Internetcidade: cidades e pessoas ligadas, em rede, com o mundo

Notícias de um muro invisível

9 Novembro, 2009 · Deixe um comentário

Foto Ariane Mondo

Da “Pequena Paris”, como é conhecida a cidade de Leipzig, a jornalista e documentarista Ariane Mondo vem registrando as suas impressões, resgatando antigos fatos e mostrando a atualidade de uma cidade da ex-Alemanha Oriental (RDA). Mondo vive entre Berlim e Leipzig há mais de dois anos após ter casado com um alemão e, para aproveitar as comemorações dos 20 anos da queda do muro de Berlim, neste 9 de novembro, ela criou o blog THE WALL MEMORIES– tudo em maiúscula, assim como a imponência do que foi o muro um dia, avisa.

A documentarista avisa que Leipzig é uma cidade mediana para os padrões alemães. Com cerca de 510 mil habitantes, é a maior cidade do estado da Saxônia, cuja capital é Dresden. Na época da RDA, era a segunda maior cidade ficando atrás apenas de Berlim Oriental. A alcova de “Pequena Paris” é por ter hospedado muitos artistas em séculos passados. É a cidade natal do compositor Richard Wagner. Outro compositor, Johann Sebastian Bach, teve seus últimos dias por lá e está enterrado em uma igreja local.

O território ex-socialista provoca uma grande curiosidade. Mondo percebe uma certa nostalgia daquela Alemanha, traduzida nos bares Cult ou nas lojas “especializadas em RDA” que mantiveram a arquitetura e objetos do mundo socialista. Mas não é um desejo de retorno. Ao mesmo tempo, encontra uma Alemanha em reunificação de um muro agora invisível. Um processo intenso de reconstrução que deve durar por muitas gerações. “O que é muito bom”. Mas apesar de todos os “muros invisíveis”, ela constata, entre os alemães, uma vontade enorme de quebrá-los. Sobretudo, o das diferenças. “O que é ótimo”.

Ariane é uma cidadã do “Mondo”. Paulista de nascimento, foi pequena ainda para Belém do Pará, passou a adolescência em Natal, fez uma escala em São Paulo para seguir para Cuba onde fez Escola de Cinema. Agora respira os ares de uma Alemanha pós-unificação. E na condição de estrangeira, tem seus olhos bem abertos ao que acontece à sua volta. Apesar de todas essas andanças, ela confessa que o choque cultural é inevitável. Mas, isso, tem de ser usado a favor. O THE WALL é um pouco disto. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco mais sobre o blog e a sua experiência na Leipzig.

Como surgiu o blog?

A ideia já tinha surgido antes, mas por algum motivo se tornou concreta há em setembro de 2009, quando o blog foi criado. Como eu descrevi por lá, a minha motivação maior ao criar o “Memórias do Muro” foi uma vontade em compartilhar informações -não somente históricas-, mas também curiosidades do presente, tendo o foco na região da antiga RDA (Alemanha Oriental). Além do que, sendo eu uma documentarista e jornalista, sinto que é quase uma obrigação mostrar aspectos que são pouco conhecidos do público brasileiro, exatamente no aniversário de 20 anos da queda do muro de Berlim. Seria uma bobeira estar na “cara do gol” e recuar (risos). No entanto, gostaria de frisar que o blog não tem data de validade e não vai morrer depois deste 09 de novembro. Como é um trabalho independente, vai seguir vivo enquanto houver curiosidade das pessoas e coisas interessantes para contar.

Foto Ariane Mondo

Nostalgia apenas para ser lembrada: Leipizig foi a segunda maior cidade do lado socialista. Em transformação constante, Ariane mostra que as memórias são ativas, mas não há divisão em se querer voltar a antes de 1989. Aqui, a Igreja de São Nicolau, palco da Revolução Pacífica

Tenho tido um ótimo feedback das pessoas. Algumas se manifestaram deixando recados no blog, mandando os parabéns por e-mail mesmo ou “retuitando” links para usar um jargão da twitosfera. O ritmo de visitas é frequente, talvez pela aproximação da data comemorativa da queda do muro de Berlim no dia 9 de novembro. No dia 14 de outubro, o blog ultrapassou as mil visualizações, pouco depois de um mês de sua criação. Talvez isso não signifique muito para os blogueiros de longa data que devem receber mil visitas por dia. Mas para alguém que acaba de começar, isso é um grande estímulo. É sinal de que há interesse pelo tema.

O você tem encontrado em uma cidade da antiga Alemanha Oriental 20 anos depois?

Moro em Leibnitz há mais de dois anos e nesse tempo, já vi muitas coisas, observei mudanças e experimentei sensações as mais diversas. Uma das coisas que mais me chama a atenção é a mudança na paisagem urbana. Isso é muito comum nas antigas cidades socialistas. Bom, não vou dizer concretamente o que tenho encontrado, porque se não entrego os temas de futuros posts (risos).

E na própria Alemanha, qual é o zeitgest (espírito do tempo) sem muro?

Se observarmos do ponto de vista da História, 20 anos não é muito tempo. O muro caiu, as Alemanhas se reunificaram, mas de alguma forma, sinto que há uma divisão invisível entre os “países”. Ainda há um leste e um oeste alemão, um mais pobre e um mais rico. Um em reconstrução e um outro mais estável. É natural, então, que os alemães debatam a própria identidade para tentar assimilar as transformações pelas quais o país vem passando nas últimas décadas. Acho que esse é um processo contínuo que deve seguir por gerações.

Como é uma brasileira morar em uma cidade alemã e ainda mais ex-socialista?

Inevitavelmente há um choque cultural, independente de ser na área ex-socialista ou não. Brasileiros e alemães são dois povos muito diferentes, que pensam e enxergam o mundo de maneira distinta. Com o tempo, passei a usar essa fricção a favor, porque não dá pra ficar remando contra a maré. Se é pra morar em outro país e ficar só reclamando da nova realidade, então é melhor arrumar as malas e voltar para o Brasil.

Foto Arquivo Pessoal

Com um olhar atento, de estrangeira, Ariane Mondo registra fatos e resgata a história do que um dia foi um muro que dividiu o mundo em dois

Mas é claro que isso não significa que eu não sinta saudades ou que não tenha meus momentos de fúria com algumas diferenças. Isso é normal quando se está fora de “casa”. Tento resolver logo as pendências, soltar a raiva e ir em frente depois.

E quanto ao fato de estar em um território que já foi socialista: isso provoca em mim uma curiosidade extrema. Daí vou conversando com as pessoas, trocando “uns dedos de prosa” e descobrindo estórias bem interessantes. Entre si, os alemães não são de jogar conversa fora com desconhecidos, mas parece que por eu ser estrangeira, alguns se abrem e conversam numa boa. Quando não querem falar sobre determinado assunto, eles são bem claros e diretos, mesmo entre amigos.

Curiosamente, apesar de todas as diferenças, tenho visto mais e mais brasileiros casando com alemães e vice-versa. Parece que há um entendimento nas diferenças – o que, diga-se de passagem, é ótimo!

E você ainda encontra resquícios de um mundo socialista?

Sim. É claro que não ao extremo, porque a sociedade alemã mudou muito desde a queda do muro em 89. Mas vendo as coisas sob um olhar estrangeiro, percebo uma certa nostalgia em algumas pessoas. Isso se traduz em lojas especializadas na venda de produtos feitos na RDA, bares “cult” que mantiveram a arquitetura e antiquários somente com objetos da era socialista.

Não entendo que isso signifique que as pessoas desejem, necessariamente, a volta daquele país do passado. Acho que tem gente que procurou manter um pouco da memória acesa na vida atual da região, até mesmo para se diferenciar do lado Ocidental da Alemanha. A palavra “diferenciar” aí, não deve ser entendida como separatista. Tem mais a ver com (re)criar uma identidade própria.

Penso que isso tudo é muito saudável, desde que não descambe para a distorção dos fatos: as pessoas viviam cerceadas naquela época e não há que se ter dúvidas a respeito.

→ Deixe um ComentárioCategorias: Uncategorized

A Pop filosofia de Pablo Capistrano

17 Setembro, 2009 · 17 Comentários

IC_Pablo_1

Ele mora na filosofia. Mas passeia pela história, literatura, poesia, religião, Direito e Justiça. Parte das entranhas do sertão, mira no oceano na esquina do continente e cruza o atlântico até a velha Europa dos filósofos gregos. Com todos esses trajetos e trajetórias na bagagem, o filósofo e escritor Pablo Capistrano transa com ideias ousadas. Acredita na mestiçagem, representada hoje pelo mais alto posto mundial, a do presidente dos EUA Barack Obama, que se traduz na fluidez e abertura de um compasso de jazz. E, num projeto político de longo prazo, defende ainda uma suruba multicultural, uma espécie de orgia (e orgasmo) entre os povos, como forma de fazer sobreviver a nossa própria humanidade. O Brasil está aí como exemplo. Mas Pablo já desconfia que o seu plano se encontra ameaçado pela profusão de “Ismos” que se contrapõem à sua proposta.

Porém, ele segue na cadência sem desanimar lançando o seu mais novo livro – Simples Filosofia, pelo editora Rocco- no final de setembro. E em tempos de filosofia entre os mais vendidos das livrarias, a conversa com Pablo Capistrano é uma espécie de terapia, uma análise filosófica-platônica-socrática. Só faltou mesmo o banquete e a sobremesa, que já estão prometidos em uma próxima escala na Cidade do Sol. Mas não esperem auto-ajudas. Ele não pega leve nem um pouco neste “divã”. Pablo Capistrano analisa a cidade e seu povo, o desespero em fins da primeira década do século XXI, o culto à celebridade, a ética e tal da moral que se dane, os conflitos entre a tradição e a modernidade, o provincianismo e o cosmopolismo, a proposta de um filosofia mais simples que o salva, e até crise “faústica” do capitalismo. Longe de ser um Dan Brown, Pablo Capistrano decifra e cria novos códigos como aqueles produzidos por um Da Vinci.

Vamos explicar: para ele, toda cidade tem uma espécie de enigma a ser decifrado. O segundo escritor potiguar mais consagrado atualmente foi buscar no primeiro mais consagrado, Nei Leandro de Castro, a esfinge da capital potiguar. Neste meio tempo, a cidade já conquistou ser moderna, agora basta aos natalenses serem modernos. Mas aí, a questão passa a ser do tempo que, como uma ampulheta, corre o risco de fazer a areia desabar sobre as cabeças. É que, como bom filósofo que é, Pablo não perde a razão, não é vidente, nem lança maldições, mas enxerga uma: uma duna sempre a se mover, que vai e volta ao sopro dos ventos, e quando está quase se levantando, soterra novamente seus cidadãos. Um tanto fatalista? A culpa é do Nelson, o Rodrigues mesmo.

Entre forrós, axés e até Big Brothers, Pablo consegue sim dar lições de filosofia. Não sem se sentir um alienígena, verde e com bolinhas. Evoca para a sala de aula e também para a festa outros dois E.T´s, o não tão declarado Andy Warhol e o outro mais do que declarado, David Bowie. Em tempos em que a fama é mais importante do que a obra em si, e não importa nem um pouco qual herança será deixada, a metamorfose é a grande saída para a sobrevivência. O Michael até tentou, fisicamente. E Madonna segue sua Via Crucis Pop com um Jesus a tiracolo. Até quando?

Bom, até sabermos, o marrano Pablo lança o seu  “Simples Filosofia” com crônicas a partir de uma filosofia diluída, mas não por isso superficial, publicada em uma coluna semanal do hoje quase morimbundo Diário de Natal. E se o mundo não acabar, também prepara um livro de contos. E, quem sabe, ainda sobra um tempinho para ele se tornar burguês. Mas, independente de tempos, espaços e burguesias, o que a gente quer mesmo é que a paz -e a filosofia- estejam sempre com ele.

Internetcidade_Ainda em 2004, em um texto ironicamente publicado no “O Mossoroense”, você aponta o livro Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro, como parte de uma senha para decifrar os enigmas de Natal. Ao seu ver, Natal vive um eterno conflito entre a tradição e a modernidade. É vítima de um ciclo que a empurra e a faz cenário de grandes acontecimentos globais para depois empurrá-la novamente para um silêncio monumental. Como você vê a cidade hoje? Ainda do mesmo jeito?

Pablo Capistrano_O Livro de Nei [Leandro de Castro] toca bem nesse paradoxal delírio que comumente tomava conta da cidade. Uma província perdida no meio das Dunas que vez ou outra acreditava que era uma metrópole moderna. Veja só: temos o Manoel Dantas fazendo conferências futuristas no [Teatro] Alberto Maranhão, um plano Palumbo que planejou a cidade para automóveis quando todo mundo andava de carroça, um Jorge Fernandes fazendo poesia modernista em uma fazenda iluminada, uma revolta marxista em uma terra sem proletariado, sem indústria. Esse era o paradoxo de Natal que o livro bem retratou. Hoje, eu acho que a coisa simplesmente se inverteu. Um estudo do “Le Monde” de Agosto do ano passado situa Natal já como uma das quinze metrópoles brasileiras, dividindo, no Nordeste, o espaço com Fortaleza, Recife e Salvador. Natal finalmente virou o que sonhava ser naqueles tempos: uma metrópole, mas a população ainda pensa e age como se viesse no interior.

IC_Então, por que não conseguimos assumir por inteiro, nem a tradição, nem a  modernidade?

Pablo Capistrano_Cada cidade tem um dilema, um enigma à ser decifrado. O enigma de Natal é justamente esse. Ela é uma cidade em transição, nunca aceitou ser província, mas também nunca conseguiu assumir totalmente o cosmopolitismo que lhe é inerente. Essa angústia faz de Natal uma cidade interessante por causa desse “nem, nem”. Porém, acho que Natal é a cidade mais aberta das capitais nordestinas, não porque seja liberal, mas porque ainda está se construindo.

Barack Obama Jazz Band

O "keep It Cool" de Obama e a sua nada tradicional jazz band: para Pablo, o presidente traduziu na política o compasso criativo do principal ritmo americano

IC_E quanto a essa história de identidade, falta uma mesmo?

Pablo Capistrano_Veja só, Natal é uma cidade de estrangeiros. Quantas pessoas que vivem em Natal nasceram em Natal? Quantas que nasceram em Natal têm pais que nasceram em Natal? E quantas das que tem pais, têm avós que nasceram aqui? Não existe o natalense típico. Se existiu alguma vez –Talvez o Câmara Cascudo tenha sido– foi diluído a partir dos anos setenta com o grande fluxo de populações vindas do interior, depois nos anos 1980 com os gaúchos, paulistas e paraibanos, e depois com os gringos. Uma prova disso são os feriados, o Carnaval, o São João. A cidade fica vazia porque boa parte da população volta para suas cidades do interior e seus estados vizinhos para visitar a família e “checar suas raízes”. Natal tem uma diversidade latente e não uma identidade. Isso tem que ser explorado melhor, não podemos querer ser Recife. Cada cidade tem sua vocação.

IC_Mas parece que não há um certo “desespero” na cidade em 2009?

Pablo Capistrano_Velho, esse é um desespero do mundo. Vivemos uma época sinistra. O Brasil, hoje, está exterminando uma geração de jovens a cada ano. São 50 mil mortes por arma de fogo (fora os acidentes de automóvel) por ano. Vivemos algo muito parecido com o final dos anos vinte (e agora com essa crise mais parece ainda), onde a euforia aponta para uma inevitável ressaca que se aproxima a passos largos.

IC_Natal passa uma impressão de sempre ser uma cidade um Devir, de um vir a ser, mas pouco ou nunca se realiza? Dá para tecer alguma teoria do que acontece?

Pablo Capistrano_Acho que as coisas acontecem! O natalense, com seu astigmatismo fundamental, é que não consegue enxergar, porque se compara muito. Em Natal, o quintal do vizinho é sempre mais florido e, a mulher do vizinho, sempre mais bonita.

IC_Você tem alguma idéia de onde surge isto? E o que pode ser feito? Já que você falou de um astigmatismo, há alguma espécie de “operação corretiva”?

Pablo Capistrano_Eu acho que essa dificuldade de olhar para dentro vem da própria configuração do Estado. Até os anos 1980, o RN era um estado partido em três, onde cada região estava voltada para um outro estado da federação. O Seridó era muito ligado à Campina Grande e Paraíba, Mossoró e o Oeste estavam voltados para Fortaleza e nem sabiam da existência de Natal, que por sua vez, mas parecia um bairro de Recife. O Estado não se encontrava do ponto de vista cultural e suas áreas pareciam obitar em função de outras regiões culturalmente já estabelecidas. Isso muda a partir do fortalecimento das TVs locais e do crescimento de Natal que passa a ser um polo e obriga o Seridó e o Oeste a se voltar para dentro do Estado. Agora, isso é muito recente, por isso acho que ainda sobra esse astigmatismo cultural, que deve demorar mais uma geração (talvez) para se dissolver.

IC_Há algum problema com a intelectualidade em Natal? Às vezes, dá a impressão que ela se deu por vencida…

Pablo Capistrano_Acho que há um problema com a intelectualidade brasileira, porque aqui, há um profundo preconceito contra a erudição e a inteligência. O intelectual nasce fadado a se esconder. Basta ver o que acontece com os alunos que se destacam nas escolas com as melhores notas. Recebem a jocosa alcunha de “cu de ferro” como se a inteligência fosse um atributo do esfíncter e não do cérebro.

IC_Quando falamos com filósofos, um tema sempre recorrente é a ética. Vivemos conclamando a ética, que deveria partir de cada um de nós. Mas, coletivamente, parece que a cidade não carece de uma construção de uma atitude mais ética?

Pablo Capistrano_Há uma corrente de pensadores que entende que ética e moral seriam coisas diferentes. A moral seria social, coletiva, e a ética uma atitude, uma postura produto da reflexão individual. Por isso que alguns, apesar dos valores vigentes, que emergem da moral, poderiam exercer o maravilhoso dom da revolta e dizer: “fodam-se!”. Não acho que hoje haja uma carência ética, o que eu vejo é uma crise moral (que é dos valores sociais), que retrata justamente a ruptura com o velho mundo sertanejo e aristocrático da cidade, o mundo da minha avó. Um mundo que a minha mãe, da geração de 68, ajudou a destruir. Esse velho mundo que prevaleceu desde 1680 quando os primeiros colonizadores marranos portugueses chegaram no sertão da Paraíba (depois RN), ruiu, e a gente não sabe que novo mundo vai surgir. É por isso que a essa sensação de porra nenhuma, que toma conta da cidade. Isso é um sinal do crescimento rápido da cidade.

IC_Durante a eleição de Obama, você também trouxe um tema interessante: o das traduções semióticas ao associar o estilo do primeiro presidente negro dos EUA ao jazz. Para você, qual é a melhor tradução semiótica de Natal?

Pablo Capistrano_Cara, essa pergunta é difícil. Mas eu aposto em uma leitura visual de Natal e não sonora. A melhor tradução é mesmo uma duna, acossada pelo vento. Ela cobre e descobre coisas, se movimenta, não se fixa, é transitória e temporal, ao mesmo tempo encanta pela vista que oferece de seu topo e facilmente desaba sobre as cabeças de seus melhores filhos.

IC_Destino um tanto trágico, não?

Pablo Capistrano_Pois é, acho que ando lendo muito Nelson Rodrigues esses dias (risos).

foto: Canindé Soares

A tragédia é mais rodrigueana do que grega: instado a decifrar a melhor tradução semiótica para Natal, Pablo não deixa a razão, não lança maldições, mas vê uma. Sobre as cabeças, o eterno retorno do pó!

IC_Como você se sente difundindo a filosofia em Natal, entre axés e forrós eletrônicos?

Pablo Capistrano_Um alienígena. Verde com bolas fosforescentes espalhados pelo corpo e com antenas brilhantes.

IC_Você participou de um coletivo artístico-literário nos anos 1990, o Sotão 277. O que ficou dessa época? E, a partir disso, como vê produção cultural na cidade hoje?

Pablo Capistrano_ A experiência do Sótão teve um sentido pedagógico para nós, e um sentido de libertação para a cidade. A gente viveu a transição de uma era punk onde o repúdio ao “sistema” ainda era regra e uma era marketing (a nossa) onde se podia tratar a literatura e a cultura como um produto para um mercado. Nós pegamos algo dessas duas épocas. Para mim, o Sótão foi uma experiência de transição para a cidade. Daquela época ficou muita gente boa que surgiu da ETFRN (hoje CEFET). Sheyla Azevedo (jornalista e ex-cronista do Diário de Natal), Alex de Souza (jornalista), Aristeu Araújo (cineasta), José Soares (jornalista também, autor de vários livros), Alessandre de Lia (poeta), W. Martins (músico), Carlos Negreiro (professor da CEFET de literatura), Fábio François (filósofo).

IC_…às vezes também tenho a impressão de que há uma radicalidade (em vários campos), no sentido de que tudo tem de ser maior, mais criativo, tem de ser inovador, chamar atenção. Mas não se consegue, nunca se está satisfeito…

Pablo Capistrano_Nosso mundo é instantâneo. A melhor expressão para a nossa era foi inventada por Andy Warhol (o produtor do primeiro disco do Velvet Underground, e criador do Pop) na Factory, seu estúdio-boate de Nova York: “celebridade”. A celebridade não se preocupa com a herança que vai deixar quando morrer. Tanto faz. Não vai haver futuro mesmo, então ela manda a sua própria obra se lascar. Não importa a qualidade da obra, nem se ela vai durar justamente por essa qualidade, o que importa é a fama instantânea que qualquer obra pode lhe proporcionar. Então você tem que criar um produto para o gosto médio do público e essa submissão ao mercado lhe dá fama imediata e esquecimento imediato. Só há uma forma de sobreviver ao esquecimento do mercado (que é rápido pois toda celebridade é instantânea – Warhol disse: “no futuro todo mundo vai ser famoso por quinze minutos”), a constante metamorfose. David Bowie foi o primeiro a perceber isso e se metamorfoseou todas as décadas. Hoje, quem aprendeu bem com ele foi a Madonna.

IC_No seu primeiro livro, você optou por um cenário distante, uma viagem pela Europa. Por que? E o que pode dizer hoje dessa sua primeira experiência?

Pablo Capistrano_Meu livro é feito por alguém que nasceu e cresceu em Natal. Um sertanejo exilado (meus pais são do sertão) que aprendeu a amar o mar e viver perto do porto. Quem vive perto do mar e entende o mar, gosta do horizonte e ama o que há depois do horizonte. Eu cresci olhando para um Atlas com mapas do mundo todo, imaginando todos aqueles países estranhos, aquelas línguas diversas, aquelas culturas diferentes e aquelas músicas estranhas. Então, eu viajei um bocado e dessas viagens eu extraí um pouco do material do meu livro. Mas há uma dimensão narrativa nisso. Aquele livro fala de um retorno à Grécia. Se você perceber, o personagem sai de Natal, vai para a Alemanha e chega na Grécia, depois ele volta pela Itália. Esses três últimos lugares têm um papel central no pensamento ocidental, estou escrevendo uma tese de doutorado agora sobre isso.

Internetcidade_Seu novo livro -Simples Filosofia- é uma reunião dos seus artigos na coluna semanal do Poti (dominical do Diário de Natal).  Como foi a receptividade aos textos filosóficos no jornal?

Pablo Capistrano_A experiência de escrever um texto seriado sobre filosofia em uma coluna semanal, chamada Pop Filosofia, salvou minha vida (risos). O fato é que eu andava meio sem saco de escrever em jornais sobre temas cotidianos, ou sobre “a novidade da semana” como fiz por dez anos, desde 1999. Então meu amigo Sérgio Trindade me deu uma dica: ele disse que eu ou poderia pegar velhas crônicas já publicadas, mudar o título e mandar para os jornais que ninguém iria notar (acho que essa dica ele tirou do Nelson Rodrigues), ou escrever uma série sobre um tema que despertasse meu interesse. Preferi a segunda opção e isso me abriu novas expectativas literária. Completei essa série sobre filosofia e já comecei mais duas, uma sobre religião e, outra sobre jazz. E, se o mundo não acabar, também estou preparando um livro de contos. Mas, respondendo a pergunta, a receptividade foi boa. Muita gente dizia que estava colecionando os artigos, que tinham um padrão muito mais jornalístico do que acadêmico, ou que deixava de ir à missa no domingo para ler os textos. Te cuida Bento XVI!

Internetcidade_A partir dessa experiência, você acha que a filosofia pode ser “pop”, mais diluída para o grande público?

Pablo Capistrano_Acho que qualquer coisa pode ser Pop, e isso é uma característica do Pop em si, a capacidade de popalizar o mundo. Mas acho que minha intenção mesmo era tornar a filosofia simples. Isso não quer dizer superficial, porque nem tudo que é complexo é profundo, e nem tudo que é simples, é raso. Se isso é ser Pop, então minha filosofia é Pop.

Foto: Elisa Elsie

Entre forrós, axés e BBB´s, Pablo consegue dar aulas de filosofia mas não sem se sentir um alienígena verde, de bolinhas fosforescentes e antenas.  Por isso, sente-se à vontade de convidar para a sala e para o banquete celebridades como Andy Warhol e David Bowie. Nas colunas semanais, tão jornalísticas quanto gregas, mostrou que a filosofia pode ser simples, diluída, sem que isso signifique ser superficial. Mas se ser simples é ser Pop, então a filosofia de Pablo Capistrano é exatamente isto…Pop filosofia!

IC_Falando em mundo abacar…você também brincou no início da crise financeira dizendo sentir pena que não daria tempo de você se tornar burguês. Natal vinha aproveitando esse “sonho burguês”… Desse jeito, vou acreditar que estamos perto do fim de alguma coisa mesmo. Há algo que o filósofo vislumbra e que poderia nos contar?

Pablo Capistrano_ Cara, eu acho que estamos perto do fim de algo, talvez, não do mundo, nem da natureza, mas talvez de um padrão de comportamento social baseado em um consumo desenfreado e sem sentido. Isso me parece cada vez mais claro, na medida em que a crise ambiental se aprofunda. Não dá para sustentar um padrão de consumo que as sociedades industrializadas construíram sem “Foder” com o equilíbrio natural. Isso é um um dado cada vez mais claro. Então, é urgente pensar uma nova ética da sustentabilidade, esse é um imperativo que talvez possa ser o fiel da balança em relação ao futuro da civilização. Agora, quanto à crise financeira eu não sei… o capitalismo parece que se renova nas crises. É como Mefistófeles, do Fausto de Goethe: sempre em constante metamorfose.

IC_ Ainda a partir da mestiçagem, você defende uma “Suruba” cultural mundial como saída para o mundo. Mas, parece uma alternativa que se distancia na medida em que só vemos aumentar coisas como o moralismo e o xenofobismo?

Pablo Capistrano_A questão da orgia multicultural é uma proposta política de longo prazo mas que parece que começa a sofrer abalos justamente por causa desses elementos que você citou. Acho que existem duas grandes forças em conflito na cultura contemporânea: uma força de identidade, divisão e separação e outra força de fusão e mestiçagem. Os nacionalismos, a xenofobia, o fundamentalismo cerram fronteiras com o primeiro lado. Sabe, tenho um terrível deslize humanista de achar que só há um futuro para nós quando a integração cultural se completar e isso, a antropologia mostra, acontece mais rápido quando as comunidades humanas “cruzam” entre si. O Brasil nasceu assim, não foi? Nós somos o resultado dessa utopia.

IC_E mais uma curiosidade minha…você sempre termina as suas comunicações com o “Que a paz te acompanhe”. Há uma dimensão espiritual neste filósofo?

Pablo Capistrano_Pois é, a minha ancestralidade marrana se manifesta nesses detalhes.

Decifrando o Código Capistrano

Ele mora na filosofia. Mas passeia pela história, literatura, poesia, religião, direito e justiça. Parte das entranhas do sertão, mira no oceano na esquina do continente e cruza o atlântico até a velha Europa dos filósofos gregos. Como todos esses trajetos e trajetórias na bagagem, o filósofo Pablo Capistrano transa com ideias ousadas. Acredita na mestiçagem, representada hoje pelo mais alto posto mundial, a do presidente dos EUA Barack Obama, que se traduz na fluidez e abertura de um compasso de Jazz. E, num projeto político de longo prazo, defende ainda uma suruba multicultural, uma espécie de orgia (e orgasmo) entre os povos, como forma de fazer sobreviver a nossa própria humanidade. O Brasil está aí como exemplo. Mas Pablo já desconfia que o seu plano se encontra ameaçado pela profusão de “Ismos” que se contrapõem à sua proposta.

Porém, ele não mostra ares de desânimo. Em tempos de filosofia entre os mais vendidos das livrarias, a conversa com Pablo Capistrano é uma espécie de terapia, uma análise filosófica-platônica-socrática. Só faltou mesmo o banquete e a sobremesa, que já estão prometidos em uma próxima escala na Cidade do Sol. Mas não esperem auto-ajudas. Ele não pega leve nenhum um pouco neste “divã”. Pablo Capistrano analisa a cidade e seu povo, o desespero em fins da primeira década do século XXI, o culto à celebridade, a ética e tal da moral que se foda, os conflitos entre a tradição e a modernidade, o provincianismo e o cosmopolismo, e até crise “faústica” do capitalismo. Longe de ser um Dan Brown, Pablo Capistrano decifra e cria novos códigos como aqueles produzidos por um Da Vinci.

Para ele, toda cidade tem uma espécie de enigma a ser decifrado. O segundo escritor potiguar mais consagrado atualmente, foi buscar no primeiro mais consagrado, Nei Leandro de Castro, a esfinge da capital potiguar. A cidade já conquistou ser moderna, agora basta que os natalenses sejam modernos. Mas aí, a questão passa a ser do tempo que, como uma ampulheta, corre o risco de fazer a areia desabar sobre as cabeças. Como bom filósofo que é, não perde a razão, não é vidente, nem lança maldições, mas enxerga uma: uma duna sempre a se mover, que vai e volta ao sopro dos ventos, e quando está quase se levantando, soterra novamente seus cidadãos. Um tanto fatalista? A culpa é do Nelson, o Rodrigues mesmo.

Entre forrós, axés e até Big Brothers, Pablo consegue sim dar lições de filosofia. Não sem se sentir um marciano, verde e com bolinhas. Evoca para a sala de aula e também para a festa outros dois E.T´s, o não tão declarado Andy Warhol e o outro mais do que declarado David Bowie. Em tempos em que a fama é mais importante do que a obra em si, e não importa nem um pouco qual herança será deixada, a metamorfose é a grande saída para a sobrevivência. O Michael até tentou, fisicamente. A Madonna conseguiu até com Jesus a tiracolo. Até quando?

Bom, até lá, e se antes o mundo não acabar, o marrano Pablo lança o seu segundo livro pela editora Rocco, com crônicas sobre a filosofia. Também prepara um livro de contos. E, quem sabe, ainda sobra um tempinho para ele se tornar burguês. Mas, independente de tempos e espaços, o que a gente quer mesmo é que a paz -e a filosofia- estejam sempre com ele.

Internetcidade_Ainda em 2004, em um texto ironicamente publicado no “O Mossoroense”, você aponta o livro Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro, como parte de uma senha para decifrar os enigmas de Natal. Ao seu ver, Natal vive um eterno conflito entre a tradição e a modernidade. É vítima de um ciclo que a empurra e a faz cenário de grandes acontecimentos globais para depois empurrá-la novamente para um silêncio monumental. Como você vê a cidade hoje? Ainda do mesmo jeito?

Pablo Capistrano_O Livro de Nei [Leandro de Castro] toca bem nesse paradoxal delírio que comumente tomava conta da cidade. Uma província perdida no meio das Dunas que vez ou outra acreditava que era uma metrópole moderna. Veja só: temos o Manoel Dantas fazendo conferências futuristas no Alberto Maranhão, um plano Palumbo que planejou a cidade para automóveis quando todo mundo andava de carroça, um Jorge Fernandes fazendo poesia modernista em uma fazenda iluminada, uma revolta marxista em uma terra sem proletariado, sem indústria. Esse era o paradoxo de Natal que o livro bem retratou. Hoje eu acho que a coisa simplesmente se inverteu. Um estudo do “Le Monde” de Agosto do ano passado situa Natal já como uma das quinze metrópoles brasileiras, dividindo no nordeste o espaço com Fortaleza, Recife e Salvador. Natal finalmente virou o que sonhava ser naqueles tempos: uma metrópole, mas a população ainda pensa e age como se viesse no interior.

IC_Então, por que não conseguimos assumir por inteiro, nem a tradição, nem a  modernidade?

Pablo Capistrano_Cada cidade tem um dilema, um enigma à ser decifrado. O enigma de Natal é justamente esse. Ela é uma cidade em transição, nunca aceitou ser província, mas também nunca conseguiu assumir totalmente o cosmopolitismo que lhe é inerente. Essa angústia faz de Natal uma cidade interessante. Esse “nem, nem”. Acho que Natal é a cidade mais aberta das capitais nordestinas, não porque seja liberal, mas porque ainda está se construindo.

IC_E quanto a essa história de identidade, falta uma mesmo?

Pablo Capistrano_Veja só, Natal é uma cidade de estrangeiros. Quantas pessoas que vivem em Natal nasceram em Natal? Quantas que nasceram em Natal têm pais que nasceram em Natal? E quantas das que tem pais, têm avós que nasceram aqui? Não existe o natalense típico. Se existiu alguma vez – Talvez o Câmara Cascudo tenha sido– foi diluído a partir dos anos setenta com o grande fluxo de populações vindas do interior, depois nos oitenta com os gaúchos, paulistas e paraibanos, e depois com os gringos. Uma prova disso são os feriados, o Carnaval, o São João. A cidade fica vazia, por que?  Porque boa parte da população volta para suas cidades do interior e seus estados vizinhos para visitar a família e “checar suas raízes”. Natal tem uma diversidade latente e não uma identidade, isso tem que ser explorado melhor, não podemos querer ser Recife. Cada cidade tem sua vocação.

IC_Mas parece que não há um certo “desespero” na cidade em 2009?

Pablo Capistrano_Velho, esse é um desespero do mundo. Vivemos uma época sinistra. O Brasil, hoje, está exterminando uma geração de jovens a cada ano. São 50 mil mortes por arma de fogo (fora os acidentes de automóvel) por ano. Vivemos algo muito parecido com o final dos anos vinte (e agora com essa crise mais parece ainda), onde a euforia aponta para uma inevitável ressaca que se aproxima a passos largos.

IC_Natal passa uma impressão de sempre ser uma cidade um Devir, de um vir a ser, mas pouco ou nunca se realiza? Dá para tecer alguma teoria do que acontece?

Pablo Capistrano_Acho que as coisas acontecem! O natalense, com seu astigmatismo fundamental, é que não consegue enxergar, porque se compara muito. Em Natal, o quintal do vizinho é sempre mais florido e, a mulher do vizinho, sempre mais bonita.

IC_Você tem alguma idéia de onde surge isto? E o que pode ser feito? Já que você falou de um astigmatismo, há alguma espécie de “operação corretiva”?

Pablo Capistrano_Eu acho que essa dificuldade de olhar para dentro vem da própria configuração do Estado. Até os anos oitenta o RN era um estado partido em três, onde cada região estava voltada para um outro estado da federação. O Seridó era muito ligado à Campina Grande e Paraíba, Mossoró e o Oeste estavam voltados para Fortaleza e nem sabiam da existência de Natal, que por sua vez, mas parecia um bairro de Recife. O Estado não se encontrava, do ponto de vista cultural e suas áreas pareciam obitar em função de outras regiões culturalmente já estabelecidas. Isso muda a partir do fortalecimento das TVs locais e do crescimento de Natal que passa a ser um polo e obriga o Seridó e o Oeste a se voltar para dentro do Estado. Agora, isso é muito recente, por isso acho que ainda sobra esse astigmatismo cultural, que deve demorar mais uma geração (talvez) para se dissolver.

IC_Há algum problema com a intelectualidade em Natal? Às vezes, dá a impressão que ela se deu por vencida…

Pablo Capistrano_Acho que há um problema com a intelectualidade brasileira, porque aqui, há um profundo preconceito contra a erudição e a inteligência. O intelectual nasce fadado a se esconder. Basta ver o que acontece com os alunos que se destacam nas escolas com as melhores notas. Recebem a jocosa alcunha de “cu de ferro” como se a inteligência fosse um atributo do esfíncter e não do cérebro.

IC_Quando falamos com filósofos, um tema sempre recorrente é a ética. Vivemos conclamando a ética, que deveria partir de cada um de nós. Mas, coletivamente, parece que a cidade não carece de uma construção de uma atitude mais ética?

Pablo Capistrano_Há uma corrente de pensadores que entende que ética e moral seriam coisas diferentes. A moral seria social, coletiva e a ética uma atitude, uma postura produto da reflexão individual. Por isso que alguns, apesar dos valores vigentes, que emergem da moral, poderiam exercer o maravilhoso dom da revolta e dizer: “fodam-se!”. Não acho que hoje haja uma carência ética, o que eu vejo é uma crise moral (que é dos valores sociais), que retrata justamente a ruptura com o velho mundo sertanejo e aristocrático da cidade, o mundo da minha avó. Um mundo que a minha mãe, da geração de 68, ajudou a destruir. Esse velho mundo que prevaleceu desde 1680 quando os primeiros colonizadores marranos portugueses chegaram no sertão da Paraíba (depois RN), ruiu, e a gente não sabe que novo mundo vai surgir. É por isso que a essa sensação de porra nenhuma, que toma conta da cidade. Isso é um sinal do crescimento rápido da cidade.

IC_Durante a eleição de Obama, você também trouxe um tema interessante: o das traduções semióticas ao associar o estilo do primeiro presidente negro dos EUA ao Jazz. Para você, qual é a melhor tradução semiótica de Natal?

Pablo Capistrano_Cara, essa pergunta é difícil. Mas eu aposto em uma leitura visual de Natal e não sonora. A melhor tradução é mesmo uma duna, acossada pelo vento. Ela cobre e descobre coisas, se movimenta, não se fixa, é transitória e temporal, ao mesmo tempo encanta pela vista que oferece de seu topo e facilmente desaba sobre as cabeças de seus melhores filhos.

IC_Destino um tanto trágico, não?

Pablo Capistrano_Pois é, acho que ando lendo muito Nelson Rodrigues esses dias (risos).

IC_Como você se sente difundindo a filosofia em Natal, entre axés e forrós eletrônicos?

Pablo Capistrano_Um alienígena. Verde com bolas fosforescentes espalhados pelo corpo e com antenas brilhantes.

IC_Você participou de um coletivo artístico, o Sotão 277. O que ficou dessa época? Como vê produção cultural na cidade hoje?

Pablo Capistrano_Acho que dessa época ficou muita gente boa que surgiu da ETFRN (hoje CEFET). Sheyla Azevedo (cronista do Diário), Alex de Souza (jornalista), Aristeu Araújo (cineasta), José Soares (jornalista também, autor de vários livros), Alessandre de Lia (poeta), W. Martins (músico), Carlos Negreiro (professor da CEFET de literatura), Fábio François (filósofo) acho que a experiência do Sótão teve um sentido pedagógico para nós, e um sentido de libertação para a cidade. A gente viveu a transição de uma era punk onde o repúdio ao “sistema” ainda era regra e uma era marketing (a nossa) onde se podia tratar a literatura e a cultura como um produto para um mercado. Acho que nós pegamos algo dessas duas épocas. Para mim, o Sótão foi uma experiência de transição para a cidade.

IC_…às vezes também tenho a impressão de que há uma radicalidade (em vários campos), no sentido de que tudo tem de ser maior, mais criativo, tem de ser inovador, chamar atenção. Mas não se consegue, nunca se está satisfeito…

Pablo Capistrano_Nosso mundo é instantâneo. A melhor expressão para a nossa era foi inventada por Andy Warhol (o produtor do primeiro disco do Velvet Underground, e criador do Pop) na Factory, seu estúdio-boate de Nova York: “celebridade”. A celebridade não se preocupa com a herança que vai deixar quando morrer. Tanto faz. Não vai haver futuro mesmo, então ela manda a sua própria obra se lascar. Não importa a qualidade da obra, nem se ela vai durar justamente por essa qualidade, o que importa é a fama instantânea que qualquer obra pode lhe proporcionar. Então você tem que criar um produto para o gosto médio do público e essa submissão ao mercado lhe dá fama imediata e esquecimento imediato. Só há uma forma de sobreviver ao esquecimento do mercado (que é rápido pois toda celebridade é instantânea – Warhol disse: “no futuro todo mundo vai ser famoso por quinze minutos”), a constante metamorfose. David Bowie foi o primeiro a perceber isso e se metamorfoseou todas as décadas. Hoje, quem aprendeu bem com ele foi a Madonna.

IC_No seu livro, você optou por um cenário distante, uma viagem pela Europa. Por que? E o que pode dizer hoje dessa sua primeira experiência?

Pablo Capistrano_Meu livro é feito por alguém que nasceu e cresceu em Natal. Um sertanejo exilado (meus pais são do sertão) que aprendeu a amar o mar e viver perto do porto. Quem vive perto do mar e entende o mar, gosta do horizonte e ama o que há depois do horizonte. Eu cresci olhando para um Atlas com mapas do mundo todo, imaginando todos aqueles países estranhos, aquelas línguas diversas, aquelas culturas diferentes e aquelas músicas estranhas. Então, eu viajei um bocado e dessas viagens eu extraí um pouco do material do meu livro. Mas há uma dimensão narrativa nisso. Aquele livro fala de um retorno à Grécia. Se você perceber, o personagem sai de Natal, vai para a Alemanha e chega na Grécia, depois ele volta pela Itália. Esses três últimos lugares têm um papel central no pensamento ocidental, estou escrevendo uma tese de doutorado agora sobre isso.

IC_E já está escrevendo algo novo? O que anda aprontando?

Pablo Capistrano_Estou com uma coluna de crônicas aos Domingos no Poty/Diário, já escrevi sobre filosofia, agora estou falando sobre religião em uma série e acho que o próximo tópico vai ser Justiça e Direito. Esse ano, se o mundo não se acabar, lanço o Simples Filosofia (reunião de crônicas sobre filosofia) pela Rocco, mas estou preparando também um livro de contos.

IC_Falando em mundo abacar…você também brincou no início da crise financeira dizendo sentir pena que não daria tempo de você se tornar burguês. Natal vinha aproveitando esse “sonho burguês”… Desse jeito, vou acreditar que estamos perto do fim de alguma coisa mesmo. Há algo que o filósofo vislumbra e que poderia nos contar?

Pablo Capistrano_Cara, eu acho que estamos perto do fim de algo, talvez, não do mundo, nem da natureza, mas talvez de um padrão de comportamento social baseado em um consumo desenfreado e sem sentido. Isso me parece cada vez mais claro, na medida em que a crise ambiental se aprofunda. Não dá para sustentar um padrão de consumo que as sociedades industrializadas construíram sem “Foder” com o equilíbrio natural. Isso é um um dado cada vez mais claro. Então, é urgente pensar uma nova ética da sustentabilidade, esse é um imperativo que talvez possa ser o fiel da balança em relação ao futuro da civilização. Agora, quanto à crise financeira eu não sei… o capitalismo parece que se renova nas crises. É como Mefistófeles, do Fausto de Goethe: sempre em constante metamorfose.

IC_ Ainda a partir da mestiçagem, você defende uma “Suruba” cultural mundial como saída para o mundo. Mas, parece uma alternativa que se distancia na medida em que só vemos aumentar coisas como o moralismo e o xenofobismo?

Pablo Capistrano_A questão da orgia multicultural é uma proposta política de longo prazo mas que parece que começa a sofrer abalos justamente por causa desses elementos que você citou. Acho que existem duas grandes forças em conflito na cultura contemporânea: uma força de identidade, divisão e separação e outra força de fusão e mestiçagem. Os nacionalismos, a xenofobia, o fundamentalismo cerram fronteiras com o primeiro lado. Sabe, tenho um terrível deslize humanista de achar que só há um futuro para nós quando a integração cultural se completar e isso, a antropologia mostra, acontece mais rápido quando as comunidades humanas “cruzam” entre si. O Brasil nasceu assim, não foi? Nós somos o resultado dessa utopia.

IC_E mais uma curiosidade minha…você sempre termina as suas comunicações com o “Que a paz te acompanhe”. Há uma dimensão espiritual neste filósofo?

Pablo Capistrano_Pois é a minha ancestralidade marrana se manifesta nesses detalhes.

→ 17 ComentáriosCategorias: Entrevistas
Etiquetado: , , , , , , , , , ,

O Clarofail e a cara da guerrilha virtual

31 Julho, 2009 · 3 Comentários

#clarofail

Twitter, Flickr e blog. Reúna-os em uma mesma plataforma daquelas bem simples. Nada que já não exista por aí na internet. Pegue um mote justo: uma reclamação que encontra eco porque alguém certamente vive ou viveu o mesmo problema. E adicione a palavrinha-chave do momento: conclame à colaboração. A nitroglicerina está feita e responde pela alcova de clarofail.com.

Uma dessas pequenas revoluções na internet se deu na última sexta-feira (24/07). A personificação do conceito de maus serviços que se traduz na rede por “Fail” teve a operadora de telefonia celular Claro escolhida a dedo. Tudo devido ao desrespeito ao consumidor. No fim daquela tarde, o Clarofail “bombava” com os retwitts (o “forward” ou “encaminhar” da sinfonia de pardais do Twitter) em tempo real. Ou seja, não só quem é usuário do microblog viu, mas todo ser na face da Terra com acesso à rede. Em uma semana foram mais de 600 retwitts e mais de 40 fotos com a tag #clarofail dentro do Flickr.

A ação de guerrilha virtual se deu em pouco mais de uma hora quando a jornalista e blogueira Thaís Pontes lançou, no final da tarde da sexta-feira, o primeiro petardo no Twitter avisando do seu site Clarofail. Pouco tempo depois, recebe a primeira chancela dentro do próprio microblog via @gustnogueira, lá no Pará: “#ClaroFail é um ótimo exemplo da integração entre redes sociais e do poder da comunidade”. Em seguida, a disseminação passa pelo crivo dos embaixadores da internet como o Cristiano Dias (@crisdias), com seus mais de 11 mil seguidores. Aí, já era. Catorze horas depois, já no sábado, a jornalista comemorava 315 retwittes e mais de 30 comentários no site-blog. Para ela, o resultado foi melhor do que a encomenda.

Thaís diz que não inventou nada e só quis engrossar o coro. Apesar dos seus 23 anos, não é criança na história e  não foi uma simples aventura de alguém que resolveu pegar as ferramentas disponíveis na net. Thaís Pontes trabalha em uma empresa de mídias sociais. E percebeu que estava com os ingredientes e com a insatisfação certas para fazer o seu coquetel molotov virtual. A carinha bonita – do site – também ajudou.

A jornalista parece ter chegado a uma fórmula certa para expor as tais das conversações que existem dentro da internet. Boa parte das mensagens no blog saudava a iniciativa e sucesso da plataforma. Para a perfeição da ação, só faltou o Samamba (que postou vídeos de sua saga ao tentar cancelar o serviço da Sky), melhor falando, a disponibilidade para as postagens em vídeo. Mas a criadora defende não ser essencial contar com todos as plataformas para honrar o conceito de integração.

Há ainda quem tenha dito que a plataforma fez saltar novamente o velho paradigma do McLuhan e a ladainha do “meio é a mensagem”. Mas o site-blog-flickr-twitter integrado tal como criado por Thaís proporcionou ao internauta uma dinâmica muito grande e transparente de participação. Transparente porque da mesma forma como havia gente criticando os serviços, havia também pessoas que usam a operadora, que não tem nada contra, estão satisfeitas e informavam que, na região delas, é quem oferece o melhor serviço. Pelo menos de sinal. Até a própria Claro podia ver o que estavam falando dela minuto a minuto. Esses são os paradoxos da rede.

Saindo do campo das elucubrações teóricas, pode ser que o dono da Claro, o mexicano Carlos Slim, nem tenha se dado ao trabalho de saber o que estava acontecendo. Ele vai continuar lá, recebendo os seus milhões. Mas com qual cara a Claro Brasil amanheceu no outro dia após ao “friday bloody friday” da Thais Pontes? Esperamos que com uma certa cara de ressaca, com algum café, Coca-Cola e Engov. “Certamente quem viu vai pensar antes de contratar a operadora”, espera a criadora do blog.

A Claro, pelo menos, pode se vangloriar da satisfação de ter sido escolhida para inaugurar, mesmo que indesejavelmente, uma nova formulinha que tem tudo para se repetir algumas vezes daqui por diante na Internet. E, quem sabe, se a coisa pega, os motoristas que passam pela avenida Paulista agradecem!

Internetcidade_Você  juntou blog, Twitter e Flickr. Nada que já não exista na internet. Mas o que você acha que foi a nitroglicerina da iniciativa?

Thaís Pontes_A idéia era justamente usar o que já existe na internet. Fazer uma ação a partir de meios já utilizados pelos internautas é o segredo para que participem. Mas o que mais fez bombar a divulgação do site é que as pessoas se identificaram. Se a Claro respeitasse o consumidor e meu caso fosse isolado, ninguém divulgaria.

Site Clarofail.com

Coquetel molotov virtual: mix de plataformas com insatisfação ecoou nos usuários e fez o site "bombar"

IC_Há muitos sites de reclamações na internet. Mas no seu blog, há comentários elogiando a plataforma usada. Parece ser um boa receita de publicação do conceito de fail criado na rede. Como surgiu a ideia?

Thaís_Todo mundo já usa o #fail relacionada a coisas ruins. E a tag #clarofail já era muito usada pelos usuários da rede que reclamavam da operadora. Eu não inventei nada, só quis engrossar o coro!

IC_Para a integração total só faltou o Samamba…ou melhor, a postagem de vídeos…

Thaís_Não acho que toda ação tem que estar em todas as plataformas. Tive a ideia de agregar fotos e twittes, achei que seria mais original e que funcionaria bem.

IC_Como você avalia o alcance da iniciativa? Você tinha ideia de que a repercussão chegasse ao tamanho que chegou? Está satisfeita?

Thaís_Acho que foi um sucesso! Eu imaginei que daria o que falar, mas superou minhas expectativas. Foram mais de 600 retwittes e mais de 40 fotos “tagueadas”. O blog teve mais de 5 mil visitantes únicos. Em menos de 24 horas a Claro entrou em contato comigo resolvendo o problema.

IC_Você acredita que vão surgir outros blogs-sites do tipo?

Thaís_Já existem. Como por exemplo o http://timenganei.blogspot.com. Mas de um modo geral acho que minha iniciativa incentivou as pessoas a botarem a boca no trombone quando precisarem.

Alexandre Ferreira (via Flickr)

Qual cara tem? Para Thaís, o segredo está em chamar à participação por meios já usados na net. Acima, foto do Flickr com a tag

IC_O Twitter vem pautando bastante as mídias tradicionais. Mas até onde pude acompanhar, o Clarofail ainda não rendeu nos jornais.  O que você acha que aconteceu?

Thaís_Em nenhum momento minha intenção foi pautar reportagens. Nem pensei nisso. Minha intenção era fazer barulho nas redes sociais.

IC_Aproveitando sua atuação em uma agência de mídias sociais, os departamentos de comunicação tendem a tratar ações como essa como fogos fátuos. Começam, ganham força, mas logo depois apagam…

Thaís_Toda ação em mídias sociais é assim. Não existe moto-perpétuo com esse tipo de ação. Mas certamente quem viu o clarofail.com vai se lembrar quando for escolher uma operadora.

IC_Mesmo que as corporações ainda não deem a devida atenção a ações como essas, elas serão cada vez mais comuns?

Thaís_Certamente elas serão cada vez mais comuns. O cidadão tende a descobrir o poder das mídias sociais. Agora, para fazer um grande movimento colaborativo e chamar atenção não precisamos mais juntar todo mundo na Avenida Paulista.

→ 3 ComentáriosCategorias: Entrevistas
Etiquetado: , , , , , , , ,

Da catolaica Caicó para o mundo

14 Julho, 2009 · Deixe um comentário

IC_bordado_1

Bobagem, que nada! Em Caicó, as rosas falam: os bordados são representações da vida cotidiana das artesãs e dizem muito sobre criatividade e paciência, emoções e disciplina

Ah, Caicó arcaico, no meu peito catolaico, tudo é descrença e fé…
– A Prosa Impúrpura do Caicó – Chico César

Ela já vai pedindo guiné e feijão verde quando chega à cidade. Foi uma vez – ó mana deixa eu ir, ó mana eu vou só – voltou mais umas seis no sertão de Caicó. Tudo isso para estudar os famosos bordados típicos produzidos pelas artesãs da região. Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, Thaís Brito viu nas rosas, flores, richilieus e arabescos feitos de linhas, cores e muito “capricho” o tema de estudo para o seu doutorado. Mais do que produzir uma tese, terminou se apaixonando pela catolaica cidade e pelo calor e receptividade dos caicoenses.

Os bordados de Caicó dão o ponto na tão tradicional identidade caicoense. São a “farda” do orgulho de suas mulheres, uma nobre peça, principalmente nos dias de festa. Ou um presente valioso. Um enxoval bordado chegar a custar alguns mil reais. Na composição dessa identidade, eles se juntam à original carne seca do Seridó (por favor, longe de confundir com a chamada carne de sol do Rio e Sampa, que na verdade é de charque), aos filhós (uma espécie de doce de farinha e melaço especialmente preparado nos dias de festa), e com a própria devoção profana e católica dos filhos de Sant’Ana que acorrem em caravanas para a cidade no mês de julho para homenagear a padroeira da cidade. Ah, tem ainda o “rigoroso calor”. Mas aí, não dá nem para pensar…

Hoje, os bordados de Caicó não se limitam a serem vistos e comprados somente na Festa de Sant’Ana ou na capital potiguar. Por meio de programas de incentivo e de turismo de instituições governamentais ou empresariais, as bordadeiras rodam o Brasil e o mundo divulgando o seu artesanato. E já estão até na internet. Como constata a pesquisadora e também professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, tudo isto já vem modificando o próprio fazer das artesãs, que buscam novos tipos de tecidos, mais práticos e fáceis, e também aplicações antes impensadas como, por exemplo, em camisetas.

Apesar do sobrenome tipicamente caicoense, Thaís não tinha ligação nenhuma com a cidade. Na imaginação dela, a aridez do sertão e a beleza dos bordados não ornavam nem um pouco entre eles. O seridó seria o que existia de mais sem vida e sem cor. Mas isso foi apenas ter uns dedos de prosa “anasalada” com os caicoenses. Diante dos filhos e filhas de Caicó, Thaís se deparou com muita receptividade e uma beleza incomum dos bordados, que a fizeram mudar seus conceitos.

Aqui, cabe uma verdade. Os bordados de Caicó não são únicos. Tampouco originais. Thaís já encontrou os mesmos motivos até no Paraguai. Sem falsificações. Mas o cuidado, o “capricho”, é o grande diferencial das bordadeiras seridoenses, que se esmeram nos diversos tipos de ponto como Richilieu, Matiz ou Ponto Cheio, combinando essas técnicas entre elas, a disposição e as cores. Um bom bordado, segundo as artesãs, precisa ser realizado com calma e precisão para que se consiga ter uma boa aderência ao tecido, resistência às lavagens e para que não deforme. Portanto, não exijam pressa, produção industrial ou algo do tipo. Como em uma “Mil e Uma Noites”, Thaís também aprendeu que, em Caicó, cada dia é um dia.

Internetcidade_Fale um pouquinho sobre a sua pesquisa…Como surgiu o interesse pelas bordadeiras de Caicó?
Thaís Brito_Nunca tinha ido ao sertão e, no Rio Grande do Norte, me limitava às cidades litorâneas. Sertão, para mim, era o que eu podia imaginar o que havia de mais áspero e distante, imaginava uma terra árida, doída, sem vida e sem cor. A minha imagem era a do distanciamento completo, a auteridade, o desconhecido. As imagens sobre o sertão que eu havia sido alimentada durante a minha vida eram conflitantes com a beleza dos bordados que eu havia conhecido em outro lugar. Perguntava-me, então, como, no meio do sertão, em plena dificuldade de sobrevivência, podem se fazer bordados tão delicados?  Mas respondendo sua pergunta, em um primeiro momento estava interessada em estudar uma produção artística, prioritariamente produzida por mulheres. O artesanato me pareceu interessante porque é uma prática ordinária, que qualquer pessoa poderia praticar. Caicó aconteceu neste contexto, havia mulheres, bordados e se tratava de uma realidade que me despertava interesse por ser desconhecida, distante da minha realidade urbanóide.

Arcaica, mas up to date: hoje, as peças podem ser compradas direto das artesãs via internet. Isso ajuda na continuidade da tradição. Mas, você vai deixar de conhecer a catolaica Caicó, onde tudo é “videogame-oratório, high-cult simplório...moonwalkman”?

Arcaica, mas up to date: hoje, as peças podem ser compradas das artesãs via internet. Isso ajuda continuar a tradição. Mas, você vai deixar de conhecer Caicó, onde tudo é “videogame-oratório, high-cult simplório...moonwalkman”?

IC_E o que você encontrou em Caicó? Qual foi a sua primeira impressão?

Thaís Brito_A minha primeira viagem à Caicó foi em julho de 2005. Era um lugar totalmente desconhecido. Quando cheguei, logo me surpreendi. A cidade era linda, colorida, cuidadosamente organizada. As casas pintadas, os jardins com flores, um jeito muito simpático de ser e de receber os de fora. Mas, assustei-me com o calor. Nunca havia sentido um calor tão rigoroso. Mal conseguia pensar.  Depois da primeira vez, voltei mais umas seis vezes. Hoje, depois de tantas idas e vindas, já não sinto calor com tanta intensidade. Gosto ainda mais da cidade e das pessoas. Chego em Caicó pedindo galinha guiné e feijão verde…

IC_Qual o diferencial dos bordados de Caicó? Por que se tornaram tão famosos?
Thaís Brito_
Alguns estilos de bordar se reproduzem por todo o território brasileiro. “Richilieu”, “Matiz”, “Ponto Cheio”, enfim, são os pontos que, tradicionalmente, repetem-se há centenas de anos. E os bordados não são originais do Brasil. Sequer sabemos – graças a Deus –, de onde eles vêm, afinal, estão nos mais variados lugares. Provavelmente, borda-se desde quando a humanidade inventou a costura. A nossa busca pelo belo nos levou aos adornos e os bordados são as aplicações nos tecidos. São representações estéticas, criativas e pacientes, falam de emoções e muita disciplina. O bordado realizado em todo Seridó traz algumas especificidades, não no que se refere à criação dos pontos, mas à composição dos elementos. Essa composição passa por uma escolha cuidadosa das cores e da disposição dos elementos. Geralmente, são flores e arabescos. Nota-se que, no território nordestino, os bordados de Caicó são conhecidos pela variedade de suas cores, em contrapartida à predominância do bordado branco do litoral. Não estou querendo afirmar que os bordados de Caicó são coloridos e os do litoral não os são. Mas a quantidade de bordados produzidos deste modo é o dado que as bordadeiras usam para distingui-lo.

IC_bordado_3

O risco das bordadeiras: enquanto tiver importância, haverá bordado. As filhas podem não querer saber da tradição das mães. Mas, hoje, aprende-se até na TV

IC_Mas há mais algum diferencial que os destaque?
Thaís Brito_
Além dessas características que citei, os bordados realizados no Seridó tem, geralmente, uma qualidade distinta no sentido do “capricho” como dizem as bordadeiras. Um bom bordado, segundo as artesãs, precisa ser realizado com calma e precisão para que consiga ter uma boa aderência ao tecido, resistência às lavagens (por isso os materiais precisam ser ótimos, do tecido às linhas) e para que não deformem. Não existe um tipo de bordado. Nem uma especialidade de tecidos, motivos e escolhas das linhas. No entanto, há uma produção mais representativa para enxovais e, nos últimos anos, o bordado em camisetas. Ambos misturam Richilieu, flores coloridas e arabescos. Essa mistura revela uma percepção interessante sobre a natureza. O Richilieu é um bordado que cria textura ao mesmo tempo que permite, por causa dos recortes, criar um aspecto de renda. Com isso, consegue-se a transparência, a luz e, também, permite um “molejo” na peça. Bordam-se também, como já disse anteriormente, flores. Elas são uma representação de flores do campo, singelas, com poucas pétalas. Não só são lindamente bordadas, mas também parecem que saem do próprio tecido. E são encontradas em boa parte dos quintais de Caicó. Esses são apenas dois exemplos que podem ser observados com frequência na cidade.

O bordado não é uma simples mercadoria, não jogamos fora uma toalhinha bordada de nossa avó…O pedaço de pano guarda muita memória, história, mãos…

IC_Você terminou criando uma relação especial com a cidade. Pode comentá-la?
Thaís Brito_
Isso é algo inevitável. Acabamos sendo afetados pelas vivências, circunstâncias, pessoas. Acabamos fazendo parte da vida com quem convivemos, da mesma forma em que essas pessoas fazem parte da nossa vida. Acabamos aprendendo outros paladares, conhecendo outros ritmos de funcionamento do cotidiano. É impossível não se emocionar com a Festa de Sant’Ana, ainda que não seja católico, ouvir o louvor do sertanejo, os sons da catedral, ver os pés descalços da procissão, os olhos repletos de lágrima dos dias cansados que todos temos, as roupas brancas e bordadas, as janelas enfeitadas, o sagrado e o profano no meio da festa. É algo que contagia, que não se deixa no lugar quando se parte.  Eu não consigo me esquecer no barulho hipnótico das máquinas de bordar ou do som “nasalado” das palavras. Sem falar nas rodas boas de conversa deitada nas redes.

IC_bordado_thais_VSerá que Woody Allen viria filmar as prosas impúrpuras do Caicó? – Para Thaís, é impossível não se emocionar com a Festa de Sant’Ana. É algo que contagia, que se não se deixa no lugar quando se parte. Da “arcaica” cidade, não consegue esquecer o barulho hipnótico das máquinas de bordar ou do som “anasalado” das boas rodas de prosa ouvidas deitada na rede. Mais do que produzir uma tese, em Caicó, Thaís aprendeu que cada dia é um dia.

IC_Como se encontra a tradição hoje? Continua a ser passada de geração a geração?
Thaís Brito_
Essa história de tradição é uma conversa complicada. Precisaríamos de alguns outros encontros  ou de algumas páginas para nos aproximarmos deste tema sem incorrer em confusão. Mas posso dizer é que, enquanto o bordado tiver importância, bordaremos. Talvez, outros motivos, em outros lugares… Particularmente, não acredito que vá acabar, da mesma forma que não acredito que a geração trate apenas da ascendência. Quem nos ensinou isso foi a antropóloga Margareth Mead. Para ela, os filhos aprendem, primeiramente, com seus pais; mas não apenas. Aprendem com seus iguais. E mais: os pais também aprendem com os filhos. Portanto, talvez, as mães não estão ensinando os bordados para as suas filhas, mas outros podem ensinar. Há 40 anos era a escola, hoje, o Sebrae, as revistas de artesanato, os programas de televisão, etc.

IC_Mas você vê algum risco da descontinuidade dos bordados caicoenses?
Thaís Brito_Uma boa forma de mantermos a produção do bordado é consumir o bordado. Muitas pessoas não compram enxovais bordados para enfeitar a sua casa porque pensam que é caro ou que é difícil de cuidar. Essas duas afirmações são inverdades. Se buscar comprar do produtor – e hoje, com a internet, isso se torna muito fácil –, o preço será muito melhor, o comprador terá algo exclusivo e isso dinamizará a produção. Bordados em roupas, por exemplo, são igualmente lindos e podem ser usados com mais frequência. E, mais do que tudo, bordado não é uma simples mercadoria, não jogamos fora uma toalhinha bordada de nossa avó simplesmente porque ela rasgou, ainda que não mais a usemos. O pedaço de pano guarda muita memória, história, mãos. Depois, nem sempre uma toalha ou uma roupa bordada é complicado para se cuidar. Em Caicó, eu tenho visto um cuidado muito grande na escolha dos tecidos que são fáceis de passar e que não precisam ser engomados. É claro que, atualmente, não vamos comprar uma roupa ou um jogo de lençóis para termos que lavar à mão ou ficarmos uma hora debruçados com o ferro passando a roupa. Por isso, as bordadeiras estão pensando com cuidado em se preparar para este mercado, usando materiais de qualidade e indicando a forma de se cuidar.

IC_E quando terminar a pesquisa, o que pretende?
Thaís Brito_
Sei lá…. Às vezes acho que nem vou conseguir terminar essa pesquisa. Olhe, uma coisa aprendi em Caicó: “cada dia é um dia” (risos).

→ Deixe um ComentárioCategorias: DiverCidade · Entrevistas
Etiquetado: , , , , ,

Internetcidade no programa Roda Viva nesta quarta

7 Julho, 2009 · Deixe um comentário

Foto Edu Girão - Flip 2009

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também enviará imagens. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

A Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) vai acompanhar, via Twiiter, a entrevista da escritora e jornalista chinesa Xinran no programa Roda Viva, da TV Cultura. Xinran foi uma das participantes da Festa Literária de Paraty (Flip). O programa será gravado nesta quarta-feira (08/07), a partir das 14h, e transmitido ao vivo pela internet exclusivamente pelo site da IPTV Cultura www.iptvcultura.com.br/rodaviva.

Um canal de bate-papo será agregado à transmissão, por meio do qual o público poderá  interagir com a produção e encaminhar perguntas, comentários e sugestões. Além disso, você pode acompanhar os meus comentários do debate via o Twiiter da Internetcidade (@internetcidade) e outros dois “twitteiros” pela hashtag #rodaviva. Um fotógrafo com Flickr também acompanhará a gravação. As  câmeras abrem a transmissão meia-hora antes do programa, às 13h30, com entrevistas com os convidados do programa.

Espero vocês no Twiiter. E espalhem para as suas redes!

Abraços, Paulo Celestino.

P.s: O debate com a escritora Xinran será exibido na TV Cultura, em dia ainda a ser programado.

Sobre Xinran

Com a abertura política da década de 1980 em seu país, a jornalista e escritora Xinran (1958, Pequim, China) criou um programa de rádio que, durante oito anos, firmou-se como via de expressão para mulheres chinesas vítimas de violência. Impossibilitada de publicar os relatos, mudou-se para Londres e lá lançou As boas mulheres da China (2002). Integrou a equipe do Guardian até 2008 e publicou suas colunas em O que os chineses não comem (2006). Também escreveu Enterro Celestial (2005) e Testemunhas da China (2008), no qual cidadãos chineses, já idosos, relembram os anos sob o governo de Mao Tse-tung. (texto da Flip2009).

→ Deixe um ComentárioCategorias: Uncategorized
Etiquetado: , , , , , , , , ,

O vapor barato das chemtrails

24 Junho, 2009 · 2 Comentários

Os aviões, ao redor do mundo, deixam rastros a grandes altitudes. No jargão aeronáutico, são chamados de Contrails (condesation trails), uma mistura de vapor de água condensado e gases quentes expelidos das turbinas como, claro, o indesejável gás carbônico (CO2). Mas há quem desconfie que há muito mais do que isso nos céus. São as tais das Chemtrails.

Vistos até do espaço e de satélites, a suspeita acerca dos chemtrails é de que químicos estão sendo adicionados aos jatos, em uma estratégia mundial, sabe-se lá para quê. A desconfiança surge quando as Contrails se apresentam mais densas e se “solidificam” no ar, quase feito nuvens. Como boa parte da composição dos rastros é de gases e vapor d’água, o normal seria que elas se desfizessem e se espalhassem. O que não acontece com as tais Chemtrails, que teriam densidade, cor e aspecto diferentes dos rastros normais.

Em um dos mais mirabolantes roteiros de teoria da conspiração, a rede ativista levanta que seja alguma ação “d’os Caras” contra o aquecimento global. Há ainda notícias de que, na análise dos gases (como se fosse fácil assim estudá-los), foram encontrados metais pesados como Alumínio e Bário. Tudo isso dentro de um complô para “enfraquecer e controlar as mentes humanas”.

De tanto alarde, pesquisadores baseados nos estudos dos gases expelidos pelos vulcões até reverteram a ideia e dizem que a loucura tem fundamento e os aerosóis poderiam, ser sim, uma alternativa contra o aquecimento global. Dos EUA (sim, eles fazem dessas coisas), há vários movimentos para que a coisa seja investigada a fundo. Em verdade, as autoridades dizem que tudo não passa de vapor barato. Ou seja, boato, hoax, puro mesmo. Paranóia química ou não, no mínimo, é poluição (a aviação é responsável por 5% do aquecimento global).

Teorias da conspiração à parte, tudo isso é para falar que o cantor Beck se inspirou nas tais condensações e compôs a bela Chemtrails, do disco Modern Guilty (2008). Mais do que falar sobre as tais trilhas misteriosas, “The Cool Guy” do rock eletrônico alternativo parece até ter feito uma homenagem prévia às vítimas do AF 447 ao misturar mar, gente indo e vindo, noite, jatos e as tais chemtrails. Como a Internetcidade gosta muito de aviação, tira os pés do chão da cidade, vai aos altos dos céus e ao fundo do mar ao mesmo tempo ao som de Beck. A quase um mês do acidente, essa também é nossa homenagem às vítimas do voo da Air France.

Down by the sea - Beck canta as trilhas nos céus. Mas será que o 'Cool Guy' antecipador de tendências previu um dos maiores acidentes aéreos de todos os tempos?

Down by the sea, how many People: Beck canta trilhas nos céus. Mas será que o 'Cool Guy' antecipador de tendências previu um dos maiores acidentes aéreos de todos os tempos?

Chemtrails

(Beck – Modern Guilty)

I can’t believe what we’ve seen outside
You and me watching the jets go by
Oh, ooh, oh
Oh, ooh, oh

Down by the sea
So many people
They’ve already drowned

You and me watching a sea full of people
Try not to drown
So many people
So many people
Where do they go?
You and me watching a sky full of chemtrails
That’s where we belong

All I can take from these scars is hope
But all I can see in this night are boats sinking
Oh, ooh, oh
Oh, ooh, oh

Down by the sea swallowed by evil
We’ve already drowned
You and me watching a sea full of people
They’ve already drowned

So many people
So many people
Where do they go?
You and me hit by a touch of white evil

Watching the jet planes go by
You and me watching
You and me watching
The chemtrails is where we belong
That’s where we’ll be when we die in the slipstream
We’ll climb in a hole in the sky

→ 2 ComentáriosCategorias: DiverCidade · Música
Etiquetado: , , , , ,

Somos cegos ao óbvio

24 Junho, 2009 · 1 Comentário

IC_ternura_2

por Roberta da Purificação

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Restrepo conclama à Ternura

Restrepo e sua ternura: contra o autoritarismo, a co-gestão nas relações

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As consequências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

Roberta da Purificação é jornalista e também está na blogosfera em http://clarapalida.blogspot.com/. A querida amiga deixou um comentário no post do “Amor é importante, Porra!”  falando do livro “O Direito à Ternura”.  Pedimos para que ela fizesse uma resenha sobre o livro, que nos foi prontamente atendido. E aí está!

Era um domingo cinza quando comecei a ler O Direito à Ternura, para fazer um trabalho. Mas o que seria uma obrigação tornou-se puro prazer. Especialmente porque acabara de sair de um relacionamento, e a leitura me fez sentir na presença do escritor, o pisiquiatra colombiano Luis Carlos Restrepo <http://luiscarlosrestrepo.com/php/index.php>, numa “sessão” que duraria uma tarde inteira.

Sabe quando dizem que, quanto mais as pessoas se gostam, mais se maltratam? Como na música “A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva / Faz do amor uma história triste”. Parece chavão, mas se a gente olhar para o lado, não faltam exemplos próximos. Homens e mulheres que se atracam, irmãos que não se falam, amigos que se maldizem… Essas “obviedades” ganham seu devido lugar na obra de Restrepo, pois se concretizam em palavras que parecem escolhidas a dedo.

O autor nos faz sentir na pele o grande mal da sociedade contemporânea, a que chama de analfabetismo afetivo: “Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.”

Nesse contexto, esnobamos a dependência ao outro, negamos nossas fragilidades. Restrepo nos convida justamente a aceitar que somos seres interdependentes, sim, pois estamos todos ligados, dentro de um mesmo ecossistema. Também nos convoca a respeitar à singularidade dos indivíduos, pois é justamente a nossa cegueira em relação aos limites alheios que gera atitudes violentas.

Essa “terrível deformação”, que é o analfabetismo afetivo, ainda invade nosso ambiente de trabalho, onde as relações de poder e as ambições destroem qualquer possibilidade de ternura. Nesse campo, prevalece o autoritarismo como modelo político, em detrimento da democracia. A propósito, o autor compara a co-gestão ao ato da carícia: ao invés de “agarrar” violentamente o outro, acompanha suavemente seus movimentos. Ainda no campo profissional, buscamos independência financeira. E aqui se fecha o ciclo deformado, que não aceita a dependência como valor humano.

O fato é que não fomos educados e não estamos preparados para “acariciar” e “interdepender”, simplesmente. Em primeiro lugar, buscamos “agarrar” e “conquistar”, para satisfazer nossas vontades. Como crianças prepotentes, gritamos: “Eu quero isso agora mesmo!”. E se os outros não puderem oferecer, fogo neles! As conseqüências vão desde pequenas desavenças diárias, até grandes guerras mundiais. Infelizmente somos cegos ao óbvio.

→ 1 ComentárioCategorias: Resenhas
Etiquetado: , , , , , ,

Internetcidade na Revista da Folha

11 Junho, 2009 · 2 Comentários

reprodução

É com orgulho que a gente bate o bumbo e repercute que o blog Internetcidade (internetcidade.wordpress.com) foi citado na matéria de capa “Pintou o amor” da Revista da Folha assinada por Leticia de Castro no último domingo (07/06).

Tendo como pauta o amor e as formas de registro dele entre os apaixonados aproveitando a efeméride do Dia do Namorados, o post “O Amor é importante, porra!”, sobre a pixação, que como um viral invade a cidade de São Paulo, ganhou citação na matéria de seis páginas. Abre aspas da Revista da Folha, a partir do texto blogado:

“Em meio a essa busca insana de tudo o que é sólido e se desmancha no ar, o que é importante? Meu amigo, o amor é importante. Com numa música do Roberto, todos estão surdos. Daí o grito!

O texto sai entre comentários dos escritores Xico Sá, Clara Averbuck e outros colegas blogosfera que andam a repercutir a pixação.

Vale ainda dizer que o post com bela foto do amigo Fábio Candeias gerou o maior número de repercussões e de acessos desde a criação do blog. Não viu ainda? Pulem de uma perna só lá em http://internetcidade.wordpress.com/2009/03/27/o-amor-e-importante-porra/

Vários sites e blogs também estão “pingando” o post e a foto, entre eles o Pictura Pixel, do fotógrafo Cláudio Versiani, o do colega Rodolfo Viana, o Balaio Vermelho do grande Moacy Cirne e outros como o da fotógrafa Carla Zavatieri. Sem falar na Twittesfera! Como apontou o próprio Versiani, essa rede é sensacional!

Ah, só pra não esquecer, prestes ao Dia dos Namorados, minha homenagem aos casais mundo afora e ao próprio amor, em forma de um grito viral que se espalha em muros, bits e ondas pelo mundo:

“O amor é importante. Porra”

Abraços (amorosos) do Paulo Celestino

→ 2 ComentáriosCategorias: Uncategorized

Uma conta que nunca fecha

22 Maio, 2009 · 2 Comentários

foto: PEbodycount

Todo dia ele se sentia escrevendo a mesma reportagem. Repórter de polícia em Recife há 10 anos, o jornalista Eduardo Machado percebeu que só mudavam os nomes das vítimas e dos personagens. As ocorrências de homicídios eram tantas que já nem vinham sendo mais noticiadas. Preocupado, resolveu deixar de lado o dogma jornalístico do não envolvimento e, junto com mais outros três colegas do Jornal do Commercio, criou o projeto PEbodycount que, por meio de um site (www.pebodycount.com.br), acompanha e registra os índices de homicídios no Estado, além de realizar e participar de outras iniciativas.

Entre elas, o PEbodycount utilizava um contador de vítimas instalado entre as ruas Guilherme Pinto e Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, em Recife. Uma faculdade local patrocinava o display e, com o cancelamento da parceria, o contador teve de ser desligado no dia 1º de maio. Naquele dia, o mostrador eletrônico registrava exatamente 4.433 homicídios em um ano (e desde janeiro de 2009, já são mais de 1.500 mortos). Mas o projeto continua de várias formas, principalmente com o registro dos homicídios e a discussão das políticas e estratégias de segurança pública no Estado no blog. Desde outubro de 2007, quando o site foi aperfeiçoado, o banco de dados já acumula mais de 7 mil registros de crimes com mortes. Hoje, o trabalho voluntário dos jornalistas conta apenas com o apoio de uma empresa de informática e da Associação do Ministério Público de Pernambuco, que custeia parte dos custos do site.

Quando o projeto foi iniciado em maio de 2007, Pernambuco liderava as estatísticas de crimes violentos letais intencionais (homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte). Os números, até hoje, ainda surpreendem, mas na última pesquisa divulgada, o Estado deixou o posto de mais violento proporcionalmente, tendo Alagoas e Espírito Santo agora à frente, respectivamente. O Rio de Janeiro vem em quarto lugar. Machado avalia a dança das cadeiras da violência: “Não é que Pernambuco tenha diminuído seus índices, mas é que os outros estados conseguiram ser mais violentos”.

Mesmo “perdendo” o primeiro posto, a capital pernambucana que abriga um dos maiores carnavais de rua do país, foi destacada em matéria do dia 15 de maio do jornal britânico The Independent, que a definiu como a “Capital Brasileira do Assassinato”, denunciando ainda a existência de grupos de extermínios e justiceiros dentro da própria Polícia ocupados de matar os “indesejáveis”. É importante ainda colocar que Pernambuco continua a ser mais violento que o Iraque, até mesmo em números absolutos.

Sobre as causas de tamanho descontrole na segurança pública, o jornalista prefere não julgar sob risco de cometer os mesmos erros de quem já opina sem bases. Segundo ele, ainda faltam estudos e pesquisas no Estado que realmente mapeiem as causas da violência. Machado aponta que apenas 10% dos crimes são investigados e o restante cai na vala comum de que eram pessoas ligadas ao crime e ao tráfico. Porém, o perfil dos mortos é muito bem conhecido. “São pobres, pretos, em torno dos 18 anos, moradores da periferia. Mas o por quê estão sendo assassinadas não sabemos. E daí a dizer que são apenas criminosos, é puro estereótipo”, avalia.

Ainda segundo Machado, a iniciativa do contador, que tem como inspiração o Iraqibodycount e o Riobodycount, foi muito importante. O objetivo não era só contar cadáveres, mas sim, colocar o assunto na pauta da sociedade pernambucana e fazer com que a população refletisse sobre a extensão da violência. O impacto foi imediato inclusive fora do país, atraindo a atenção de meios nos Estados Unidos e Europa. O contador foi assunto em jornais como Miami Herald, Los Angeles Times, entre outros, e também na mídia brasileira. Equipes de documentaristas também do exterior estiveram em Recife.

Por outro lado, também não faltaram críticas, principalmente a de que o contador seria um desestímulo ao turismo no Estado. Machado até reconhece o argumento, mas também dispõe de vários outros que justificam a importância do PEBodyCount.  Ele lembra que foi sua responsabilidade contar os homicídios no primeiro fim de semana do funcionamento do contador, em maio de 2007. Foram 56 mortos. Na segunda-feira, ele assistia ao apresentador e editor William Bonner, do Jornal Nacional, destacar 18 mortos no conflito Israel-Palestina no fim de semana. “Aqueles 56 de Pernambuco não mereceram nem uma nota”, frisa.

Para o jornalista, fica evidente que há uma anestesia quanto à violência no país e a mídia tem ativa participação nisto. “Vivemos de casos. É o caso Eloá, o caso Isabela e seguimos nessa sucessão até o próximo. E é só neste momento que nos damos conta em que sociedade violenta nós vivemos. É necessário saber mais dessa violência, estudarmos mais o fenômeno para constatar onde cada um de nós se insere na produção destes índices e como podemos combatê-la”, afirma.

Além do site, Machado destaca que o Jornal do Commercio também se envolve diretamente na produção de matérias e cadernos especiais para a discussão da gestão e estratégias da segurança pública no Estado. Ele mesmo já acompanhou as iniciativas e projetos de redução da violência fora e dentro do país, como o Tolerância Zero em Nova York e o Segurança Cidadã de Bogotá ou, em São Paulo, que vinha apresentando redução dos índices desde 1999. Em seu currículo, ele acumula prêmios como o Esso, Embratel, Vlademir Herzog e Cristina Tavares (PE) com matérias sobre Direitos Humanos e Segurança Pública.

Fazem parte ainda do PeBodyCount, além de Eduardo Machado, os jornalistas João Valadares, Carlos Eduardo Santos, Rodrigo Carvalho. Eles também são agraciados ou finalistas em prêmios como o Vlademir Herzog de Direitos Humanos, Embratel, Tim Lopes e OAB de Direitos Humanos. O Internetcidade conversou com Eduardo Machado, por telefone. Neste meio tempo da conversa até a publicação, o contador do site já registrava quase 100 homicídios a mais.  E faltando menos de 10 dias para o mês acabar, o registro marca 223 homicídios em maio. Um deles, a morte do professor e turismólogo Igor Siqueira Duque, de 28 anos, em um assalto, provocou a atenção da sociedade recifense, tornando-se mais um caso.

Internetcidade_Como surgiu a iniciativa e qual era o objetivo do contador?

Eduardo Machado_Em maio de 2007, lançamos o site PEbodycount, que inclusive contou com a palestra com o ex-secretário de segurança de Bogotá (­Hugo Acero). Entre tantos crimes, queríamos que nenhum homicídio deixasse de registrado e que esse número estivesse à disposição da população. Mas no próprio evento de lançamento, algumas pessoas já questionaram que, se o projeto era voltado para as pessoas carentes, muitas não teriam acesso ao computador. Um ano depois conseguimos viabilizar o contador e o impacto foi imediato. Dezenas de jornais deram a notícia e equipes de documentaristas vieram de outros estados e de outros países para mostrar a situação.

foto: PEbodycount

O contador, agora desativado, e a dança das cadeiras da violência: eram 4.433 mortes em um ano no dia do desligamento. Não é que Pernambuco se tornou menos violento. Mas os outros estados conseguiram ser mais.

IC_Quais são os principais motivos dos crimes no Estado?

Machado_Essa é a questão chave neste problema. Ao contrário de outros lugares, aqui em Pernambuco ainda tem muito pouca gente envolvida no estudo e investigação da violência. Isso ainda está engatinhando. Os crimes geralmente são relacionados à criminalidade e ao tráfico de drogas. Mas hoje, nem 10% dos homicídios são investigados, de modo que não sabemos quais são os motivos reais dessas mortes. Mas o perfil é muito bem definido. É pobre, preto, morador da periferia, com idade em torno dos 18 anos.  Se encontrados com maconha, a generalização é de que era assaltante ou do tráfico. E já são motivos para não se investigar. Mas se alguém morre em regiões de classe alta e havia maconha, ninguém vai associar ao tráfico. Ou seja, é puro preconceito. É preciso investigar, para termos uma abrangência muito maior dos motivos e termos um norte do que pode ser essa questão da motivação. Poderia chutar e dizer que é só a criminalidade, mas incorreria em um erro.

IC_Em termos de políticas públicas, o que vem sendo feito para diminuir a incidência dos crimes?

Machado_No momento, está em andamento o programa Pacto pela Vida, do Governo do Estado, que tem como objetivo reduzir em 12% por ano no número de crimes violentos letais. Criado em 2007, o programa conseguiu uma taxa de redução de 6,9% no primeiro ano. Agora no segundo ano, foi de apenas 2,6%, número que já inclui o crescimento da população no período. Ou seja, em números absolutos, temos que a redução é de cerca de 1%, o que pode perfeitamente estar na margem de erro. Desde a criação do programa, mais de dois bilhões de reais foram investidos na segurança pública tanto em equipamentos como em aumento de efetivos. Mas as estatísticas mostram que o gerenciamento de recursos e esforços não estão gerando os resultados esperados e que precisam ser revistos.

IC_Isso demonstra ainda que só investir em polícia não é a solução?

Machado_Só investir a polícia virou um jargão, do qual a própria Polícia já compactua. Ela quer compartilhar as responsabilidades. Eu também concordo que só investir em polícia não é solução, mas com certeza uma reformulação mais ampla das políticas pode implicar em uma redução muito significativa das estatísticas. Arrumar e rearrumar é uma obrigação de quem quer mudar. É muito importante contar com a mudança desses paradigmas de investimentos.

IC_Recife apresentava ainda altos índices de crimes por motivos torpes. Há aí uma questão cultural também?

Machado_A cultura do machismo, de não levar o desaforo para casa, é muito presente, mas não sei o quanto é determinante. Fora Alagoas e Pernambuco, os outros estados do Nordeste apresenta índices relativamente baixos o que mostra que tem alguma coisa a mais a ser determinada. Precisamos investir mais neste levantamento das causas.

Mais de 2 bilhões de reais foram destinados para diminuir os homicídios em Pernambuco. A meta de redução é de 12% ao ano. No primeiro ano, foram alcançados 6,9%. No último, houve retração de apenas 2,6%. Para Machado, a conta não fecha com o esperado e  rever as políticas é obrigação de quem quer mudar.

IC_Vocês deixaram o dogma jornalístico do não-envolvimento e se mobilizaram. Como foi isso?

Machado_Nós nos envolvemos porque vimos, que como repórteres, estávamos contribuindo de uma maneira negativa. Cobrindo Polícia, eu senti que estava fazendo a mesma coisa há 10 anos, contando a mesma história todo dia e o que mudava eram apenas os nomes, os personagens. Desse jeito, estávamos nos encaixando na engrenagem da violência. E não queríamos nos tornar mais um nesta construção. Resolvemos agir contribuir de forma positiva e o que sabemos e podemos fazer é comunicação. O PeBodyCount é um projeto de comunicação contra a violência. É a nossa contribuição como cidadão. É um trabalho voluntário. Temos apenas uma parceira, a Associação do Ministério Público de PE, que contribui com uma parte dos custos do site.

IC_E qual foi a reação?

Machado_Vemos que esse envolvimento foi muito bom e importante. A gente se sente fazendo realmente uma coisa diferente, pois queríamos que a sociedade debatesse o assunto. Pela primeira vez as pessoas tiveram de refletir, explicar aos seus filhos o que era aquilo. Claro que tivemos muitas críticas contra o contador, principalmente a de que afastaria os turistas. Mas, ao mesmo tempo, temos vários argumentos, que mostram a importância da iniciativa. A sociedade está muito presa a “casos”. É o caso Isabela, Eloá e segue nessa sucessão até o próximo. Aí vemos como nossa sociedade é violenta. Mas seguimos sem o contexto desses crimes. Para isso, é preciso estudar mais o fenômeno, saber onde a gente se encaixa nele e como podemos reagir.

Mar de lágrimas: manifestantes estendem lenços em Recife para marcar as 1.174 mortes registradas de janeiro ao dia 7 de maio deste ano. O por quê das mortes não se sabe. Menos de 10% dos crimes são investigados. Mas o perfil das vítimas é muito bem conhecido: são jovens, pobres, negros e moradores da periferia.

IC_Há outras iniciativas a se destacar?

Machado_Há iniciativas muito interessantes. Um desempregado deu um grande exemplo com a criação de uma biblioteca na palafita, em uma área super violenta da cidade. Ele foi comprando livros em sebos e as crianças iam para lá, passavam o dia lendo. O Ministério da Cultura achou tão interessante que resolveu replicar a iniciativa, tornando em uma política pública, em forma de kit, para o Brasil inteiro. E aí, na inauguração da primeira biblioteca em Recife, veio ministro da Cultura, representantes do Governo, da Prefeitura. A biblioteca foi instalada em uma garagem, nem tinha bebedouro banco para as crianças sentarem. Até um “favelado” fez, mas o governo não conseguiu fazer. Isso mostra que é possível fazer muito com pouco.

IC_Como vocês pretendem continuar atuando depois do desligamento do contador?

Machado_O PEbodycount não é só o contador. Nós fazemos e participamos de outras iniciativas e eventos como o “Marcas da Violência”. Pintamos uma marca de um corpo em 80 lugares de Recife onde pessoas morreram. Fizemos também uma parceria com a Igreja Católica onde mais de 100 nomes de pessoas assassinadas eram lidos antes das missas em várias igrejas. Participamos em parceria com o ONG Rio de Paz e fincamos cruzes em Boa Viagens e lenços quando atingimos a marca de mil homicídios somente neste ano. Tudo isso na tentativa de mobilizar as pessoas. Queremos causar essa indignação. Essa é a base do nosso trabalho. Quanto ao display, aguardamos novos parceiros interessados e estamos trabalhando para isso.

→ 2 ComentáriosCategorias: Entrevistas
Etiquetado: , , , , , , ,

Fotografia potiguar mostra suas cores em São Paulo

30 Abril, 2009 · 1 Comentário

foto: Jean Lopes

Um apanhado da atual fotografia artística norte-riograndense. Essa é a proposta da mostra “Fotografia Contemporânea Potiguar – Imagens da Esquina do Brasil”  que levará nove fotógrafos e 77 imagens da produção de potiguares ou de profissionais radicados no estado em exposição pelas cidades de São Paulo, Brasília e Rio.

Os paulistas serão os primeiros a conferir as imagens da esquina do continente. A mostra estréia na Caixa Cultural neste dia 30 de abril em São Paulo. Segundo o fotógrafo e curador da mostra, Ricardo Junqueira, o Coletivo Potiguar se formou a partir da troca de “informações e figurinhas” entre os fotógrafos e ele viu que os interesses em relação à fotografia eram muito parecidos. A coisa evoluiu para um projeto que tem como objetivo funcionar  como  ferramenta estratégica de registro e inserção do Rio Grande do Norte no cenário nacional e internacional da fotografia.

foto: Erik van der Weidje

"Este não é o meu filho": van der Weidje e a dose de irreverência holandesa no Coletivo Potiguar

Ainda segundo Junqueira, não houve a preocupação de buscar uma linguagem comum entre os trabalhos. “A não ser pelo fato de todos serem pessoas que trabalham e vivem de fotografia e terem um olhar “diferente”, com uma preocupação que vai além do mero registro”, explica sobre a reunião dos fotógrafos e escolha das imagens.

A diversidade de visões, técnicas e formatos marcam a exposição, que vão do preto e branco à saturação de cores, das temáticas sociais de registro e de denúncia até o despretensioso “click” em família ou em jornadas de viagem, somadas com outras técnicas artísticas intervindo no resultado final das fotografias.

Idealizado por Ricardo Junqueira, o Coletivo Potiguar se destaca ainda pela diversidade “geográfica” dos fotógrafos. O próprio Junqueira é brasiliense, morando em Natal desde 1996, tendo trabalhado passagens por  São Paulo e Itália. Jean Lopes é potiguar da cidade de Assu. Nuno Rama é da Paraíba. De São Paulo, José Frota e Pablo Pinheiro. Erik van der Weidje, da Holanda. Max Pereira e Hugo Macedo são natalenses e Karen Montenegro, de Alagoas.

A exposição já pode ser vista também na Internet em www.coletivopotiguar.blogspot.com.  Em São Paulo, a exposição fica até o dia 14 de junho. Depois, segue para Brasília entre 30 de julho a 31 de agosto. A exposição termina no Rio de Janeiro, de 20 de outubro a 29 de novembro.

O fotográfo Ricardo Junqueira conversou, por email,com o Internetcidade e falou também sobre a expectativa da exposição e qual é a contribuição dos olhares da esquina do continente.

foto: Ricardo JunqueiraInternetcidade_Como podemos avaliar o atual momento da fotografia potiguar?

Junqueira_Acho que estamos nos descobrindo e percebendo que a qualidade independe da geografia.

IC_Ao seu ver, qual a grande contribuição dos olhares da esquina do continente?

Junqueira_Minha maior preocupação é mostrar que existe uma produção de qualidade e fazer o Rio Grande do Norte aparecer um pouco mais no cenário nacional. Afinal, nós temos paisagens maravilhosas, mas não é só isso. No paraíso turístico também tem profissionalismo.

IC_Na sua opinião, o que vem impulsionando a fotografia no Estado?

Junqueira_Os fotógrafos – e isso não se aplica somente aos Potiguares e aos que vivem no RN -, são quase sempre apaixonados pelo que fazem e certamente é o que impulsiona essa produção.

IC_A exposição passa ainda por Brasília e Rio. Qual a sua expectativa?

Junqueira_Esperamos o máximo de visitação, que [a exposição] possa crescer e contribuir para que mais pessoas conheçam o trabalho que nós fazemos. E outros possam se interessar por fotografia.

→ 1 ComentárioCategorias: Esquinas
Etiquetado: , , , , ,