalmente a de que afastaria os turistas. Mas, ao mesmo tempo, temos vários argumentos, que mostram a importância da iniciativa. A sociedade está muito presa a “casos”. É o caso Isabela, Eloá e segue nessa sucessão até o próximo. Aí vemos como nossa sociedade é violenta. Mas seguimos sem o contexto desses crimes. Para isso, é preciso estudar mais o fenômeno, saber onde a gente se encaixa nele e como podemos reagir.
Mar de lágrimas: manifestantes estendem lenços em Recife para marcar as 1.174 mortes registradas de janeiro ao dia 7 de maio deste ano. O por quê das mortes não se sabe. Menos de 10% dos crimes são investigados. Mas o perfil das vítimas é muito bem conhecido: são jovens, pobres, negros e moradores da periferia.
IC_Há outras iniciativas a se destacar?
Machado_Há iniciativas muito interessantes. Um desempregado deu um grande exemplo com a criação de uma biblioteca na palafita, em uma área super violenta da cidade. Ele foi comprando livros em sebos e as crianças iam para lá, passavam o dia lendo. O Ministério da Cultura achou tão interessante que resolveu replicar a iniciativa, tornando em uma política pública, em forma de kit, para o Brasil inteiro. E aí, na inauguração da primeira biblioteca em Recife, veio ministro da Cultura, representantes do Governo, da Prefeitura. A biblioteca foi instalada em uma garagem, nem tinha bebedouro banco para as crianças sentarem. Até um “favelado” fez, mas o governo não conseguiu fazer. Isso mostra que é possível fazer muito com pouco.
IC_Como vocês pretendem continuar atuando depois do desligamento do contador?
Machado_O PEbodycount não é só o contador. Nós fazemos e participamos de outras iniciativas e eventos como o “Marcas da Violência”. Pintamos uma marca de um corpo em 80 lugares de Recife onde pessoas morreram. Fizemos também uma parceria com a Igreja Católica onde mais de 100 nomes de pessoas assassinadas eram lidos antes das missas em várias igrejas. Participamos em parceria com o ONG Rio de Paz e fincamos cruzes em Boa Viagens e lenços quando atingimos a marca de mil homicídios somente neste ano. Tudo isso na tentativa de mobilizar as pessoas. Queremos causar essa indignação. Essa é a base do nosso trabalho. Quanto ao display, aguardamos novos parceiros interessados e estamos trabalhando para isso.




