Internetcidade: cidades e pessoas ligadas, em rede, com o mundo

Internetcidade no programa Roda Viva nesta quarta

7 Julho, 2009 · Deixe um comentário

Foto Edu Girão - Flip 2009

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também enviará imagens. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também acompanhará a gravação. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

Abraços, Paulo Celestino.

P.s: O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

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O vapor barato das chemtrails

24 Junho, 2009 · Deixe um comentário

Os aviões, ao redor do mundo, deixam rastros a grandes altitudes. No jargão aeronáutico, são chamados de Contrails (condesation trails), uma mistura de vapor de água condensado e gases quentes expelidos das turbinas como, claro, o indesejável gás carbônico (CO2). Mas há quem desconfie que há muito mais do que isso nos céus. São as tais das Chemtrails.

Vistos até do espaço e de satélites, a suspeita acerca dos chemtrails é de que químicos estão sendo adicionados aos jatos, em uma estratégia mundial, sabe-se lá para quê. A desconfiança surge quando as Contrails se apresentam mais densas e se “solidificam” no ar, quase feito nuvens. Como boa parte da composição dos rastros é de gases e vapor d’água, o normal seria que elas se desfizessem e se espalhassem. O que não acontece com as tais Chemtrails, que teriam densidade, cor e aspecto diferentes dos rastros normais.

Em um dos mais mirabolantes roteiros de teoria da conspiração, a rede ativista levanta que seja alguma ação “d’os Caras” contra o aquecimento global. Há ainda notícias de que, na análise dos gases (como se fosse fácil assim estudá-los), foram encontrados metais pesados como Alumínio e Bário. Tudo isso dentro de um complô para “enfraquecer e controlar as mentes humanas”.

De tanto alarde, pesquisadores baseados nos estudos dos gases expelidos pelos vulcões até reverteram a ideia e dizem que a loucura tem fundamento e os aerosóis poderiam, ser sim, uma alternativa contra o aquecimento global. Dos EUA (sim, eles fazem dessas coisas), há vários movimentos para que a coisa seja investigada a fundo. Em verdade, as autoridades dizem que tudo não passa de vapor barato. Ou seja, boato, hoax, puro mesmo. Paranóia química ou não, no mínimo, é poluição (a aviação é responsável por 5% do aquecimento global).

Teorias da conspiração à parte, tudo isso é para falar que o cantor Beck se inspirou nas tais condensações e compôs a bela Chemtrails, do disco Modern Guilty (2008). Mais do que falar sobre as tais trilhas misteriosas, “The Cool Guy” do rock eletrônico alternativo parece até ter feito uma homenagem prévia às vítimas do AF 447 ao misturar mar, gente indo e vindo, noite, jatos e as tais chemtrails. Como a Internetcidade gosta muito de aviação, tira os pés do chão da cidade, vai aos altos dos céus e ao fundo do mar ao mesmo tempo ao som de Beck. A quase um mês do acidente, essa também é nossa homenagem às vítimas do voo da Air France.

Down by the sea - Beck canta as trilhas nos céus. Mas será que o 'Cool Guy' antecipador de tendências previu um dos maiores acidentes aéreos de todos os tempos?

Down by the sea, how many People: Beck canta trilhas nos céus. Mas será que o 'Cool Guy' antecipador de tendências previu um dos maiores acidentes aéreos de todos os tempos?

Chemtrails

(Beck – Modern Guilty)

I can’t believe what we’ve seen outside
You and me watching the jets go by
Oh, ooh, oh
Oh, ooh, oh

Down by the sea
So many people
They’ve already drowned

You and me watching a sea full of people
Try not to drown
So many people
So many people
Where do they go?
You and me watching a sky full of chemtrails
That’s where we belong

All I can take from these scars is hope
But all I can see in this night are boats sinking
Oh, ooh, oh
Oh, ooh, oh

Down by the sea swallowed by evil
We’ve already drowned
You and me watching a sea full of people
They’ve already drowned

So many people
So many people
Where do they go?
You and me hit by a touch of white evil

Watching the jet planes go by
You and me watching
You and me watching
The chemtrails is where we belong
That’s where we’ll be when we die in the slipstream
We’ll climb in a hole in the sky

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Somos cegos ao óbvio

24 Junho, 2009 · Deixe um comentário

IC_ternura_2

por Roberta da Purificação

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Restrepo conclama à Ternura

Restrepo e sua ternura: contra o autoritarismo, a co-gestão nas relações

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As consequências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

Roberta da Purificação é jornalista e também está na blogosfera em http://clarapalida.blogspot.com/. A querida amiga deixou um comentário no post do “Amor é importante, Porra!”  falando do livro “O Direito à Ternura”.  Pedimos para que ela fizesse uma resenha sobre o livro, que nos foi prontamente atendido. E aí está!

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo <http://luiscarlosrestrepo.com/php/index.php>, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As conseqüências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

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Internetcidade na Revista da Folha

11 Junho, 2009 · 1 Comentário

reprodução

É com orgulho que a gente bate o bumbo e repercute que o blog Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) foi citado na matéria de capa “Pintou o amor” da Revista da Folha assinada por Leticia de Castro no último domingo (07/06).

Tendo como pauta o amor e as formas de registro dele entre os apaixonados aproveitando a efeméride do Dia do Namorados, o post “O Amor é importante, porra!”, sobre a pixação, que como um viral invade a cidade de São Paulo, ganhou citação na matéria de seis páginas. Abre aspas da Revista da Folha, a partir do texto blogado:

“Em meio a essa busca insana de tudo o que é sólido e se desmancha no ar, o que é importante? Meu amigo, o amor é importante. Com numa música do Roberto, todos estão surdos. Daí o grito!

O texto sai entre comentários dos escritores Xico Sá, Clara Averbuck e outros colegas blogosfera que andam a repercutir a pixação.

Vale ainda dizer que o post com bela foto do amigo Fábio Candeias gerou o maior número de repercussões e de acessos desde a criação do blog. Não viu ainda? Pulem de uma perna só lá em http://internetcidade.wordpress.com/2009/03/27/o-amor-e-importante-porra/

Vários sites e blogs também estão “pingando” o post e a foto, entre eles o Pictura Pixel, do fotógrafo Cláudio Versiani, o do colega Rodolfo Viana, o Balaio Vermelho do grande Moacy Cirne e outros como o da fotógrafa Carla Zavatieri. Sem falar na Twittesfera! Como apontou o próprio Versiani, essa rede é sensacional!

Ah, só pra não esquecer, prestes ao Dia dos Namorados, minha homenagem aos casais mundo afora e ao próprio amor, em forma de um grito viral que se espalha em muros, bits e ondas pelo mundo:

“O amor é importante. Porra”

Abraços (amorosos) do Paulo Celestino

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Uma conta que nunca fecha

22 Maio, 2009 · 2 Comentários

foto: PEbodycount

Todo dia ele se sentia escrevendo a mesma reportagem. Repórter de polícia em Recife há 10 anos, o jornalista Eduardo Machado percebeu que só mudavam os nomes das vítimas e dos personagens. As ocorrências de homicídios eram tantas que já nem vinham sendo mais noticiadas. Preocupado, resolveu deixar de lado o dogma jornalístico do não envolvimento e, junto com mais outros três colegas do Jornal do Commercio, criou o projeto PEbodycount que, por meio de um site (www.pebodycount.com.br), acompanha e registra os índices de homicídios no Estado, além de realizar e participar de outras iniciativas.

Entre elas, o PEbodycount utilizava um contador de vítimas instalado entre as ruas Guilherme Pinto e Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, em Recife. Uma faculdade local patrocinava o display e, com o cancelamento da parceria, o contador teve de ser desligado no dia 1º de maio. Naquele dia, o mostrador eletrônico registrava exatamente 4.433 homicídios em um ano (e desde janeiro de 2009, já são mais de 1.500 mortos). Mas o projeto continua de várias formas, principalmente com o registro dos homicídios e a discussão das políticas e estratégias de segurança pública no Estado no blog. Desde outubro de 2007, quando o site foi aperfeiçoado, o banco de dados já acumula mais de 7 mil registros de crimes com mortes. Hoje, o trabalho voluntário dos jornalistas conta apenas com o apoio de uma empresa de informática e da Associação do Ministério Público de Pernambuco, que custeia parte dos custos do site.

Quando o projeto foi iniciado em maio de 2007, Pernambuco liderava as estatísticas de crimes violentos letais intencionais (homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte). Os números, até hoje, ainda surpreendem, mas na última pesquisa divulgada, o Estado deixou o posto de mais violento proporcionalmente, tendo Alagoas e Espírito Santo agora à frente, respectivamente. O Rio de Janeiro vem em quarto lugar. Machado avalia a dança das cadeiras da violência: “Não é que Pernambuco tenha diminuído seus índices, mas é que os outros estados conseguiram ser mais violentos”.

Mesmo “perdendo” o primeiro posto, a capital pernambucana que abriga um dos maiores carnavais de rua do país, foi destacada em matéria do dia 15 de maio do jornal britânico The Independent, que a definiu como a “Capital Brasileira do Assassinato”, denunciando ainda a existência de grupos de extermínios e justiceiros dentro da própria Polícia ocupados de matar os “indesejáveis”. É importante ainda colocar que Pernambuco continua a ser mais violento que o Iraque, até mesmo em números absolutos.

Sobre as causas de tamanho descontrole na segurança pública, o jornalista prefere não julgar sob risco de cometer os mesmos erros de quem já opina sem bases. Segundo ele, ainda faltam estudos e pesquisas no Estado que realmente mapeiem as causas da violência. Machado aponta que apenas 10% dos crimes são investigados e o restante cai na vala comum de que eram pessoas ligadas ao crime e ao tráfico. Porém, o perfil dos mortos é muito bem conhecido. “São pobres, pretos, em torno dos 18 anos, moradores da periferia. Mas o por quê estão sendo assassinadas não sabemos. E daí a dizer que são apenas criminosos, é puro estereótipo”, avalia.

Ainda segundo Machado, a iniciativa do contador, que tem como inspiração o Iraqibodycount e o Riobodycount, foi muito importante. O objetivo não era só contar cadáveres, mas sim, colocar o assunto na pauta da sociedade pernambucana e fazer com que a população refletisse sobre a extensão da violência. O impacto foi imediato inclusive fora do país, atraindo a atenção de meios nos Estados Unidos e Europa. O contador foi assunto em jornais como Miami Herald, Los Angeles Times, entre outros, e também na mídia brasileira. Equipes de documentaristas também do exterior estiveram em Recife.

Por outro lado, também não faltaram críticas, principalmente a de que o contador seria um desestímulo ao turismo no Estado. Machado até reconhece o argumento, mas também dispõe de vários outros que justificam a importância do PEBodyCount.  Ele lembra que foi sua responsabilidade contar os homicídios no primeiro fim de semana do funcionamento do contador, em maio de 2007. Foram 56 mortos. Na segunda-feira, ele assistia ao apresentador e editor William Bonner, do Jornal Nacional, destacar 18 mortos no conflito Israel-Palestina no fim de semana. “Aqueles 56 de Pernambuco não mereceram nem uma nota”, frisa.

Para o jornalista, fica evidente que há uma anestesia quanto à violência no país e a mídia tem ativa participação nisto. “Vivemos de casos. É o caso Eloá, o caso Isabela e seguimos nessa sucessão até o próximo. E é só neste momento que nos damos conta em que sociedade violenta nós vivemos. É necessário saber mais dessa violência, estudarmos mais o fenômeno para constatar onde cada um de nós se insere na produção destes índices e como podemos combatê-la”, afirma.

Além do site, Machado destaca que o Jornal do Commercio também se envolve diretamente na produção de matérias e cadernos especiais para a discussão da gestão e estratégias da segurança pública no Estado. Ele mesmo já acompanhou as iniciativas e projetos de redução da violência fora e dentro do país, como o Tolerância Zero em Nova York e o Segurança Cidadã de Bogotá ou, em São Paulo, que vinha apresentando redução dos índices desde 1999. Em seu currículo, ele acumula prêmios como o Esso, Embratel, Vlademir Herzog e Cristina Tavares (PE) com matérias sobre Direitos Humanos e Segurança Pública.

Fazem parte ainda do PeBodyCount, além de Eduardo Machado, os jornalistas João Valadares, Carlos Eduardo Santos, Rodrigo Carvalho. Eles também são agraciados ou finalistas em prêmios como o Vlademir Herzog de Direitos Humanos, Embratel, Tim Lopes e OAB de Direitos Humanos. O Internetcidade conversou com Eduardo Machado, por telefone. Neste meio tempo da conversa até a publicação, o contador do site já registrava quase 100 homicídios a mais.  E faltando menos de 10 dias para o mês acabar, o registro marca 223 homicídios em maio. Um deles, a morte do professor e turismólogo Igor Siqueira Duque, de 28 anos, em um assalto, provocou a atenção da sociedade recifense, tornando-se mais um caso.

Internetcidade_Como surgiu a iniciativa e qual era o objetivo do contador?

Eduardo Machado_Em maio de 2007, lançamos o site PEbodycount, que inclusive contou com a palestra com o ex-secretário de segurança de Bogotá (­Hugo Acero). Entre tantos crimes, queríamos que nenhum homicídio deixasse de registrado e que esse número estivesse à disposição da população. Mas no próprio evento de lançamento, algumas pessoas já questionaram que, se o projeto era voltado para as pessoas carentes, muitas não teriam acesso ao computador. Um ano depois conseguimos viabilizar o contador e o impacto foi imediato. Dezenas de jornais deram a notícia e equipes de documentaristas vieram de outros estados e de outros países para mostrar a situação.

foto: PEbodycount

O contador, agora desativado, e a dança das cadeiras da violência: eram 4.433 mortes em um ano no dia do desligamento. Não é que Pernambuco se tornou menos violento. Mas os outros estados conseguiram ser mais.

IC_Quais são os principais motivos dos crimes no Estado?

Machado_Essa é a questão chave neste problema. Ao contrário de outros lugares, aqui em Pernambuco ainda tem muito pouca gente envolvida no estudo e investigação da violência. Isso ainda está engatinhando. Os crimes geralmente são relacionados à criminalidade e ao tráfico de drogas. Mas hoje, nem 10% dos homicídios são investigados, de modo que não sabemos quais são os motivos reais dessas mortes. Mas o perfil é muito bem definido. É pobre, preto, morador da periferia, com idade em torno dos 18 anos.  Se encontrados com maconha, a generalização é de que era assaltante ou do tráfico. E já são motivos para não se investigar. Mas se alguém morre em regiões de classe alta e havia maconha, ninguém vai associar ao tráfico. Ou seja, é puro preconceito. É preciso investigar, para termos uma abrangência muito maior dos motivos e termos um norte do que pode ser essa questão da motivação. Poderia chutar e dizer que é só a criminalidade, mas incorreria em um erro.

IC_Em termos de políticas públicas, o que vem sendo feito para diminuir a incidência dos crimes?

Machado_No momento, está em andamento o programa Pacto pela Vida, do Governo do Estado, que tem como objetivo reduzir em 12% por ano no número de crimes violentos letais. Criado em 2007, o programa conseguiu uma taxa de redução de 6,9% no primeiro ano. Agora no segundo ano, foi de apenas 2,6%, número que já inclui o crescimento da população no período. Ou seja, em números absolutos, temos que a redução é de cerca de 1%, o que pode perfeitamente estar na margem de erro. Desde a criação do programa, mais de dois bilhões de reais foram investidos na segurança pública tanto em equipamentos como em aumento de efetivos. Mas as estatísticas mostram que o gerenciamento de recursos e esforços não estão gerando os resultados esperados e que precisam ser revistos.

IC_Isso demonstra ainda que só investir em polícia não é a solução?

Machado_Só investir a polícia virou um jargão, do qual a própria Polícia já compactua. Ela quer compartilhar as responsabilidades. Eu também concordo que só investir em polícia não é solução, mas com certeza uma reformulação mais ampla das políticas pode implicar em uma redução muito significativa das estatísticas. Arrumar e rearrumar é uma obrigação de quem quer mudar. É muito importante contar com a mudança desses paradigmas de investimentos.

IC_Recife apresentava ainda altos índices de crimes por motivos torpes. Há aí uma questão cultural também?

Machado_A cultura do machismo, de não levar o desaforo para casa, é muito presente, mas não sei o quanto é determinante. Fora Alagoas e Pernambuco, os outros estados do Nordeste apresenta índices relativamente baixos o que mostra que tem alguma coisa a mais a ser determinada. Precisamos investir mais neste levantamento das causas.

Mais de 2 bilhões de reais foram destinados para diminuir os homicídios em Pernambuco. A meta de redução é de 12% ao ano. No primeiro ano, foram alcançados 6,9%. No último, houve retração de apenas 2,6%. Para Machado, a conta não fecha com o esperado e  rever as políticas é obrigação de quem quer mudar.

IC_Vocês deixaram o dogma jornalístico do não-envolvimento e se mobilizaram. Como foi isso?

Machado_Nós nos envolvemos porque vimos, que como repórteres, estávamos contribuindo de uma maneira negativa. Cobrindo Polícia, eu senti que estava fazendo a mesma coisa há 10 anos, contando a mesma história todo dia e o que mudava eram apenas os nomes, os personagens. Desse jeito, estávamos nos encaixando na engrenagem da violência. E não queríamos nos tornar mais um nesta construção. Resolvemos agir contribuir de forma positiva e o que sabemos e podemos fazer é comunicação. O PeBodyCount é um projeto de comunicação contra a violência. É a nossa contribuição como cidadão. É um trabalho voluntário. Temos apenas uma parceira, a Associação do Ministério Público de PE, que contribui com uma parte dos custos do site.

IC_E qual foi a reação?

Machado_Vemos que esse envolvimento foi muito bom e importante. A gente se sente fazendo realmente uma coisa diferente, pois queríamos que a sociedade debatesse o assunto. Pela primeira vez as pessoas tiveram de refletir, explicar aos seus filhos o que era aquilo. Claro que tivemos muitas críticas contra o contador, principalmente a de que afastaria os turistas. Mas, ao mesmo tempo, temos vários argumentos, que mostram a importância da iniciativa. A sociedade está muito presa a “casos”. É o caso Isabela, Eloá e segue nessa sucessão até o próximo. Aí vemos como nossa sociedade é violenta. Mas seguimos sem o contexto desses crimes. Para isso, é preciso estudar mais o fenômeno, saber onde a gente se encaixa nele e como podemos reagir.

Mar de lágrimas: manifestantes estendem lenços em Recife para marcar as 1.174 mortes registradas de janeiro ao dia 7 de maio deste ano. O por quê das mortes não se sabe. Menos de 10% dos crimes são investigados. Mas o perfil das vítimas é muito bem conhecido: são jovens, pobres, negros e moradores da periferia.

IC_Há outras iniciativas a se destacar?

Machado_Há iniciativas muito interessantes. Um desempregado deu um grande exemplo com a criação de uma biblioteca na palafita, em uma área super violenta da cidade. Ele foi comprando livros em sebos e as crianças iam para lá, passavam o dia lendo. O Ministério da Cultura achou tão interessante que resolveu replicar a iniciativa, tornando em uma política pública, em forma de kit, para o Brasil inteiro. E aí, na inauguração da primeira biblioteca em Recife, veio ministro da Cultura, representantes do Governo, da Prefeitura. A biblioteca foi instalada em uma garagem, nem tinha bebedouro banco para as crianças sentarem. Até um “favelado” fez, mas o governo não conseguiu fazer. Isso mostra que é possível fazer muito com pouco.

IC_Como vocês pretendem continuar atuando depois do desligamento do contador?

Machado_O PEbodycount não é só o contador. Nós fazemos e participamos de outras iniciativas e eventos como o “Marcas da Violência”. Pintamos uma marca de um corpo em 80 lugares de Recife onde pessoas morreram. Fizemos também uma parceria com a Igreja Católica onde mais de 100 nomes de pessoas assassinadas eram lidos antes das missas em várias igrejas. Participamos em parceria com o ONG Rio de Paz e fincamos cruzes em Boa Viagens e lenços quando atingimos a marca de mil homicídios somente neste ano. Tudo isso na tentativa de mobilizar as pessoas. Queremos causar essa indignação. Essa é a base do nosso trabalho. Quanto ao display, aguardamos novos parceiros interessados e estamos trabalhando para isso.

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Fotografia potiguar mostra suas cores em São Paulo

30 Abril, 2009 · 1 Comentário

foto: Jean Lopes

Um apanhado da atual fotografia artística norte-riograndense. Essa é a proposta da mostra “Fotografia Contemporânea Potiguar – Imagens da Esquina do Brasil”  que levará nove fotógrafos e 77 imagens da produção de potiguares ou de profissionais radicados no estado em exposição pelas cidades de São Paulo, Brasília e Rio.

Os paulistas serão os primeiros a conferir as imagens da esquina do continente. A mostra estréia na Caixa Cultural neste dia 30 de abril em São Paulo. Segundo o fotógrafo e curador da mostra, Ricardo Junqueira, o Coletivo Potiguar se formou a partir da troca de “informações e figurinhas” entre os fotógrafos e ele viu que os interesses em relação à fotografia eram muito parecidos. A coisa evoluiu para um projeto que tem como objetivo funcionar  como  ferramenta estratégica de registro e inserção do Rio Grande do Norte no cenário nacional e internacional da fotografia.

foto: Erik van der Weidje

"Este não é o meu filho": van der Weidje e a dose de irreverência holandesa no Coletivo Potiguar

Ainda segundo Junqueira, não houve a preocupação de buscar uma linguagem comum entre os trabalhos. “A não ser pelo fato de todos serem pessoas que trabalham e vivem de fotografia e terem um olhar “diferente”, com uma preocupação que vai além do mero registro”, explica sobre a reunião dos fotógrafos e escolha das imagens.

A diversidade de visões, técnicas e formatos marcam a exposição, que vão do preto e branco à saturação de cores, das temáticas sociais de registro e de denúncia até o despretensioso “click” em família ou em jornadas de viagem, somadas com outras técnicas artísticas intervindo no resultado final das fotografias.

Idealizado por Ricardo Junqueira, o Coletivo Potiguar se destaca ainda pela diversidade “geográfica” dos fotógrafos. O próprio Junqueira é brasiliense, morando em Natal desde 1996, tendo trabalhado passagens por  São Paulo e Itália. Jean Lopes é potiguar da cidade de Assu. Nuno Rama é da Paraíba. De São Paulo, José Frota e Pablo Pinheiro. Erik van der Weidje, da Holanda. Max Pereira e Hugo Macedo são natalenses e Karen Montenegro, de Alagoas.

A exposição já pode ser vista também na Internet em www.coletivopotiguar.blogspot.com.  Em São Paulo, a exposição fica até o dia 14 de junho. Depois, segue para Brasília entre 30 de julho a 31 de agosto. A exposição termina no Rio de Janeiro, de 20 de outubro a 29 de novembro.

O fotográfo Ricardo Junqueira conversou, por email,com o Internetcidade e falou também sobre a expectativa da exposição e qual é a contribuição dos olhares da esquina do continente.

foto: Ricardo JunqueiraInternetcidade_Como podemos avaliar o atual momento da fotografia potiguar?

Junqueira_Acho que estamos nos descobrindo e percebendo que a qualidade independe da geografia.

IC_Ao seu ver, qual a grande contribuição dos olhares da esquina do continente?

Junqueira_Minha maior preocupação é mostrar que existe uma produção de qualidade e fazer o Rio Grande do Norte aparecer um pouco mais no cenário nacional. Afinal, nós temos paisagens maravilhosas, mas não é só isso. No paraíso turístico também tem profissionalismo.

IC_Na sua opinião, o que vem impulsionando a fotografia no Estado?

Junqueira_Os fotógrafos – e isso não se aplica somente aos Potiguares e aos que vivem no RN -, são quase sempre apaixonados pelo que fazem e certamente é o que impulsiona essa produção.

IC_A exposição passa ainda por Brasília e Rio. Qual a sua expectativa?

Junqueira_Esperamos o máximo de visitação, que [a exposição] possa crescer e contribuir para que mais pessoas conheçam o trabalho que nós fazemos. E outros possam se interessar por fotografia.

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O amor é importante, porra!

27 Março, 2009 · 26 Comentários

foto: Fábio Candeias

Muros da Consolação: quando convidei meu amigo e fotógrafo Fábio Candeias a fazer a foto da pixação, saímos com o objetivo de registrar a frase. Ele captou muito mais.

Quase como um viral, a frase se espalha pelos muros da cidade de São Paulo. Essa, especialmente, está pixada no cemitério da rua da Consolação, vista no sentido Centro-Rebouças. Há notícias também do mesmo “grito” em Pinheiros-Vila Madalena. Tem ainda um cartaz na rua Augusta. E deve estar circulando loucamente na “twittesfera”.

Logo pela manhã, na última quarta-feira, subindo para uma reunião (aquelas famosas…), o impacto foi grande e ressoou na cabeça ao longo do dia. Simples, mas direto, com um “punch” nocauteante. Acordei. Nestes tempos, um tanto sórdidos, quem têm falado do amor? Nos noticiários, nas manchetes, em toda essa confusão (que não é minha, não é nossa)…em meio a essa busca insana de mercados, de superávits, de poder, dos bônus (sem os ônus), em meio a todo o “meltdown”, de tudo o que é sólido e se desmancha no ar, o que é importante? “Meu amigo…o amor é importante…”. Sim, como numa música do Roberto, todos estão surdos. Daí, o grito, o furor!???

A pixação lembra uma outra, também marcante, talvez de uns 30 anos atrás. A célebre “Sem tesão não há solução” – eternizada pelo escritor e terapeuta Roberto Freire – foi pixada no mesmo muro do cemitério da Consolação. Dela, surgiu todo um conceito e um livro, que movimentou e ainda movimenta gerações. Juntando esse desespero anônimo em 2009, e aquela frase clássica da década de 1980, quem sabe também anônima mas registrada pelo Roberto, arrisco a dizer:

“Sem amor, não há tesão e nem solução, porra!”

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Em paz íntima com a cidade

18 Março, 2009 · 1 Comentário

Giovanni Sérgio

O escritor Nei Leandro de Castro, autor de “As Pelejas de Ojuara”, chegou naquele ponto que pode preferir. Prefere não falar de um Ojuara – “o homem que desafiou o diabo” – como um herói-arquetípico dos potiguares. É só um herói folhetinesco. Também prefere não falar de ser – pelo menos não tão diretamente – o romancista mais bem-sucedido do Rio Grande do Norte. Mas assume que se conta nos dedos, em toda a história literária do RN, os bons romancistas do estado. Já os poetas, topam-se com eles nas esquinas fazendo jus ao velho verso. Da geração dele, destaca Luís Carlos Guimarães. E, da geração atual, seis poetisas (sim, gênero feminino) com uma produção de nível nacional, avalia ele.

Nei Leandro não esconde a modéstia. Confessa que faz bem para o ego que sua obra, sobre a aldeia, transponha os muros dela. Porém, mais do que falar sobre essa aldeia, ela parece ser mais um ponto de passagem do que de partida. Aqui, o Internetcidade sai da sua “fleuma jornalística” exigida para dizer que, se há algo que Nei Leandro deixa de lição é sua ousadia. De arriscar quando a literatura precisa se fazer maior que ele. E deu certo!

Descrente com os fatos daquele momento, foi para o Rio de Janeiro no caminho de muitos migrantes no final da década de 1960. Não tem nem idéia como sobreviveu no início. Já bem sucedido com a publicidade, deixou o Rio de Janeiro, o trabalho e até o Pasquim do qual era colaborador e voltou para Natal para escrever seu primeiro romance “O Dia das Moscas”. E para dar vida ao seu mais famoso livro, “As Pelejas de Ojuara”, mais tarde transformado em filme, exilou-se no inverno nos Estados Unidos por quatro meses. Desse inverno solitário nasceu um sertão mítico e lendário e um andarilho-vaqueiro destemido, resgate de histórias ouvidas na infância na cidade quase mítica de Caicó.

Para Nei Leandro, a pesquisa não é interesse, mas necessidade de dar mais consistência a uma obra. Já a geografia a influencia diretamente. Os seus romances puxam para uma temática regional, com toques humanos e físicos dos potiguares na composição dos seus personagens e cenários. Isso está marcado nas próprias “Pelejas” ou em “Dunas Vermelhas”, romance inspirado em uma inimaginável mas real revolta comunista na capital na década de 1930. Já o Rio de Janeiro, sua urbanidade e violência provocam a verve poética e erótica. “É algo inexplicável”, afirma. Porém, morar na praia de nudismo de Tambaba na Paraíba, ah, isso sim, seria uma espécie de orgasmo criativo do qual jorrariam livros e mais livros de poesia sensual.

Mas desde 2005, o bom filho à casa tornou. De pazes feita com a cidade adotada (Nei nasceu em Caicó), ele diz não ter mais nada contra Natal. E que Natal também não tem nada contra ele. Mas posta um aviso aos navegantes: “Íntima, entre o rio e o mar…convém amá-la.” Isso é parte do presente de Nei Leandro ao Internetcidade e à cidade de Natal, como uma espécie de dica, parte de um mistério, para quem deseja conhecê-la, entendê-la…vivê-la. Se muitas vezes passa por cidade de vida fácil – e mais uma vez saindo da tal fleuma -, Nei Leandro deixa a entender que Natal é uma cidade ainda a ser possuída, a ser conquistada, de que falta o “Gesto” e a “Medida” certa para o encaixe da luva. De que, haveria muita Natal para pouco Natalense. É algo a se refletir. Afinal, dele saiu o maior romance produzido no estado e o alvissareiro Ojuara, cabra entendido nas artes da sedução e do amor de mulheres de cercanias que vão do Beco da Lama até a lendária e paradisíaca São Saurê.

IC_Por que você saiu de Natal? E por que voltou?

Nei Leandro_Saí de Natal, em 1968, por problemas pessoais, por descrença em relação a muita coisa, inclusive descrença pela poesia, depois do famigerado golpe militar. Num gesto de desespero, saí com a roupa do corpo, pouquíssimo dinheiro, e peguei um ônibus com destino ao Rio de Janeiro. Os primeiros meses foram terríveis, não sei como sobrevivi. Mas aos poucos as coisas foram se ajustando, veio o primeiro emprego, veio o segundo, até que entrei na publicidade. Paralelamente à publicidade, onde trabalhei como redator e diretor de criação em algumas das principais agências do Rio, colaborei com O Globo, o Jornal do Brasil e O Pasquim. E assim se passaram 37 anos. Voltei para Natal, em 2005, depois que me aposentei.

IC_Qual a influência das cidades sobre a sua obra?

Nei Leandro_Os meus romances são todos de tema nordestino, com certa presença da geografia física e humana de Natal. Os meus contos são todos ambientados no Rio de Janeiro:  urbanos, eróticos, com certa violência da cidade grande. Jamais senti a menor inspiração para escrever um romance ambientado no Rio. Jamais senti inspiração para escrever um conto com trama nordestina ou natalense. É esse tipo de influência que as cidades exercem sobre o meu trabalho de ficcionista. E que, sinceramente, não sei explicar.

IC_Como compreender Natal? Você acha que há algum problema com a cidade?

Nei Leandro_É preciso amar uma cidade para compreendê-la. Aceitar seus defeitos, suas limitações e, ao mesmo tempo, amar com intensidade as suas virtudes, as suas belezas. Natal não tem nenhum problema comigo e a recíproca é verdadeira.

O Dia das Moscas - Jovens Escribas

A primeira vez, de novo: republicar o seu primeiro romance pelo Jovens Escribas deixou Neil uns 40 anos mais moço.

IC_As “origens” dos potiguares parece ser o ponto de partida de “O Dia das Moscas”. Na verdade, muito pouco de nossa história é difundida. Temos alguns “heróis”, mas conhecemos muito pouco sobre eles. Há algum problema com essa história potiguar?

NLC_ Não pretendi escrever a história dos potiguares no meu romance “O Dia das Moscas”. A nossa história é muito pouco conhecida, pouco divulgada, e o nosso herói mais conhecido é o índio Poti, batizado de Felipe Camarão. Mas temos uma miscigenação muito acentuada de europeus e índios, e isso eu quis mostrar no começo do romance. Tudo de forma mais cômica do que histórica.

IC_Há aquele mote de que em Natal havia “em cada esquina um poeta, em cada beco um jornal”.  A própria geração que você se insere parece ter sido muito mais alvissareira. Hoje, porém, fala-se de uma desconexão, uma estagnação cultural. Estamos sendo exigentes? É só uma impressão?

Nei Leandro_Natal continua produzindo muitos poetas. Atualmente, há vários poetas jovens, inclusive seis poetisas do mais alto nível, nível nacional.  A poesia sempre foi muito bem representada no RN. A minha geração deu grandes poetas, como Luís Carlos Guimarães, para citar um só exemplo. Pena que não seja conhecido nacionalmente. O que se pode sentir entre nós é a falta é de romancistas. Em toda a história literária do estado, contam-se nos dedos de uma mão os romancistas verdadeiramente bons.

IC_A impressão é de que a História e a pesquisa são elementos importantes em seu fazer literário. Tem idéia de onde surge esse interesse?

Divulgação

Ojuara, na pele cinematográfica de Marcos Palmeira: longe de ser um herói potiguar, é mais um herói folhetinesco, lúcido e valente.

Nei Leandro_Não gosto de fazer pesquisa, não tenho muito paciência. Mas tive que pesquisar bastante para escrever “Dunas Vermelhas”, ambientado em novembro de 1935, quando ocorreu na cidade um levante comunista, o primeiro da América do Sul. Gostei mais de pesquisar os romances de cordel, os heróis folhetinescos, que deram muito vigor e humor às aventuras de Ojuara pelo sertão nordestino.  Pesquisa não é interesse, é necessidade de dar mais consistência a uma obra.

IC_Alguém já disse: “Quer ser universal, fale de sua aldeia”. Causou surpresa para você uma temática tão regional como “As Pelejas” causar tanto interesse ao ponto de se tornar filme?

Nei Leandro_Eu me sinto muito à vontade escrevendo sobre temas nordestinos, natalenses, caicoenses. Na minha infância, ouvi grandes contadores de histórias, mentirosos fabulosos, e o registro ficou em mim para sempre. Quando escrevi Ojuara, tudo veio à tona, bem mais do que no romance de estréia, “O Dias das Moscas”. Falo da minha aldeia, sim, e se o que falo transpõe barreiras, isso é agradável, faz bem ao ego.  Mas jamais tive a pretensão de ter o meu romance levado à tela.

IC_Podemos dizer que “As Pelejas de Ojuara” é uma típica jornada do herói? Ojuara é um herói potiguar?

Nei Leandro_Ojuara, depois de ter saído da camisa-de-força de Araújo, faz um périplo pelo sertão potiguar, à maneira de Dom Quixote. Mas ele não é nada quixotesco. É lúcido, valente, sedutor, não briga contra moinhos de ventos, e sim contra grandes valentões. É mais um herói folhetinesco do que um herói potiguar.

IC_Você largou o Rio de Janeiro, o trabalho e o Pasquim para escrever o seu primeiro romance, “O Dia das Moscas”. Para fazer “As Pelejas…”, exilou-se nos EUA. Escrever é algo “crítico” para você? Como atender aos “chamados” de escritor?

Nei Leandro_Quando o desejo de escrever um romance se tornou uma obsessão, larguei tudo no Rio e vim para Natal, onde eu achava que poderia escrever mais à vontade. E deu certo. Para escrever “As Pelejas”, fiz a loucura de passar quatro meses no inverno de Chicago, isolado de tudo. E deu certo. O romance me exige muito, meus personagens se rebelam contra mim, querem mandar e desmandar. Eu preciso estar sozinho para administrar essa doce loucura.
Giovanni Sérgio

Ao escrever, Nei Leandro lida com uma doce loucura. O romance exige muito dele. Seus personagens se rebelam, querem mandar e desmandar. Para aquietar a obsessão romanesca, precisa estar à vontade, sozinho. Mas quando a literatura precisou se fazer maior do que ele,  a ousadia sempre foi recompensada. Nei Leandro de Castro deu certo.

IC_Ter escrito “Universo e vocabulário do Grande Sertão” foi fruto de ter vencido um preconceito da época: Guimarães Rosa. Na sua opinião, você vê algum preconceito hoje, principalmente da nova geração, e que precisa ser superado?

Nei Leandro_No início dos anos 60, alguns medalhões eram contra a obra de Guimarães Rosa. Adonias Filho, Ferreira Gullar, Érico Veríssimo, entre outros, falavam mal do romancista mineiro. Quando li “Sagarana”, “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”, aos vinte e poucos anos de idade, cheguei à seguinte conclusão: só se rejeita a obra de GR por espanto ou inveja. Sob o êxtase que “Grande Sertão:Veredas” me proporcionou, escrevi o meu “Universo e Vocabulário”, que me exigiu cinco anos de pesquisa. Hoje, a obra de Guimarães Rosa é estudada em todas as Faculdades de Letras do país e acredito que já não qualquer sombra de preconceito, em leitores de qualquer idade. Esse meu livro sobre o universo vocabular do “Grande Sertão:Veredas”, é um dos primeiros livros sobre a linguagem do autor de Cordisburgo. Foi premiado pelo Instituto Nacional do Livro e  teve apenas duas edições. Gostaria muito que surgisse uma boa editora para publicar uma nova edição.

IC_Como autor de poesias eróticas, pegando este gancho, você diria que Natal é uma cidade “sensual”, “erótica” ou passa muito longe disto?

Nei Leandro_Sensual, erótica, é a praia de Tambaba, na Paraíba, uma das únicas do país onde se pratica o nudismo. Lá a gente pode ver mulheres lindas, nuinhas em flor, à beira do mar. Se eu frequentasse Tambaba, com certeza iria escrever muitos volumes de poemas eróticos.

IC_O que representou relançar “O Dia das Moscas” por um selo de jovens escritores? Como tem visto essa nova geração e sua literatura?

Nei Leandro_Gostei de relançar “O Dia das Moscas” com o selo da editora Jovens Escribas. Gosto do editor Carlos Fialho, muito talentoso e ousado em seus projetos. Torço muito pelo sucesso dele e dos seus sócios de empreitadas literárias. Além do que, ter um livro publicado pela Jovens Escribas me remoçou uns 40 anos…

IC_Por fim, como publicitário, ousaria dar algum “briefing” sobre a identidade de Natal?

Nei Leandro_Uma cidade não se abre fácil, como um guarda-chuva, a quem sequer não a tem. Uma cidade é como a luva: sem o gesto e a medida exatos de quem a calça, jamais servirá a alguém, por mais empenho que faça em possuí-la. Natal não foge à regra que a experiência assinala. Íntima, entre o rio e o mar, se estende. Convém amá-la.

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O que Natal tem a ver com o Rio de Janeiro?

13 Novembro, 2008 · 1 Comentário

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“Relíquia do folclore nacional, jóia rara nacional…daquela que já foi a mais bela cidade que o mundo todo já consagrou, com suas praias tão lindas, tão cheias de graça e de amor…” – Amor à natureza – Paulinho da Viola

O escritor carioca Marcelo Moutinho não é geógrafo, mas ousou fazer uma cartografia da cidade do Rio de Janeiro. Não de suas ruas, mas dos cronistas delas. Descobriu que há vários “Rios”, uma cidade com várias cidades dentro. Constatou que a Cidade Maravilhosa idílica dos cartões-postais não existe. Mas também não é só aquele Rio pintado de sangue em que o noticiário tanto insiste. Mapeou a literatura. Encontrou uma cidade.

Uma cidade que já passou por muitas transformações. Uma delas se deu no início do século XX, quando o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande “revolução” na Capital do Brasil, derrubando mais de 2700 prédios para dar lugar a novas avenidas. Uma modernidade que custou caro aos cariocas. Mas que rendeu para os literatos. E por que os escritores são tão afeitos às cidades, por quê a utilizam tanto como matéria-prima? Porque as cidades têm “legibilidade”, afirma Moutinho. Afinal, é nelas que a vida escorre. E ele não acredita em literatura descolada da vida.

Mas em tempos de globalização, mundialização, integração de mercados em redes, seja lá o que diabos for, nem o Rio, de identidade tão mundial, é exceção à regra de perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de uma cidade “exilada”, não por causa da violência, mas por uma postura de negação dessa cor, uma busca por apagar qualquer marca da cidade, uma recusa prévia que soa como “uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da mundialização”. Alguma semelhança com Natal, Sras e Srs.?

Moutinho até aceita o “argumento”, mas não acha que a literatura deveria ser tão alterada assim. O escritor aponta ainda que não é uma questão do Rio, mas nacional. Ele denuncia o fechamento da literatura em si mesma na qual muitos autores “limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’ – que não faltam-, e não a vida”. A quem a literatura deve um vínculo permanente. Mas há de se deixar as coisas claras. Moutinho aqui não exige regras para a arte da escrita. Não que todo autor deva ter um compromisso prévio com a sua aldeia, mas concorda em uma coisa com Tolstói: os sentimentos são universais.

Nascido no bairro da Madureira, subúrbio carioca, o também jornalista Marcelo Moutinho é um típico local. Da Cidade Maravilhosa. Com seus 36 anos, dois livros de contos e prosa e organizador de duas antologias publicadas, ele circula de norte a sul. Mora entre Copa e Leblon, quase perto da Lagoa Rodrigo de Freitas. Trabalha no Centro. Sofre pelo seu Fluminense, em beiradas de zona de rebaixamento, mas não deixa de ir ao Maracanã vê-lo jogar. Bate bola com os amigos todas as semanas. Não perde as rodas de samba. Desfila no Carnaval. Tem até escola de samba do coração. E não deixa de encontrar ao amigos para tomar um chopp e apreciar a famosa comida dos botequins . Como todo carioca, fala, debate, xinga, sorri.  E como gosta de sorrir!

Mas, respondendo a pergunta-título deste “post”, em tempos de transições de governos e de alardeadas parcerias entre eles, o que o Rio de Janeiro parece ter a ver com Natal? O que a Cidade Maravilhosa tem a nos dizer, não só aos gestores, mas também aos literatos? Ousaria adiantar que, para todo bom entendedor, pode ter muita coisa.  Neste momento em que prédios pipocam, pontes surgem e turistas tomam Natal, a Cidade do Sol começa a ter ares e mazelas tão modernas quanto o Rio de Janeiro.

IC_Você organizou uma coletânea sobre contos de bairros do Rio. Como foi o processo? O que você descobriu durante o trabalho?

Marcelo Moutinho_A antologia Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio foi organizada por mim e pelo Flávio Izhaki em 2004. A idéia foi fazer um duplo mapeamento. Primeiro, reunir jovens autores que vinham despontando na cena literária, sejam nomes já inseridos no mercado editorial, sejam talentos até então restritos ao universo da internet e seus blogs. Ao mesmo tempo, buscar a relação autor-cidade a partir da intimidade de cada um com o bairro em que morava. O que acabamos descobrindo, ao fim do trabalho, é que Marques Rebello tinha toda razão quando dizia que o Rio de Janeiro é “uma cidade com várias cidades dentro”.

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Prosas Cariocas: o livro buscou uma relação autor-cidade. Muitos invocaram a histórica figura do "Flanêur".

IC_O que as cidades têm a ver com a literatura? Por que as cidades rendem (ou deveriam render) tanto para os escritores?

Moutinho_Porque as cidades têm “legibilidade”. Isso já era demonstrado por Baudelaire em seu clássico Flores do mal, de 1857. Nos poemas do livro, a circulação das pessoas pelas ruas surge como uma imagem flutuante e a cidade, como um organismo vivo, ágil, mutante. Não se trata exatamente de uma reprodução do visível, mas da tentativa de captar o espírito das ruas através do texto. Acho que as cidades “rendem” para os escritores porque é nelas que a vida escorre. E não acredito em literatura descolada da vida.

IC_O Rio já passou por grandes transformações, uma delas realizada pelo prefeito Pereira Passos. Como ela se deu e o que significou para a cidade?

Moutinho_No começo do século 20, o Rio viveu um período de intensas mudanças, cuja face mais emblemática foi a reforma empreendida pelo prefeito Pereira Passos. Sob o pretexto de conectar a cidade com a era moderna e deixar para trás qualquer vestígio dos traços coloniais, ele comandou uma ampla reformulação urbana, que incluiu a abertura de ruas e avenidas e a derrubada de cerca de 2700 prédios. A reforma significou numa abrupta ruptura, tanto quanto ao uso do espaço público, quanto aos hábitos dos cariocas. Aqueles que foram expulsos do Centro – notadamente a população pobre – foram obrigados a reconstruir suas vidas nos morros e subúrbios. Em contrapartida, os setores da elite passaram a freqüentar o Centro, cujo perfil afrancesado parecia trazer para o Rio um pouco do charme das capitais européias.

IC_Como isso foi parar na literatura? Qual foi a influência sobre os autores?

Moutinho_Esse momento histórico foi fortemente registrado pela literatura, tanto sob viés crítico, quanto sob confetes. Em crônica datada de 1906, por exemplo, Olavo Bilac classificava a festa da Penha com uma “manifestação da barbárie”, “só compreensível no velho Rio de Janeiro de ruas tortas, de betesgas escuras, de becos sórdidos”. Outros cronistas, como Marques Rebello e João do Rio, buscaram, em seus textos, registrar aquele Rio de Janeiro que começava a sumir, para dar lugar a uma ‘nova cidade’. Rebello dedica-se a escrever sobre os diferentes bairros, destacando o caráter próprio de cada um. João do Rio investiga o crescente embate entre o cosmopolita e o local na capital que se moderniza e, ciente da existência cada vez mais vertiginosa da cidade, tenta preservar, ao menos no domínio da palavra, aquilo que está sempre a ponto de desaparecer. Uma tentativa de preservação através da palavra.

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Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki fizeram uma nova cartografia do Rio de Janeiro. Mapearam a literatura. Encontraram uma cidade. Junto com 17 jovens autores, chegaram à conclusão de que a Cidade Maravilhosa dos cartões-postais não existe.

IC_Em uma de suas conferências, você fala de um Rio “exilado”, de uma cidade “qualquer” vista pelos autores atuais. De uma cor local cada vez mais globalizada. Até mesmo um Rio de Janeiro está se perdendo em meio a isso? Os cariocas também sofrem com problemas de identidade?

Moutinho_Os cariocas estão inseridos num mundo cada vez mais global e menos local. Não somos exceção. Mas a questão principal aí me parece ser uma postura de negação a priori da cor local. A busca por apagar qualquer marca da cidade. Não que deva haver a premissa de se incluir a paisagem e a topografia urbana no texto. Mas a recusa prévia me soa como uma tentativa meio patética de embarcar o mais rápido possível no bonde da ‘mundialização’. Outro ponto, este talvez periférico, é o fechamento cada vez maior da literatura brasileira em si mesma. Distantes da existência cotidiana, encerrados em suas próprias leituras e teorias, muitos autores limitam sua criação a um mero jogo textual, cuja alma é a própria ‘narrativa’, e não vida, instância naturalmente originária de todas as histórias humanas e com a qual a literatura deve ter um vínculo permanente.

IC_A máxima de Tolstoi – “Quer ser universal, fale de sua aldeia” -, é verdadeira, é preciso segui-la? Os escritores devem ter compromisso com a “sua aldeia”?

Moutinho_Em literatura, não é preciso seguir nenhuma máxima, exceto a fidelidade a si mesmo. O compromisso, acho eu, deve ser com a sinceridade daquilo que você escreve. E aí não se deve encarar ’sinceridade’ como antônimo de ‘invenção’. Quando falo em sinceridade, refiro-me àquilo que anima a escrita do autor, ao que lhe move. Mas concordo com Tolstói com relação a uma coisa: acredito que os sentimentos têm certa universalidade.

IC_Nem sempre o Rio foi o Rio do Samba, da Bossa Nova e da Cidade Maravilhosa. Qual o papel dos escritores (ou artistas, como queira) na criação dessas identidades ou identificações do Rio?

Moutinho_Com certeza, os escritores, assim como os artistas de qualquer área, ajudam a construir o imaginário de uma cidade. Mas no caso específico do Rio de Janeiro, acho que o cinema (com Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e mesmo com o clicherizado Orfeu, de Marcel Camus, por exemplo) e, sobretudo, a música ajudaram muito mais nesse processo.

As narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores têm como tema favela e violência. Dá ipobe. Mas Moutinho faz uma correção. Há mais vida e autores além disso. “O problema é que não são a imagem mais clichê da cidade. E sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê”. Para ele, aos seus pares, falta sinceridade com o que se escreve. Este, sim, deveria ser o único compromisso.

IC_As narrativas atuais sobre o Rio têm como tema a violência, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Esse é a grande “cor local” hoje da Cidade Maravilhosa? Por que são tão atraentes? O Rio já esgotou suas temáticas?

Moutinho_Reformulemos: as narrativas atuais sobre o Rio que chegam a leitores e espectadores têm como tema a violência. Faço o reparo porque há aqui vários autores trabalhando com outros registros. Escritores como a Adriana Lisboa, o próprio Flávio Izhaki, a Lúcia Bettencourt são exemplos. A questão é que esses trabalhos não são a imagem mais clichê da cidade, e sempre é mais fácil lidar com imagens-clichê.

IC_Ainda há lugar para o “flanêur” nas cidades? Como trazer “valor literário” para as cidades?

Moutinho_Claro que há. Mas a flaneurie pressupõe a circulação pelas ruas, mesmo sob a sombra da violência.

IC_Você acha que faltam narrativas “melhores” das cidades?

Moutinho_Não. Há várias – e ótimas.

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E agora, José? - No global, até o Rio parece perder a cor local. Moutinho vê uma espécie de cidade “exilada” a partir da busca por apagar qualquer marca da cidade.

IC_Como os autores podem evitar o folclórico, “que atrai a classe média pelo verniz que oferece a seus sentimentos de culpa”? Isso também não faz parte da cidade?

Moutinho_Faz, claro. Quando faço uma crítica neste sentido, na verdade refiro-me àquela falta de sinceridade comentada numa resposta anterior. Isso ocorre quando um autor pauta sua literatura pelos temas e pelos registros em voga em determinado momento, olhando apenas para a receptividade. Falar em favela e violência hoje dá ibope.

IC_E como você usa a cidade na sua produção?

Moutinho_A minha produção é intrinsecamente ligada à cidade, o que de certa forma reflete a minha vida. Circulo muito, pela Zona Sul a pela Zona Norte. Vou às rodas de samba, desfilo todo ano no Império Serrano, adoro futebol: jogo duas vezes por semana e vou sempre que posso ao Maracanã torcer pelo meu Fluminense. Gosto de estar com as pessoas, com as diferentes pessoas. Quem olha de fora talvez não faça idéia de que há um Rio de Janeiro que resiste, firme, às flechas da criminalidade, da má administração, da perda de prestígio econômico. Os cariocas continuam tocando o barco, algumas vezes com tristeza, outras com alegria, sempre com esperança. E o que tento fazer é retratar essas dores e essa delícia.

IC_E atualmente, o que você vem preparando?

Moutinho_Estou trabalhando no projeto de um antologia sobre a Língua Portuguesa com autores de vários países e no meu próximo livro de contos, que pretendo entregar à editora no ano que vem.

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Rani e sua doce dissonância

10 Novembro, 2008 · Deixe um comentário

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Os últimos dias foram daqueles intensos para Rani de Moraes. A jovem compositora brigou com sua Cotovelada no Festival Universitário da Canção e ainda fará o primeiro show com um de seus parceiros, o cantor Letto, no Calígula Restaurante. Rani vem despontando com uma grata surpresa no cenário da música natalense. Com jogos de palavras e doces dissonâncias, compõe músicas ousadas, enérgicas, vigorosas, fortes de sentimentos. Entre elas, a própria “Cotovelada”  e “Caos”, finalista do MPBeco.

A poesia é o ponto de partida para esta cidadã de “interiores”. Sergipana de Aracaju, Rani deixou sua terra natal há quatro anos para cursar Arquitetura na UFRN. Uma escolha que ela não esperava que fosse trazer tantos outros frutos. Sorte nossa. Tem 24 anos. Dez deles vividos em Canindé de São Francisco, no Xingó, “uma região que cresceu pelas mãos de pessoas de todos os lugares do Brasil e até do mundo”. Talvez por isso descarte a necessidade de regionalismos que vez ou outra se busca em Natal. Para ela, não dá para fugir da globalização, da tecnologia, do ritmo de vida urbano da capital.

Mesmo assim, Rani diz encontrar sim uma identidade cultural em Natal, “tão universal quanto a Bossa Nova ou Jazz”. Não é o caso de ter surgido um novo estilo. Aquele tão aguardado. Mas de contar com um fabuloso universo de possibilidades musicais, que vão do Blues ao Xote. Para ela, dois elementos retratam muito bem a música potiguar e que são muito bem aproveitados na música dela: ritmo e emoção.

Rani acordou para a música faz pouco tempo. Não segue regras. Procura unir o inusitado ao popular. Gosta de marcar, de envolver. O violão é para ela um “meio e não um fim” para as suas poesias. Compõe para desabafar e exaltar sentimentos. “Talvez se a cotovelada fosse minha, os seus beijos é que seriam quentes”, de Cotovelada, soa como um deles. Apesar da distância de casa, não se sente só. Conta como muitos amigos, como o próprio Letto, Euzélio Cardoso, a poetisa Drika Duarte, Mariana Costa e Júnior Carmo.

Um pouco antes deste post, pediu para atualizar o número de canções. “Agora são 43″. Aproveitou a brisa de inspiração e a animação do momento e andou compondo muito estes dias. Outra cotovelada? Sem cotoveladas, por favor. Mas, aguardem. A garota diz não ver limites para a arte dela. As tais 43 canções, ela acha ainda pouco. “Conheço gente que tem 200″. Mas é um grande começo. Sem dúvida, uma nova face (e voz) da música “popular” potiguar.

IC_Qual é a reação dos “locais” ao ouvirem a tua música?

Rani_As pessoas reagem muito bem às minhas canções. Algumas me dizem sentir algo familiar nelas, dizem que parecem músicas de “gente conhecida”. Acho isso engraçado, mas de certa forma é bom notar que as pessoas não estranham minhas músicas. Em maio deste ano, participei do MPBeco, fui finalista com a Canção “Caos” e fiquei feliz com o reconhecimento das pessoas.

IC_O que você busca na sua composição?

Rani_Musicalmente, busco unir o inusitado ao popular. Procuro trabalhar com harmonias inusitadas, com acordes que parecem não se encaixar na música, mas que ao fim se encaixam. Gosto de melodias marcantes, que envolvem quem está ouvindo.

IC_E os jogos de palavras, de onde vêm?

Rani_Da poesia. Busco trabalhar bem minhas letras com jogos semânticos, fonéticos e outras brincadeiras lingüísticas. Sempre fui uma boa aluna de Língua Portuguesa, sempre gostei de aprender as figuras de linguagem. Ainda bem (risos). A língua portuguesa é um mundo que deve ser explorado. Entretanto, não me prendo totalmente a regras, deixo as letras fluírem. Por exemplo, eu tenho uma música de apenas duas frases.

IC_Há ainda uma forte carga sentimental…

Rani_Gosto de compor para desabafar. Sentimentalmente, procuro uma fuga, expulsar minhas angústias ou exaltar um sentimento. E procuro fazer com que as pessoas que me ouvem também sintam isso, como eu sinto. Ainda estou trilhando um caminho pra também passar o sentimento na minha interpretação. Certas vezes, é difícil se concentrar e passar emoção ao mesmo tempo.

Fabio Pinheiro

Rani, em Nalva: a maioria dos natalenses paga 40 para um artista de fora. Mas nem cinco para um local.

IC_Como começou a compor?

Rani_Sinceramente, não me lembro bem. Eu não tive influência de pais ou parentes. Morei no interior dos 4 aos 14 anos e nunca tive uma cultura de ouvir boa música. Mas sempre gostei de escrever e ler poesias. Acredito que por volta dos 14 anos devo ter feito minha primeira música, mas não sei o motivo. Nunca soube o que me fez e me faz compor até hoje. Acho que era uma necessidade, uma paixão que descobri. Só sei que compor e ver o resultado da minha criação me deixa muito feliz.

IC_Sem essa influência musical, como começou a tocar?

Rani_Nas festinhas em casas de amigos, ia pedindo a um e a outro pra me ensinar uma música. Assim fui praticando enquanto os outros se divertiam (risos). Comecei a tocar mais quando vim morar aqui em Natal. Com o tempo fui aprendendo a tocar sozinha. Isso é um problema hoje, porque não tenho muito conhecimento sobre teoria musical. Não me considero violonista e entendo o violão como um “meio” para mim, e não um “fim”.

IC_Você se considera com um certo dom?

Rani_Ouço as pessoas me dizerem que tenho talento. Não sei de onde vem. Não acredito em dom sem esforço. Talvez seja apenas paixão pela música mesmo. E todos sabem que é a paixão que faz o nosso sangue ferver. Assim vejo a música. Como disse o meu guitarrista, grande Philip: “A música tem que correr nas tuas veias, misturada com teu sangue”.

IC_Quais são as suas referências?

Rani_Eu sempre gostei de rock, mas de rock “pesado” mesmo, só o Iron Maden (risos). Hoje escuto muita música nacional e menos rock. Gosto muito dessa nova geração da MPB, Céu, Cibelle, Lenine, Roberta Sá, Kristal, Rosa de Pedra, Letto, “Elegia e Seus Afluentes” (sendo estes cinco últimos de Natal). Também outros nomes consagrados como Djavan, Marisa Monte, Tom Jobim, Zeca Baleiro. Ainda tem muita coisa de fora, como John Mayer, Joss Stone, Alanis Morissetti, Norah Jones, Lura, Ray Charles, Muse, R.E.M., Dire Straits, Pink Floyd. E outros.

IC_Como vê o cenário atual da música/cultura natalense?

Rani_Natal é uma cidade riquíssima no âmbito cultural e musical. Parte das minhas influências é do que ouço aqui. Onde há uma grande diversidade de ritmos e de estilos. Acredito até que existe muita gente que gosta de assistir aos artistas locais, mas a grande maioria ainda valoriza apenas o que vem de fora ou os ritmos que fazem sucesso na mídia. Por outro lado, mesmo essas pessoas que ouvem a música local, muitas vezes se recusam a pagar pra ver o artista. Ficam esperando uma oportunidade para vê-lo gratuitamente quando se sabe que essas mesmas pessoas chegam a pagar 40 reais pra ver um artista de fora e acham muito cara uma entrada de 5 reais pra ver uma boa apresentação local.

IC_E a mídia local?

Rani_A mídia tem um grande papel de mostrar a produção local e até existe uma programação em alguns meios de comunicação, mas deve haver também o interesse da população em ouvir. Tudo deve começar na procura por esses artistas partindo da população.

IC_E o apoio governamental?

Rani_São louváveis as leis de incentivo à cultura e os apoios dados aos eventos com artistas do estado, mas ainda há muito que se fazer de verdade. Aos contratantes, falta mais respeito, falta investir em equipamentos bons, para que o artista não tenha seu “som” e sua imagem prejudicados em apresentações. Ora, muitas pessoas que contratam e muitos “fãs” não têm noção de quanto um artista gasta com o seu trabalho, é um investimento altíssimo, de tempo, esforço e dinheiro. Há que se saber reconhecer tudo isso.

Depois de ter se encontrado na música, Rani não vê limites e não quer perdê-la nunca mais. Só acha que não se deve exigir um regionalismo forçado. Não dá para fugir à globalização, ao ritmo da capital.

Rani se descobriu na música e não vê limites para a sua arte, nem para os recantos onde pode chegar. Porém, não exija regionalismos forçados. Para ela, é impossível fugir da globalização, do ritmo de vida urbano, da capital. E do jogo de palavras.

IC_O que você acha dessa história de identidade cultural ou da falta dela em Natal?

Rani_Bem, vou tentar não ser redundante. Aqui em Natal há, sim, uma identidade cultural. No entanto, isso não restringe a música potiguar ao plano “regional”. A música potiguar é tão universal quanto a Bossa Nova ou o Jazz, ou quanto a música sergipana ou a francesa. Não vou dizer que aqui surgiu um novo estilo. Mas se formos unir tudo que se faz aqui, teremos um universo de possibilidades musicais, do Blues ao Xote. Isso é fabuloso. As pessoas têm que parar com isso de se exigir um regionalismo forçado. Nós moramos numa capital, não dá pra fugir da globalização, da tecnologia, do ritmo de vida urbano. Mas eu poderia dizer duas palavras que retratam bem a música potiguar e que acredito que também se encontram na minha música: ritmo e emoção.

IC_E daqui para a frente, quais seus planos musicais?

Rani_Eu não vejo limites na minha música. Creio que, como todo artista que realmente acredita no seu trabalho, quero sempre me superar. Quero estudar canto, violão, composição, aprender outro instrumento, entender mais do processo de criação musical, de gravação, edição. E a cada passo que eu der, quero poder dar mais um adiante. Tenho sonhos altos, mas sempre com os pés no chão. Acho que me encontrei na música. Não quero me perder nunca mais. Ultimamente, estou me concentrando em ensaiar e criar arranjos para as músicas. E só depois começar a marcar shows, com tudo bem programado. Não quero me apressar e fazer um trabalho ruim. Sou paciente em relação a isso.

IC_Você espera que seu belo sotaque seja ouvido em outras cercanias?

Rani_Eu não sou uma boa representante do sotaque potiguar. Sou sergipana, nasci em Aracaju e morei 10 anos em Canindé de São Francisco na região de Xingó. Uma região que cresceu pelas mãos de pessoas de todos os lugares do Brasil e até do mundo. Moro aqui há quatro anos, mas não adquiri todo esse belo sotaque. Mas quero sim, que meu sotaque misturado, seja ouvido em todos os lugares possíveis. Mas espero que as pessoas ouçam mesmo a minha música, a minha poesia… Não tenho medo de querer isso, nem de dizer que quero. O artista tem que ser acima de tudo um sonhador, um empreendedor e um lutador.

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