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Uma conta que nunca fecha

22 Maio, 2009 · 2 Comentários

foto: PEbodycount

Todo dia ele se sentia escrevendo a mesma reportagem. Repórter de polícia em Recife há 10 anos, o jornalista Eduardo Machado percebeu que só mudavam os nomes das vítimas e dos personagens. As ocorrências de homicídios eram tantas que já nem vinham sendo mais noticiadas. Preocupado, resolveu deixar de lado o dogma jornalístico do não envolvimento e, junto com mais outros três colegas do Jornal do Commercio, criou o projeto PEbodycount que, por meio de um site (www.pebodycount.com.br), acompanha e registra os índices de homicídios no Estado, além de realizar e participar de outras iniciativas.

Entre elas, o PEbodycount utilizava um contador de vítimas instalado entre as ruas Guilherme Pinto e Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, em Recife. Uma faculdade local patrocinava o display e, com o cancelamento da parceria, o contador teve de ser desligado no dia 1º de maio. Naquele dia, o mostrador eletrônico registrava exatamente 4.433 homicídios em um ano (e desde janeiro de 2009, já são mais de 1.500 mortos). Mas o projeto continua de várias formas, principalmente com o registro dos homicídios e a discussão das políticas e estratégias de segurança pública no Estado no blog. Desde outubro de 2007, quando o site foi aperfeiçoado, o banco de dados já acumula mais de 7 mil registros de crimes com mortes. Hoje, o trabalho voluntário dos jornalistas conta apenas com o apoio de uma empresa de informática e da Associação do Ministério Público de Pernambuco, que custeia parte dos custos do site.

Quando o projeto foi iniciado em maio de 2007, Pernambuco liderava as estatísticas de crimes violentos letais intencionais (homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte). Os números, até hoje, ainda surpreendem, mas na última pesquisa divulgada, o Estado deixou o posto de mais violento proporcionalmente, tendo Alagoas e Espírito Santo agora à frente, respectivamente. O Rio de Janeiro vem em quarto lugar. Machado avalia a dança das cadeiras da violência: “Não é que Pernambuco tenha diminuído seus índices, mas é que os outros estados conseguiram ser mais violentos”.

Mesmo “perdendo” o primeiro posto, a capital pernambucana que abriga um dos maiores carnavais de rua do país, foi destacada em matéria do dia 15 de maio do jornal britânico The Independent, que a definiu como a “Capital Brasileira do Assassinato”, denunciando ainda a existência de grupos de extermínios e justiceiros dentro da própria Polícia ocupados de matar os “indesejáveis”. É importante ainda colocar que Pernambuco continua a ser mais violento que o Iraque, até mesmo em números absolutos.

Sobre as causas de tamanho descontrole na segurança pública, o jornalista prefere não julgar sob risco de cometer os mesmos erros de quem já opina sem bases. Segundo ele, ainda faltam estudos e pesquisas no Estado que realmente mapeiem as causas da violência. Machado aponta que apenas 10% dos crimes são investigados e o restante cai na vala comum de que eram pessoas ligadas ao crime e ao tráfico. Porém, o perfil dos mortos é muito bem conhecido. “São pobres, pretos, em torno dos 18 anos, moradores da periferia. Mas o por quê estão sendo assassinadas não sabemos. E daí a dizer que são apenas criminosos, é puro estereótipo”, avalia.

Ainda segundo Machado, a iniciativa do contador, que tem como inspiração o Iraqibodycount e o Riobodycount, foi muito importante. O objetivo não era só contar cadáveres, mas sim, colocar o assunto na pauta da sociedade pernambucana e fazer com que a população refletisse sobre a extensão da violência. O impacto foi imediato inclusive fora do país, atraindo a atenção de meios nos Estados Unidos e Europa. O contador foi assunto em jornais como Miami Herald, Los Angeles Times, entre outros, e também na mídia brasileira. Equipes de documentaristas também do exterior estiveram em Recife.

Por outro lado, também não faltaram críticas, principalmente a de que o contador seria um desestímulo ao turismo no Estado. Machado até reconhece o argumento, mas também dispõe de vários outros que justificam a importância do PEBodyCount.  Ele lembra que foi sua responsabilidade contar os homicídios no primeiro fim de semana do funcionamento do contador, em maio de 2007. Foram 56 mortos. Na segunda-feira, ele assistia ao apresentador e editor William Bonner, do Jornal Nacional, destacar 18 mortos no conflito Israel-Palestina no fim de semana. “Aqueles 56 de Pernambuco não mereceram nem uma nota”, frisa.

Para o jornalista, fica evidente que há uma anestesia quanto à violência no país e a mídia tem ativa participação nisto. “Vivemos de casos. É o caso Eloá, o caso Isabela e seguimos nessa sucessão até o próximo. E é só neste momento que nos damos conta em que sociedade violenta nós vivemos. É necessário saber mais dessa violência, estudarmos mais o fenômeno para constatar onde cada um de nós se insere na produção destes índices e como podemos combatê-la”, afirma.

Além do site, Machado destaca que o Jornal do Commercio também se envolve diretamente na produção de matérias e cadernos especiais para a discussão da gestão e estratégias da segurança pública no Estado. Ele mesmo já acompanhou as iniciativas e projetos de redução da violência fora e dentro do país, como o Tolerância Zero em Nova York e o Segurança Cidadã de Bogotá ou, em São Paulo, que vinha apresentando redução dos índices desde 1999. Em seu currículo, ele acumula prêmios como o Esso, Embratel, Vlademir Herzog e Cristina Tavares (PE) com matérias sobre Direitos Humanos e Segurança Pública.

Fazem parte ainda do PeBodyCount, além de Eduardo Machado, os jornalistas João Valadares, Carlos Eduardo Santos, Rodrigo Carvalho. Eles também são agraciados ou finalistas em prêmios como o Vlademir Herzog de Direitos Humanos, Embratel, Tim Lopes e OAB de Direitos Humanos. O Internetcidade conversou com Eduardo Machado, por telefone. Neste meio tempo da conversa até a publicação, o contador do site já registrava quase 100 homicídios a mais.  E faltando menos de 10 dias para o mês acabar, o registro marca 223 homicídios em maio. Um deles, a morte do professor e turismólogo Igor Siqueira Duque, de 28 anos, em um assalto, provocou a atenção da sociedade recifense, tornando-se mais um caso.

Internetcidade_Como surgiu a iniciativa e qual era o objetivo do contador?

Eduardo Machado_Em maio de 2007, lançamos o site PEbodycount, que inclusive contou com a palestra com o ex-secretário de segurança de Bogotá (­Hugo Acero). Entre tantos crimes, queríamos que nenhum homicídio deixasse de registrado e que esse número estivesse à disposição da população. Mas no próprio evento de lançamento, algumas pessoas já questionaram que, se o projeto era voltado para as pessoas carentes, muitas não teriam acesso ao computador. Um ano depois conseguimos viabilizar o contador e o impacto foi imediato. Dezenas de jornais deram a notícia e equipes de documentaristas vieram de outros estados e de outros países para mostrar a situação.

foto: PEbodycount

O contador, agora desativado, e a dança das cadeiras da violência: eram 4.433 mortes em um ano no dia do desligamento. Não é que Pernambuco se tornou menos violento. Mas os outros estados conseguiram ser mais.

IC_Quais são os principais motivos dos crimes no Estado?

Machado_Essa é a questão chave neste problema. Ao contrário de outros lugares, aqui em Pernambuco ainda tem muito pouca gente envolvida no estudo e investigação da violência. Isso ainda está engatinhando. Os crimes geralmente são relacionados à criminalidade e ao tráfico de drogas. Mas hoje, nem 10% dos homicídios são investigados, de modo que não sabemos quais são os motivos reais dessas mortes. Mas o perfil é muito bem definido. É pobre, preto, morador da periferia, com idade em torno dos 18 anos.  Se encontrados com maconha, a generalização é de que era assaltante ou do tráfico. E já são motivos para não se investigar. Mas se alguém morre em regiões de classe alta e havia maconha, ninguém vai associar ao tráfico. Ou seja, é puro preconceito. É preciso investigar, para termos uma abrangência muito maior dos motivos e termos um norte do que pode ser essa questão da motivação. Poderia chutar e dizer que é só a criminalidade, mas incorreria em um erro.

IC_Em termos de políticas públicas, o que vem sendo feito para diminuir a incidência dos crimes?

Machado_No momento, está em andamento o programa Pacto pela Vida, do Governo do Estado, que tem como objetivo reduzir em 12% por ano no número de crimes violentos letais. Criado em 2007, o programa conseguiu uma taxa de redução de 6,9% no primeiro ano. Agora no segundo ano, foi de apenas 2,6%, número que já inclui o crescimento da população no período. Ou seja, em números absolutos, temos que a redução é de cerca de 1%, o que pode perfeitamente estar na margem de erro. Desde a criação do programa, mais de dois bilhões de reais foram investidos na segurança pública tanto em equipamentos como em aumento de efetivos. Mas as estatísticas mostram que o gerenciamento de recursos e esforços não estão gerando os resultados esperados e que precisam ser revistos.

IC_Isso demonstra ainda que só investir em polícia não é a solução?

Machado_Só investir a polícia virou um jargão, do qual a própria Polícia já compactua. Ela quer compartilhar as responsabilidades. Eu também concordo que só investir em polícia não é solução, mas com certeza uma reformulação mais ampla das políticas pode implicar em uma redução muito significativa das estatísticas. Arrumar e rearrumar é uma obrigação de quem quer mudar. É muito importante contar com a mudança desses paradigmas de investimentos.

IC_Recife apresentava ainda altos índices de crimes por motivos torpes. Há aí uma questão cultural também?

Machado_A cultura do machismo, de não levar o desaforo para casa, é muito presente, mas não sei o quanto é determinante. Fora Alagoas e Pernambuco, os outros estados do Nordeste apresenta índices relativamente baixos o que mostra que tem alguma coisa a mais a ser determinada. Precisamos investir mais neste levantamento das causas.

Mais de 2 bilhões de reais foram destinados para diminuir os homicídios em Pernambuco. A meta de redução é de 12% ao ano. No primeiro ano, foram alcançados 6,9%. No último, houve retração de apenas 2,6%. Para Machado, a conta não fecha com o esperado e  rever as políticas é obrigação de quem quer mudar.

IC_Vocês deixaram o dogma jornalístico do não-envolvimento e se mobilizaram. Como foi isso?

Machado_Nós nos envolvemos porque vimos, que como repórteres, estávamos contribuindo de uma maneira negativa. Cobrindo Polícia, eu senti que estava fazendo a mesma coisa há 10 anos, contando a mesma história todo dia e o que mudava eram apenas os nomes, os personagens. Desse jeito, estávamos nos encaixando na engrenagem da violência. E não queríamos nos tornar mais um nesta construção. Resolvemos agir contribuir de forma positiva e o que sabemos e podemos fazer é comunicação. O PeBodyCount é um projeto de comunicação contra a violência. É a nossa contribuição como cidadão. É um trabalho voluntário. Temos apenas uma parceira, a Associação do Ministério Público de PE, que contribui com uma parte dos custos do site.

IC_E qual foi a reação?

Machado_Vemos que esse envolvimento foi muito bom e importante. A gente se sente fazendo realmente uma coisa diferente, pois queríamos que a sociedade debatesse o assunto. Pela primeira vez as pessoas tiveram de refletir, explicar aos seus filhos o que era aquilo. Claro que tivemos muitas críticas contra o contador, principalmente a de que afastaria os turistas. Mas, ao mesmo tempo, temos vários argumentos, que mostram a importância da iniciativa. A sociedade está muito presa a “casos”. É o caso Isabela, Eloá e segue nessa sucessão até o próximo. Aí vemos como nossa sociedade é violenta. Mas seguimos sem o contexto desses crimes. Para isso, é preciso estudar mais o fenômeno, saber onde a gente se encaixa nele e como podemos reagir.

Mar de lágrimas: manifestantes estendem lenços em Recife para marcar as 1.174 mortes registradas de janeiro ao dia 7 de maio deste ano. O por quê das mortes não se sabe. Menos de 10% dos crimes são investigados. Mas o perfil das vítimas é muito bem conhecido: são jovens, pobres, negros e moradores da periferia.

IC_Há outras iniciativas a se destacar?

Machado_Há iniciativas muito interessantes. Um desempregado deu um grande exemplo com a criação de uma biblioteca na palafita, em uma área super violenta da cidade. Ele foi comprando livros em sebos e as crianças iam para lá, passavam o dia lendo. O Ministério da Cultura achou tão interessante que resolveu replicar a iniciativa, tornando em uma política pública, em forma de kit, para o Brasil inteiro. E aí, na inauguração da primeira biblioteca em Recife, veio ministro da Cultura, representantes do Governo, da Prefeitura. A biblioteca foi instalada em uma garagem, nem tinha bebedouro banco para as crianças sentarem. Até um “favelado” fez, mas o governo não conseguiu fazer. Isso mostra que é possível fazer muito com pouco.

IC_Como vocês pretendem continuar atuando depois do desligamento do contador?

Machado_O PEbodycount não é só o contador. Nós fazemos e participamos de outras iniciativas e eventos como o “Marcas da Violência”. Pintamos uma marca de um corpo em 80 lugares de Recife onde pessoas morreram. Fizemos também uma parceria com a Igreja Católica onde mais de 100 nomes de pessoas assassinadas eram lidos antes das missas em várias igrejas. Participamos em parceria com o ONG Rio de Paz e fincamos cruzes em Boa Viagens e lenços quando atingimos a marca de mil homicídios somente neste ano. Tudo isso na tentativa de mobilizar as pessoas. Queremos causar essa indignação. Essa é a base do nosso trabalho. Quanto ao display, aguardamos novos parceiros interessados e estamos trabalhando para isso.

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O que Natal tem a ver com o Rio de Janeiro?

13 Novembro, 2008 · 1 Comentário

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“Relíquia do folclore nacional, jóia rara nacional…daquela que já foi a mais bela cidade que o mundo todo já consagrou, com suas praias tão lindas, tão cheias de graça e de amor…” – Amor à natureza – Paulinho da Viola

O escritor carioca Marcelo Moutinho não é geógrafo, mas ousou fazer uma cartografia da cidade do Rio de Janeiro. Não de suas ruas, mas dos cronistas delas. Descobriu que há vários “Rios”, uma cidade com várias cidades dentro. Constatou que a Cidade Maravilhosa idílica dos cartões-postais não existe. Mas também não é só aquele Rio pintado de sangue em que o noticiário tanto insiste. Mapeou a literatura. Encontrou uma cidade.

Uma cidade que já passou por muitas transformações. Uma delas se deu no início do século XX, quando o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande “revolução” na Capital do Brasil, derrubando mais de 2700 prédios para dar lugar a novas avenidas. Uma modernidade que custou caro aos cariocas. Mas que rendeu para os literatos. E por que os escritores são tão afeitos às cidades, por quê a utilizam tanto como matéria-prima? Porque as cidades têm “legibilidade”, afirma Moutinho. Afinal, é nelas que a vida escorre. E ele não acredita em literatura descolada da vida.

Mas em tempos de globalização, mundialização, integração de mercados em redes, seja lá o que diabos for, nem o Rio, de identidade tão mundial, é exceção à regra de perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de uma cidade “exilada”, não por causa da violência, mas por uma postura de negação dessa cor, uma busca por apagar qualquer marca da cidade, uma recusa prévia que soa como “uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da mundialização”. Alguma semelhança com Natal, Sras e Srs.?

Moutinho até aceita o “argumento”, mas não acha que a literatura deveria ser tão alterada assim. O escritor aponta ainda que não é uma questão do Rio, mas nacional. Ele denuncia o fechamento da literatura em si mesma na qual muitos autores “limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’ – que não faltam-, e não a vida”. A quem a literatura deve um vínculo permanente. Mas há de se deixar as coisas claras. Moutinho aqui não exige regras para a arte da escrita. Não que todo autor deva ter um compromisso prévio com a sua aldeia, mas concorda em uma coisa com Tolstói: os sentimentos são universais.

Nascido no bairro da Madureira, subúrbio carioca, o também jornalista Marcelo Moutinho é um típico local. Da Cidade Maravilhosa. Com seus 36 anos, dois livros de contos e prosa e organizador de duas antologias publicadas, ele circula de norte a sul. Mora entre Copa e Leblon, quase perto da Lagoa Rodrigo de Freitas. Trabalha no Centro. Sofre pelo seu Fluminense, em beiradas de zona de rebaixamento, mas não deixa de ir ao Maracanã vê-lo jogar. Bate bola com os amigos todas as semanas. Não perde as rodas de samba. Desfila no Carnaval. Tem até escola de samba do coração. E não deixa de encontrar ao amigos para tomar um chopp e apreciar a famosa comida dos botequins . Como todo carioca, fala, debate, xinga, sorri.  E como gosta de sorrir!

Mas, respondendo a pergunta-título deste “post”, em tempos de transições de governos e de alardeadas parcerias entre eles, o que o Rio de Janeiro parece ter a ver com Natal? O que a Cidade Maravilhosa tem a nos dizer, não só aos gestores, mas também aos literatos? Ousaria adiantar que, para todo bom entendedor, pode ter muita coisa.  Neste momento em que prédios pipocam, pontes surgem e turistas tomam Natal, a Cidade do Sol começa a ter ares e mazelas tão modernas quanto o Rio de Janeiro.

IC_Você organizou uma coletânea sobre contos de bairros do Rio. Como foi o processo? O que você descobriu durante o trabalho?

Marcelo Moutinho_A antologia Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio foi organizada por mim e pelo Flávio Izhaki em 2004. A idéia foi fazer um duplo mapeamento. Primeiro, reunir jovens autores que vinham despontando na cena literária, sejam nomes já inseridos no mercado editorial, sejam talentos até então restritos ao universo da internet e seus blogs. Ao mesmo tempo, buscar a relação autor-cidade a partir da intimidade de cada um com o bairro em que morava. O que acabamos descobrindo, ao fim do trabalho, é que Marques Rebello tinha toda razão quando dizia que o Rio de Janeiro é “uma cidade com várias cidades dentro”.

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Prosas Cariocas: o livro buscou uma relação autor-cidade. Muitos invocaram a histórica figura do "Flanêur".

IC_O que as cidades têm a ver com a literatura? Por que as cidades rendem (ou deveriam render) tanto para os escritores?

Moutinho_Porque as cidades têm “legibilidade”. Isso já era demonstrado por Baudelaire em seu clássico Flores do mal, de 1857. Nos poemas do livro, a circulação das pessoas pelas ruas surge como uma imagem flutuante e a cidade, como um organismo vivo, ágil, mutante. Não se trata exatamente de uma reprodução do visível, mas da tentativa de captar o espírito das ruas através do texto. Acho que as cidades “rendem” para os escritores porque é nelas que a vida escorre. E não acredito em literatura descolada da vida.

IC_O Rio já passou por grandes transformações, uma delas realizada pelo prefeito Pereira Passos. Como ela se deu e o que significou para a cidade?

Moutinho_No começo do século 20, o Rio viveu um período de intensas mudanças, cuja face mais emblemática foi a reforma empreendida pelo prefeito Pereira Passos. Sob o pretexto de conectar a cidade com a era moderna e deixar para trás qualquer vestígio dos traços coloniais, ele comandou uma ampla reformulação urbana, que incluiu a abertura de ruas e avenidas e a derrubada de cerca de 2700 prédios. A reforma significou numa abrupta ruptura, tanto quanto ao uso do espaço público, quanto aos hábitos dos cariocas. Aqueles que foram expulsos do Centro – notadamente a população pobre – foram obrigados a reconstruir suas vidas nos morros e subúrbios. Em contrapartida, os setores da elite passaram a freqüentar o Centro, cujo perfil afrancesado parecia trazer para o Rio um pouco do charme das capitais européias.

IC_Como isso foi parar na literatura? Qual foi a influência sobre os autores?

Moutinho_Esse momento histórico foi fortemente registrado pela literatura, tanto sob viés crítico, quanto sob confetes. Em crônica datada de 1906, por exemplo, Olavo Bilac classificava a festa da Penha com uma “manifestação da barbárie”, “só compreensível no velho Rio de Janeiro de ruas tortas, de betesgas escuras, de becos sórdidos”. Outros cronistas, como Marques Rebello e João do Rio, buscaram, em seus textos, registrar aquele Rio de Janeiro que começava a sumir, para dar lugar a uma ‘nova cidade’. Rebello dedica-se a escrever sobre os diferentes bairros, destacando o caráter próprio de cada um. João do Rio investiga o crescente embate entre o cosmopolita e o local na capital que se moderniza e, ciente da existência cada vez mais vertiginosa da cidade, tenta preservar, ao menos no domínio da palavra, aquilo que está sempre a ponto de desaparecer. Uma tentativa de preservação através da palavra.

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Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki fizeram uma nova cartografia do Rio de Janeiro. Mapearam a literatura. Encontraram uma cidade. Junto com 17 jovens autores, chegaram à conclusão de que a Cidade Maravilhosa dos cartões-postais não existe.

IC_Em uma de suas conferências, você fala de um Rio “exilado”, de uma cidade “qualquer” vista pelos autores atuais. De uma cor local cada vez mais globalizada. Até mesmo um Rio de Janeiro está se perdendo em meio a isso? Os cariocas também sofrem com problemas de identidade?

Moutinho_Os cariocas estão inseridos num mundo cada vez mais global e menos local. Não somos exceção. Mas a questão principal aí me parece ser uma postura de negação a priori da cor local. A busca por apagar qualquer marca da cidade. Não que deva haver a premissa de se incluir a paisagem e a topografia urbana no texto. Mas a recusa prévia me soa como uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da ‘mundialização’. Outro ponto, este talvez periférico, é o fechamento cada vez maior da literatura brasileira em si mesma. Distantes da existência cotidiana, encerrados em suas próprias leituras e teorias, muitos autores limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’, e não vida, instância naturalmente originária de todas as histórias humanas e com a qual a literatura deve ter um vínculo permanente.

IC_A máxima de Tolstoi – “Quer ser universal, fale de sua aldeia” -, é verdadeira, é preciso segui-la? Os escritores devem ter compromisso com a “sua aldeia”?

Moutinho_Em literatura, não é preciso seguir nenhuma máxima, exceto a fidelidade a si mesmo. O compromisso, acho eu, deve ser com a sinceridade daquilo que você escreve. E aí não se deve encarar ’sinceridade’ como antônimo de ‘invenção’. Quando falo em sinceridade, refiro-me àquilo que anima a escrita do autor, ao que lhe move. Mas concordo com Tolstói com relação a uma coisa: acredito que os sentimentos têm certa universalidade.

IC_Nem sempre o Rio foi o Rio do Samba, da Bossa Nova e da Cidade Maravilhosa. Qual o papel dos escritores (ou artistas, como queira) na criação dessas identidades ou identificações do Rio?

Moutinho_Com certeza, os escritores, assim como os artistas de qualquer área, ajudam a construir o imaginário de uma cidade. Mas no caso específico do Rio de Janeiro, acho que o cinema (com Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e mesmo com o clicherizado Orfeu, de Marcel Camus, por exemplo) e, sobretudo, a música ajudaram muito mais nesse processo.

As narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores têm como tema favela e violência. Dá ipobe. Mas Moutinho faz uma correção. Há mais vida e autores além disso. “O problema é que não são a imagem mais clichê da cidade. E sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê”. Para ele, aos seus pares, falta sinceridade com o que se escreve. Este, sim, deveria ser o único compromisso.

IC_As narrativas atuais sobre o Rio têm como tema a violência, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Esse é a grande “cor local” hoje da Cidade Maravilhosa? Por que são tão atraentes? O Rio já esgotou suas temáticas?

Moutinho_Reformulemos: as narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores e espectadores têm como tema a violência. Faço o reparo porque há aqui vários autores trabalhando com outros registros. Escritores como a Adriana Lisboa, o próprio Flávio Izhaki, a Lúcia Bettencourt são exemplos. A questão é que esses trabalhos não são a imagem mais clichê da cidade, e sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê.

IC_Ainda há lugar para o “flanêur” nas cidades? Como trazer “valor literário” para as cidades?

Moutinho_Claro que há. Mas a flaneurie pressupõe a circulação pelas ruas, mesmo sob a sombra da violência.

IC_Você acha que faltam narrativas “melhores” das cidades?

Moutinho_Não. Há várias – e ótimas.

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E agora, José? - No global, até o Rio parece perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de cidade “exilada” a partir da busca por apagar qualquer marca da cidade.

IC_Como os autores podem evitar o folclórico, “que atrai a classe média pelo verniz que oferece a seus sentimentos de culpa”? Isso também não faz parte da cidade?

Moutinho_Faz, claro. Quando faço uma crítica neste sentido, na verdade refiro-me àquela falta de sinceridade comentada numa resposta anterior. Isso ocorre quando um autor pauta sua literatura pelos temas e pelos registros em voga em determinado momento, olhando apenas para a receptividade. Falar em favela e violência hoje dá ibope.

IC_E como você usa a cidade na sua produção?

Moutinho_A minha produção é intrinsecamente ligada à cidade, o que de certa forma reflete a minha vida. Circulo muito, pela Zona Sul a pela Zona Norte. Vou às rodas de samba, desfilo todo ano no Império Serrano, adoro futebol: jogo duas vezes por semana e vou sempre que posso ao Maracanã torcer pelo meu Fluminense. Gosto de estar com as pessoas, com as diferentes pessoas. Quem olha de fora talvez não faça idéia de que há um Rio de Janeiro que resiste, firme, às flechas da criminalidade, da má administração, da perda de prestígio econômico. Os cariocas continuam tocando o barco, algumas vezes com tristeza, outras com alegria, sempre com esperança. E o que tento fazer é retratar essas dores e essa delícia.

IC_E atualmente, o que você vem preparando?

Moutinho_Estou trabalhando no projeto de um antologia sobre a Língua Portuguesa com autores de vários países e no meu próximo livro de contos, que pretendo entregar à editora no ano que vem.

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